Da editoria de Programa
Da Folha de Pernambuco

De tempos em tempos surge uma figura que transforma em absoluto a realidade em que vive, às vezes de maneira tão profunda que não apenas modifica a dimensão cultural de seus amigos ou de sua Cidade, como parece fertilizar permanentemente um terreno artístico estagnado. Até mesmo os jovens de 20 anos, mesma idade do manifesto “Caranguejos com Cérebro”, que apontou os caminhos do Manguebeat, esboçam uma lembrança respeitosa à figura de Chico Science, mentor do movimento que há 15 anos teve sua jornada tragicamente interrompida. Ele seguia para tocar na prévia do “Enquanto Isso na Sala de Justiça”, quando seu carro se chocou a um poste na Rodovia PE-15, no Complexo de Salgadinho, divisa entre Olinda e Recife.

Nascido em Rio Doce, Chico cresceu em Olinda durante a década de 1970 frequentando bailes de periferia e desde então, passou a criar uma simbiose, chamada de “mangue”, entre diferentes referências musicais, do hip hop ao maracatu, das batidas eletrônicas ao rock tipicamente inglês. O atual secretário de Cultura do Recife, Renato L., que ajudou na escrita do manifesto inicial e discotecava nas festas na época, comenta que “Chico era uma grande articulador e isso era uma característica presente não apenas na sua capacidade de reunir amigos, mas também estava presente na sua música, que articulava diferentes estratégias e gêneros musicais”.
Antes da Nação Zumbi com quem gravou os discos “Da Lama ao Caos” e “Afrociberdelia” (depois foi lançado o ‘ao vivo’ “CSNZ”), Chico era um malungo da cena underground pernambucana, passou por bandas como Orla Urbe e Loustal, conhecendo o futuro parceiro musical, Fred Zeroquatro, no programa de rádio “Novas Tendências”. “Muita coisa já foi dita sobre a personalidade dele, mas gosto de salientar coisas que fogem do lugar comum, de fato ele tinha uma intuição e criatividade acima da média, mas gosto de lembrar do seu lado ativista. Não bastava imaginar as coisas, ele precisava fazê-las, de forma que nunca se entregava ao conformismo. Era uma coisa contagiante”, lembra o músico.

O circuito musical de Recife na década de 1990 era completamente diferente do de hoje. Não havia tanto apoio por parte dos governos municipais e estaduais, o axé dominava as festas e o gosto do público e também não existiam tantos festivais alternativos (o próprio Abril Pro Rock surgiu em 1993 e foi o grande ‘debut’ da cena Mangue), de modo que o ímpeto de Chico Science foi um dos responsáveis por mudar o panorama da cidade através de um discurso da diversidade e da flexibilidade cultural.

“Ele tinha tinha uma visão generosa de diálogo e troca, viajava e trazia um som novo para compartilhar, tinha uma pegada otimista sem ser uma ‘Poliana’ deslumbrada. Natural que ele marcasse a cena atravessando gerações”, reflete Renato L. Sobre a discussão se existe ou não a estética “pós-mangue”, Fred é enfático: “as duas teses podem estar certas, mas o fato é que qualquer garoto de 20 anos ou mais certamente cresceu numa cidade em transformação, em ebulição, de maneira que os frutos póstumos são consequência dessa realidade, assim como de outras mudanças, como o não tão simples fato de vivenciar a adolescência com a internet”.

HOMENAGENS

Dentre as lembranças da data, a MTV exibirá amanhã o especial “Chico Science – 15 Anos Depois”, apresentado por China, que veio ao Recife para conversar com parceiros artísticos de cantor. O programa vai mostrar também músicas inéditas em versão demo gravadas pelo músico antes da Nação Zumbi. Já no próximo sábado, toda programação da emissora será dedicada à obra do artista, contando com shows históricos, entrevistas e videoclipes.

A família, a Nação Zumbi e a Prefeitura do Recife preferem não lembrar a fatídica data, concentrando as comemorações durante o aniversário de nascimento do malungo (13 de março), com a realização da Semana Chico Science no Memorial dedicado a ele, localizado no Pátio de São Pedro. A coordenadora do espaço, Adriana Vaz, adianta que nesse ano a iniciativa vai contar com curadoria de Ricardo Brasileiro, focando através de seminários, oficinas, laboratórios e shows, a discussão sobre cultura digital e ativismo na internet.