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Autor revisita com escrita universo lúdico de Jacques Tati
Hugo Viana
Da editoria de Programa
  
Apesar de humorista, Jacques Tati parecia não se importar muito com as palavras. Seus filmes prescindem de diálogos para serem apreendidos: sua matéria- prima era a imagem, talhada via pantomima, que encenava as contradições da sociedade moderna. No filme “Meu tio” (1958) - cartaz ao lado -, Tati usa mímica para observar a falta de comunicação entre pessoas numa Paris menos nostálgica (e romântica) e mais arquitetada na impessoalidade asséptica de uma metrópole.


A partir desse estilo essencialmente visual, é curioso ver que alguém se arriscou a escrever um livro baseado no filme de Tati, e transformar “Meu tio” (Editora Cosac Naify, R$ 37) num romance de ritmo clássico. Não só essa transposição é curiosa, mas também o fato de se fazer livro em cima de filme, quando normalmente é o cinema que se apropria de livros, outros filmes, videogames, bonecos ou caixas de sapato para emplacar novo trabalho.


O autor dessa empreitada foi Jean-Claude Carrière, parceiro habitual de outro grande do cinema europeu, o espanhol Luis Buñuel (trabalharam juntos no roteiro de “A bela da tarde”, em 1967, e “O discreto charme da burguesia”, em 1972). Ele escreveu o livro também em 1958, pouco depois do lançamento do filme de Tati. Teve a colaboração de Pierre Étaix, ilustrador e humorista, responsável por desenhar os cenários do filme de Tati, que neste livro complementa o texto com traçado simples, que remonta ao aspecto lúdico do filme original.


Talvez o maior desafio de Carrière tenha sido não desmistificar o silêncio de um personagem tão rico em ambiguidades como o Monsieur Hulot (interpretado pelo próprio Tati). Para evitar colocar palavras onde o silêncio se encaixava tão bem, o autor explorou uma saída de certa forma óbvia: a narrativa adota, como sugere o título, o ponto de vista de Gérard, o sobrinho de Hulot.


Essa escolha possibilita uma narrativa baseada em olhar infantil, mas nem por isso menos virtuosa. Serve como relato sincero sobre o processo de amadurecimento, quando garotos se apegam a pequenos rituais para encarar distâncias simbólicas. Em outro nível, relativo à recepção da obra de arte, é um livro que reflete sobre o poder de imanência da imagem cinematográfica: ler passagens do livro é perceber como um filme permanece na memória afetiva de forma particular em cada um.

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