1979: um ano de celebração musical

O ano da Lei da Anistia foi marcado também pela produção de discos clássicos da música brasileira, num rol que inclui nomes como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Elba Ramalho, Amelinha e Caetano Veloso

Segundo Fábio Cabral de Mello, da Passa Disco, 1979 se destaca pela quantidade de boas produções musicaisSegundo Fábio Cabral de Mello, da Passa Disco, 1979 se destaca pela quantidade de boas produções musicais - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

"Esse ano foi uma festa". A fala do cantor Moraes Moreira sobre 1979 reflete o clima de esperança vivenciado na época, quando a Lei de Anistia foi promulgada e a abertura política após os anos duros de ditadura militar permitiu que vários artistas exilados regressassem ao Brasil. Não se sabe se essa foi a causa, mas dezenas de álbuns foram lançados, grande parte deles com uma qualidade tão grande que acabou por torná-los verdadeiros clássicos da música popular.

É o caso de "Lá vem o Brasil descendo a ladeira", do próprio Moraes; da primeira de quatro versões da "Ópera do Malandro", de Chico Buarque; de "Realce", de Gilberto Gil; de "Por quem os sinos dobram", de Raul Seixas; de "Frevo Mulher", de Amelinha; de "A peleja do Diabo com o dono do Céu", de Zé Ramalho; de "Era Uma Vez um Homem e seu Tempo", de Belchior; de "Gal Tropical", de Gal Costa; de "Bicho de Sete Cabeças", de Geraldo Azevedo; de "20 palavras ao redor do Sol", de Cátia de França; de "Ave de Prata", de Elba Ramalho; de "Clube do Samba", de João Nogueira; e de "Cinema Transcendental", de Caetano Veloso.

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O empresário Fábio Cabral de Mello, dono da loja de CDs Passa Disco, conta que a qualidade musical de 1979 foi decisiva em sua trajetória pessoal. "Eu cursava o segundo grau e trocava as novidades com os amigos, gravava fitas, saía para comprar meus próprios discos. Quase levo pau no vestibular, pois passava o dia escutando música", relembra. Apesar de ter se formado em agronomia, a música o pegou de vez, transformando-o num especialista no assunto.

Para dar suporte à nossa reportagem, ele organizou uma lista com 60 títulos lançados naquele ano, deixando de lado gêneros como o sertanejo e o brega (só como curiosidade, não custa lembrar que "My name is Gretchen", da musa nacional do rebolado, também saiu da prensa em 1979). "O que surpreende é que foram muitos lançamentos de coisas boas. São discos que ficaram na história e são ouvidos e cultuados até hoje", ressalta. Entre os pernambucanos, foram produzidos discos da Banda de Pau e Corda, Aratanha Azul, Quinteto Violado, Robertinho do Recife, Flor de Cactus (no qual Lenine fez seu primeiro registro fonográfico) e o primeiro LP da série Asas da América, de Carlos Fernando, que renovou nosso frevo.





Fábio traça um paralelo entre 1979 e 1973, outro ano de extrema densidade em nossa produção musical. Um vivenciou o auge da repressão e da censura; o outro, a expectativa de mudanças. "Havia uma perspectiva de novo tempo, que mudou o tom da música. Até canções proibidas puderam ser gravadas. Foi lançada uma coletânea de Geraldo Vandré, incluindo 'Pra não dizer que não falei das flores', que até então era um tabu", comenta.

A presença feminina explodiu na MPB: além dos discos de estreia de Elba e Amelinha, se projetaram Marina Lima, Simone, Angela Ro Ro e Zizi Possi. Algumas delas emplacaram suas músicas na trilha sonora da série "Malu Mulher", que ajudou a consolidar uma série de avanços na sociedade da época. O destaque da trilha era "Começar de Novo", gravação antológica de Simone que integra o álbum "Pedaços", também lançado em 1979.

Alguns artistas, como Zé Ramalho, estão comemorando as quatro décadas de lançamento de seus trabalhos. Ele, especificamente, realizou uma espécie de álbum tributo, no qual artistas atuais fazem suas releituras das faixas originais. A 'festa' descrita por Moraes Moreira é perceptível após todos estes anos, e também se refletia na produção dos discos. Na época, por exemplo, Elba fez vocais para Cátia de França, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, e gravou uma faixa no álbum de Chico, numa verdadeira criação coletiva.

"Foi uma fase em que muitos nordestinos alcançaram sucesso. Baianos, pernambucanos, paraibanos, cearenses", comenta Moraes Moreira, cujo grupo original, os Novos Baianos, se desmembrou em nada menos que cinco novas possibilidades em 1979 - quando ele mesmo, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som lançaram discos solo. "Hoje tenho 72 anos, estou cheio de músicas novas, mas vejo com tristeza como as coisas mudaram. Hoje é mais fácil sob certos aspectos, até em casa se grava um disco. Mas álbuns conceituais como se tinha antigamente são cada vez mais raros. Agora, se produz e divulga uma faixa de cada vez".


 
Veja abaixo, em ordem alfabética, a lista elaborada por Fábio Cabral de Mello (lembramos que a quantidade de lançamentos em 1979 foi bem mais vasta que ela):

A Cor do Som – Frutificar
Alceu Valença – Saudade de Pernambuco
Amelinha – Frevo mulher
Ângela Roro – Ângela Roro
Aratanha Azul – Aratanha Azul (compacto)
Baby Consuelo – Pra enlouquecer
Banda de Pau e Corda – Frevo
Belchior – Era Uma Vez um Homem e seu Tempo
Boca Livre – Boca Livre
Caetano Veloso – Cinema trancendental
Carlos Fernando – Asas da América
Cartola – 70 anos
Cátia de França – 20 palavras ao redor do Sol
Chico Buarque – A ópera do malandro
Clara Nunes – Esperança
Diana Pequeno – Eterno como areia
Djavan – Djavan
Dominguinhos – Apois tá certo
Ednardo – Ednardo
Elba Ramalho – Ave de Prata
Elis Regina – Essa mulher
Fagner - Beleza
Fátima Guedes - Fátima Guedes
Flor de Cactus – Flor de Cactus (compacto)
Gal Costa – Gal tropical
Geraldo Azevedo – Bicho de sete cabeças
Gilberto Gil - Realce
Gonzaguinha – Gonzaguinha da vida
Grupo Um – Marcha sobre a cidade
Hermeto Pascoal – Zabumbê-bum-á
Irene Portela – Rumo Norte
Ivan Lins – A noite
Jaime Alem & Nair de Cândia – Amanheceremos
João Nogueira – Clube do Samba
Jorge Ben – Salve simpatia
Luiz Gonzaga – Eu e meu pai
Luli & Lucinha – Luli & Lucinha
Manduka - Manduka
Maria Bethânia – Mel
Mar Revolto – Mar Revolto
Moraes Moreira – Lá vem o Brasil descendo a ladeira
Nana Caymmi – Nana Caymmi
Ney Matogrosso – Seu tipo
Patativa do Assaré – Patativa do Assaré
Paulinho Boca de Cantor - Paulinho Boca de Cantor
Pedrinho Sampaio – Um grito de guerra
Pepeu Gomes – Na Terra a mais de mil
Quinteto Violado – Pilogamia do baião
Raul Seixas – Por quem os sinos dobram
Rita Lee – Rita Lee
Robertinho do Recife – Loucos swingues tropicais
Rodolfo Caesar – A arte dos sons
Rose - Acorde
Simone – Pedaços
Sivuca - Sivuca
Terezinha de Jesus – Vento Nordeste
Toquinho & Vinícius – 10 anos
Zé Ramalho – A peleja do Diabo com o dono do Céu
Zizi Possi – Pedaço de mim


 

 

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