Por Jayme Asfora*
“O que vale na vida são os nossos afetos. O amor e a busca pela felicidade estão no centro dos principais sistemas filosóficos e no centro das principais religiões. O amor a Deus, o amor incondicional dos pais pelos seus filhos, o amor dos filhos pelos pais, o amor ao próximo que é esta benção chamada fraternidade, o amor próprio que nos dá paz e segurança e, por fim, o amor apaixonado de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem ou de uma pessoa por uma pessoa”. Esse é um trecho da defesa apresentada pelo jurista e procurador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Roberto Barroso, no julgamento conjunto da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132 que garantiu aos casais homoafetivos, todos os direitos concedidos a qualquer outro tipo de união estável.
A discussão, mais do que importante, sobre os direitos da população LGBT não é apenas uma questão jurídica. Vai além. É discussão sobre a tolerância. Sobre sermos ou não tolerantes uns com os outros, independentemente de crença, orientação sexual, raça, entre outras diferenças. Todos nós, temos a obrigação civilizatória e constitucional de respeitar a todos. Em relação aos direitos dos casais homoafetivos, o debate é anacrônico – uma vez que o Supremo Tribunal Federal já pacificou o entendimento sobre a matéria. Assim como é anacrônico, nos deparamos com pronunciamentos insanos como os do deputado Marcos Feliciano ou da cantora Joelma. Em contraponto, temos a alegria de assistir à coragem e ao bom senso da cantora Daniela Mercury que assumiu, publicamente, a sua relação.
É preciso ainda estamos em alerta permanente para a questão da homofobia. Desde aquela mais sutil – com pessoas proibidas de manifestar o seu afeto publicamente – aos casos mais graves que envolvem agressões desumanas. Em Recife, contamos com um instrumento fundamental: a Lei Municipal n° 17.025/04 – que prevê como ilícito qualquer ato ou omissão que caracterize constrangimento, exposição vexatória, tratamento diferenciado ou que prive a livre expressão e manifestação de afetividade em razão de orientação sexual. Com base nessa lei, o bar Socaldinho foi advertido pela Dircon, em setembro do ano passado, após ter expulsado do local um casal de namoradas que trocava carinhos publicamente. Essa é uma lei que deve ser de conhecimento de todos para garantir que não se torne letra morta. É compromisso nosso, como parlamentar, trabalhar em para isso, inclusive através de parcerias com a Gerência de Livre Orientação Sexual (GLOS) da Prefeitura do Recife.
Na semana passada, foi lançada a proposta de reativação da Frente Parlamentar LGBT na Câmara dos Vereadores do Recife. Com ela, é possível mantermos um fórum permanente de discussão em torno de todo o preconceito, humilhações e violências por quais passam, diariamente, essa parcela da população recifense. É uma Frente para quebrar o padrão de intolerância ainda tão enraizado em nossa sociedade.
Também é fundamental que os professores – responsáveis, juntamente com a família, pela edificação da nossa cidadania – sejam capacitados para implantar uma cultura de respeito à diversidade – inclusive como forma de prevenção ao bullying. Através desse trabalho, é possível ensinar valores às vezes esquecidos como os de que todos são iguais perante a lei e devemos amar uns aos outros como a si mesmo. A homofobia desmedida já causou muitos crimes como o caso, mais recente, de um rapaz que foi agredido em uma boate, no Estado de Santa Catarina, por estar beijando outro.
Assassinatos foram praticados em nome desse ódio irracional e, muitas vezes, cego. Essa falta de compreensão e visão dos homofóbicos já levou inclusive a dois casos emblemáticos. Em julho de 2011, pai e filho foram espancados em São João da Boa Vista (A 216 km de São Paulo) por um grupo de sete homens que os cercaram por acharem que eram um casal gay. Somente porque os dois estavam abraçados. O pai chegou a ter parte da sua orelha decepada. Já em junho de 2012, dois irmãos gêmeos, naturais de Ibimirim (PE), foram agredidos ao andarem abraçados próximo a um evento junino, em Camaçari, município na região metropolitana de Salvador. Um dos irmãos não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo. O rol de barbaridades é enorme. Para concluir, cito o trecho de uma carta que recebi de um pernambucano, André Santos, trabalhador como tantos outros. Filho dedicado e homossexual: “o que meu amor tem de diferente do amor de qualquer outra pessoa? Tudo!! Porque, na verdade, todos são diferentes. Me considero um ser humano de respeito, muito respeito. E exijo respeito, muito respeito! Sofri discriminação sim, minha vida toda e isso tem que parar, isso tem q ter um basta”.
* Jayme Asfora é vereador do Recife