Domingo, 08 de Novembro de 2009 00:00
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ARTIGO - 
Integração nacional: desafio de uma geração
  

Alexandre Santos*

Embora tenha es­ta­bi­li­za­do fron­tei­ras cla­ras e não en­fren­te ques­tio­na­men­tos po­lí­ti­cos ou di­plo­má­ti­cos, do ponto de vista con­cre­to, o Brasil ainda não con­se­guiu con­so­li­dar uma ver­da­dei­ra uni­da­de na­cio­nal.

Este é um tema in­cô­mo­do, mas, em­bo­ra pou­cos ad­mi­tam se­quer con­ver­sar sobre o as­sun­to, é ine­gá­vel que, sobre o imen­so ter­ri­tó­rio bra­si­lei­ro con­vi­vem mui­tos bra­sis, in­di­can­do que a in­te­gra­ção na­cio­nal é uma obra por con­cluir.

Levantada a lebre, os in­di­ca­do­res da des­con­ti­nui­da­de apa­re­cem aos bor­bo­tões.

Sem con­tar os des­com­pas­sos eco­nô­mi­cos e so­ciais, tra­di­cio­nal­men­te re­fe­ri­dos em es­tu­dos que apon­tam a exis­tên­cia si­mul­tâ­nea de bra­sis com di­fe­ren­tes ní­veis de ri­que­za e de con­for­to so­cial, amos­tras da falta de uni­da­de na­cio­nal pu­lu­lam em todas as áreas. Em ter­mos fer­ro­viá­rios, por exem­plo, a di­ver­si­da­de das bi­to­las des­mo­ra­li­za a tese da uni­da­de na­cio­nal, fa­zen­do do País um gran­de ar­qui­pé­la­go. Há um Brasil de 220 volts, outro de 110 volts; um Brasil de 60 ci­clos, outro de 50 ci­clos; e vai por aí. Este tipo de di­ver­si­da­de, que não se jus­ti­fi­ca por ra­zões téc­ni­cas, se pro­je­ta sobre vá­rias áreas com sig­ni­fi­ca­ti­vos e in­de­se­já­veis re­ba­ti­men­tos na di­nâ­mi­ca so­cial e eco­nô­mi­ca do País.

Nunca é de­mais fri­sar que o fato de o Brasil ser um país jovem, ter di­men­sões con­ti­nen­tais e ser mar­ca­do por ex­pres­si­vas pe­cu­lia­ri­da­des re­gio­nais e lo­cais não jus­ti­fi­ca a re­ni­tên­cia dos ele­men­tos que com­pro­me­tem a uni­da­de.

O de­se­jo de in­te­grar o País, na­tu­ral­men­te, não pode al­me­jar uni­for­mi­da­des amea­ça­do­ras da di­ver­si­da­de cul­tu­ral que faz do Brasil um am­bien­te es­pe­cial. Afinal de con­tas, as­sen­ta­da em cen­te­nas de mi­lha­res de ce­ná­rios que se con­fron­tam, ajus­tam, com­ple­tam e, às vezes, in­ter­pe­ne­tram uns nos ou­tros for­man­do mis­ce­lâ­neas com­ple­xas - e, mui­tas vezes, in­de­ci­frá­veis - e sub­me­ti­da a di­fe­ren­tes con­tex­tos po­lí­ti­cos, so­ciais, cli­má­ti­cos, geo­grá­fi­cos, his­tó­ri­cos e eco­nô­mi­cos, sa­bo­rean­do so­ta­ques de­li­cio­sos, a po­pu­la­ção bra­si­lei­ra en­fren­ta e pro­je­ta vá­rias rea­li­da­des, apre­sen­tan­do ní­ti­das di­fe­ren­ças nos modos de ver, des­cre­ver e es­cre­ver o mundo. Esta di­ver­si­da­de não pode ser amea­ça­da por ne­nhum pro­je­to de in­te­gra­ção, claro. Na rea­li­da­de, um pro­je­to de in­te­gra­ção pode e deve pre­ser­var as di­ver­si­da­des que for­ta­le­cem a uni­da­de. Veja o caso da mo­der­na Europa, que está pro­gres­si­va­men­te mais in­te­gra­da e, nem por isso, perde as iden­ti­da­des re­gio­nais e lo­cais.

É di­fí­cil saber se a de­sar­ti­cu­la­ção que com­pro­me­te a uni­da­de na­cio­nal de­cor­re da falta de uma de­ci­são po­lí­ti­ca para in­te­grar o País ou, in­ver­sa­men­te, de uma de­ci­são para mantê-lo des­co­nec­ta­do in­ter­na­men­te. De qual­quer forma, é certo que a in­te­gra­ção do País - cuja im­ple­men­ta­ção passa, ne­ces­sa­ria­men­te, por uma de­ci­são po­lí­ti­ca - en­fren­ta re­sis­tên­cias po­de­ro­sas. Embora só fa­vo­re­ça a con­ve­niên­cias lo­ca­li­za­das, alie­ní­ge­nas e xe­nó­fi­las - in­clu­si­ve àque­las que visam tão so­men­te com­ba­ter a tão so­nha­da in­te­gra­ção con­ti­nen­tal - mui­tos in­te­res­ses e de­sin­te­res­ses ten­tam evi­tar que os bra­sis se co­nec­tem para cons­tru­ção da base es­sen­cial para a pros­pe­ri­da­de con­jun­ta. Na rea­li­da­de, a de­sar­ti­cu­la­ção in­ter­na do País conta com po­de­ro­sos e si­len­cio­sos par­ti­dá­rios, in­clu­si­ve al­guns im­pul­sio­na­dos por boa fé, como aque­les que, no pas­sa­do, pro­je­ta­ram li­nhas fér­reas in­com­pa­tí­veis entre si para “di­fi­cul­tar uma even­tual in­va­são do País”. De qual­quer forma, por mais jus­ti­fi­cá­veis que pos­sam ter pa­re­ci­do no pas­sa­do, não há como, nos dias cor­ren­tes, sus­ten­tar qual­quer ar­gu­men­to con­tra a ar­ti­cu­la­ção na­cio­nal.

Se qui­ser cons­ti­tuir  um pro­je­to de de­sen­vol­vi­men­to in­clu­si­vo e par­ti­ci­pa­ti­vo, o País pre­ci­sa al­can­çar a uni­da­de na­cio­nal, dei­xan­do fluir a cir­cu­la­ção, pro­du­ção e des­fru­te de bens e ser­vi­ços de todos os tipos. Para isto, o povo bra­si­lei­ro pre­ci­sa re­be­lar-se con­tra os fra­cio­na­men­tos e rup­tu­ras; (pre­ci­sa) con­ter, de­ses­ti­mu­lar, des­mo­bi­li­zar e de­sar­ti­cu­lar for­ças rea­cio­ná­rias; [pre­ci­sa] co­brar pro­je­tos ca­pa­zes de in­te­grar os di­ver­sos bra­sis.

Que a uni­da­de na­cio­nal seja um pro­je­to acima das ideo­lo­gias e cores par­ti­dá­rias!

Que os todos bra­si­lei­ros pos­sam des­fru­tar o País que é seu!

 

* Pre­si­den­te do Clube de Engenharia de Pernambuco.

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