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Literatura alternativa e engajada
Projetos encabeçados por moradores de bairros populares estimulam reflexão social
MÔNICA MELO   
 

 Jovens xpõem representações sociais em fanzine

Dificuldade de acesso a grupos editoriais, desinteresse da iniciativa privada ou insuficiência de dispositivos governamentais focados em projetos literários com proposta diferenciada. Conheça histórias de pessoas que dispensam esse discurso para engatar publicações de teor literário que circulam por suportes alternativos. Com auxílio de ONGs ou associações sindicais, fanzines e folhetins produzidos por moradores de bairros populares da Região Metropolitana do Recife (RMR) ganham a praça como meio de divulgação de leituras provocativas da sociedade.

Desde 2004, o estudante de filosofia Daniel Florêncio, o Gonzo, edita o folhetim poético “Apolo e Dionísio”, projeto nascido na Biblioteca Multicultural Nascedouro, instalada nas dependências do Centro Cultural Nascedouro de Peixinhos pelo Movimento Cultural Boca do Lixo. Esta ONG, da qual Daniel participa, existe há 15 anos e é responsável pela coordenação da rede de bibliotecas comunitárias da RMR. O material publicado, breve coletânea de poemas de protesto ou de orientação mística e amorosa, propõe-se a posicionar os holofotes na direção da produção de escritores oriundos de bairros populares do Estado.

Mas a publicação ganha relevância, sobretudo, por ser concebida dentro de um contexto no qual o outro extremo, o público leitor, também recebe atenção especial. “Além de dar visibilidade no folhetim a novos poetas de comunidades, desenvolvemos entre moradores atividades de sensibilização à leitura para que eles se sintam motivados a consumir essa produção e qualquer outra”, explica Daniel, para o qual mais do que a realização de eventos literários pelo Estado que celebrem os cânones da área, é necessário investir em práticas inovadoras de mediação de leitura.

Motivados pela abordagem, em geral reducionista, veiculada pela grande mídia sobre o tripé favela, juventude e violência, os estudantes Ridivaldo Procópio, Auta Azevedo, Junior Rato e Berg Lima criaram, junto a outros moradores de comunidades da RMR, o zine “Desclassificados”. A publicação, apoiada pela ONG Etapas e já em sua 7ª versão, traz textos alusivos a representações sociais que esses jovens propõem para favela, funcionamento dos sistemas públicos de sáude e educação e outros temas-chave. “É uma produção coletiva. Todos escrevem, ilustram o zine. Costumo dizer que é uma criação de dentro para fora, porque escrevemos a partir de nossas vivências nas comunidades, nas escolas públicas”, comenta Auta.       

Já o poeta José Carlos Farias, o Malungo, que vive em Maranguape, Paulista, retrata o Recife e o que não figura nos cartões postais da Cidade no fanzine “De cara com a poesia”. O material alternativo, distribuído em 21 estados, funciona, conforme o idealizador, como uma vitrine de novos nomes das cenas pernambucana e nordestina. “Procuro trazer quem não teve oportunidade de publicar livro. Como participo ativamente de recitais pelo Nordeste, estou sempre com o material em mãos para divulgar a poesia de Pernambuco”, conta.           

A pedagoga Anita Presbítero, vizinha de Malungo, também edita um zine, o SamSara Literário, existente há dez anos. Os textos de crítica social e outros de temática mais leve são costurados ao lado de ilustrações assinadas por artistas plásticos e grafiteiros. Anita conta com a colaboração de ONGs e sindicatos para imprimir o material, distribuído em pontos culturais do Recife. “O zine é uma tentativa de divulgar anônimos que tenham inclinação para as letras. Por onde passo, jogo as sementes para que as pessoas se sintam estimuladas a produzir. Afinal, literatura não tem uma marca da academia. Literatura é, antes de tudo, um sentimento”, arremata.     

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