Por Marcelo Ferreira Lima*

O que você faria se tivesse HIV? Esta é uma pergunta subjetiva, mas não está distante de ninguém.  Na década de 80 quando o vírus da AIDS foi identificado cientificamente, todos ficaram temerosos a cerca de uma epidemia que disseminaria a humanidade. A notícia mexeu com as condutas e opções da sociedade e durante muito tempo, foi vista como uma chaga do século XX restrita aos famosos  “grupos de risco”, que eram rotulados por determinada prática sexual e de conduta “à margem” da sociedade, como os usuários de drogas e de álcool.

A população buscava qualquer que fosse a explicação para a doença, baseada em ideologias, dogmas, conceitos e suposições. Várias teorias tentavam explicar  o aparecimento deste terrível vírus, que por destino histórico veio a ser disseminado  em um continente já marcado pelo isolamento mundial e a segregação humanitária: A pobre e desprotegida África.

Da descoberta do vírus proveniente dos primatas até suposição militar em uma possível participação da CIA em sua “criação” na iminência de desenvolver uma arma de grande poder biológico, as especulações criaram uma barreira mais instransponível que a cura: o preconceito.

Mesmo com as recentes pesquisas e os bilhões investidos, atualmente a única maneira que temos de nos livrar das agressões que o vírus pode nos trazer é através da prevenção.  É exatamente esta a nossa preocupação: conscientizar os homens, mulheres, jovens,  adultos, adolescentes, homo ou heteroafetivos  da necessidade de se amar  e se cuidar. É uma pena que em pleno século XXI, época das evoluções midiáticas e da valorização da informação na velocidade da luz, as pessoas ainda estejam atreladas às antigas suposições do que é e do que se pode fazer para evitar o HIV, deixando assim, a porta aberta para este vírus fatal.

O mais recente Boletim Epidemiológico AIDS/DST do Ministério da Saúde identificou que a região Sul do Brasil apresentou a maior taxa de incidência da doença no ano passado (28,8 casos a cada 100 mil habitantes), seguida das regiões Norte e Sudeste, (com taxas de 20,6 e 17,6) respectivamente. Regiões desenvolvidas e de expressão em nosso país. A menor taxa da doença, por exemplo, ficou com a região Nordeste que apresentou 12,6 no índice.

Com este “retrato da doença no Brasil”, nos perguntamos: Onde está a interação das campanhas contra a doença e a modernidade da informação onipresente?  Será que a nossa política educacional, no quesito sexualidade e cuidado com o corpo está presente na rotina dos brasileiros?

Temos que esquecer as arcaicas denominações de “grupos de risco”, e tratar o HIV como uma questão humanitária, que atinge desde o garoto inexperiente e desinformado que tem a sua primeira relação sexual sem preservativo, até a dona de casa, que por um motivo ou outro, acaba contraindo a doença por causa da imprudência do marido que leva uma vida silenciosamente promiscua.

Em Pernambuco, de 1983 até julho de 2011, a Secretaria de Saúde registrou 16.062 casos de AIDS, sendo 10.614 em homens e 5.448 em mulheres.
Dentre estes dados, temos o índice do público de 13 a 19 anos:  as estimativas são de duas garotas  com o vírus para um garoto, deixando clara a expansão da doença entre as mulheres cada vez mais jovens.

A única expressão clichê que se aplica muito propriamente em a nossa sociedade é “Quem vê cara, não Vê AIDS”.  Se cuidar, se amar se prevenir é uma questão de conduta social. Não precisamos viver em clima de terror social e alerta. Temos que adotar práticas saudáveis, como por exemplo, o uso do preservativo, que ainda é o meio mais eficaz de proteção contra o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

O estigma do preconceito ainda está atrelado na nossa sociedade, mas a prevenção é para todos. Respeitemos a individualidade do próximo e façamos a nossa parte.O jovem parece que não vê a cara feia do HIV e mesmo parecendo e querendo estar em um ambiente de total informação, ainda esquece de se cuidar. Então antes de responder a pergunta “o que se faria se estivesse com AIDS?” , seria interessante e prudente nos indagarmos: “O  que faríamos para não nos contaminarmos pelo vírus?  Reflita.

Também devemos retomar a política intensiva e educativa em relação a AIDS, intensificando os serviços estruturais ao portador do HIV, incluindo critérios de humanização, acolhimento físico e psicológico.

Em um combate ostensivo desta chaga maior e ainda instransponível do preconceito. Um Pré-conceito que fere, que dói e que machuca em suas diversas esferas.

* Marcelo Ferreira Lima é Mestre em Odontologia pela UPE e Gestor em Saúde Pública de Pernambuco.