Carboidrato e a obesidade

Ney Cavalcanti é médico endocrinologista e escreve quinzenalmente neste espaço, alternando com a nutricionista Solange Paraíso.

Ney CavalcantiNey Cavalcanti - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

 

A visão que se tinha era que o aumento de peso crescente nas populações se devia entre outros fatores a um maior consumo das gorduras. Afinal, ela tem mais de duas vezes as calorias dos carboidratos (9x4). Além disso, uma vez ingeridos todos tipos de alimentos se transformam e são armazenados como gordura. Para que esta transformação e armazenamento dos açúcares (carboidratos) em gordura ocorram são consumidos parte do seu valor calórico. A gordura que vai ser armazenada como tal não necessita transformação e é facilmente depositada no tecido gorduroso.

Por conta disso, durante muito tempo se acreditou que quem quer emagrecer deve comer menos este tipo de alimento. Porém, nos últimos anos, a culpabilidade da gordura como alimento mais engordativo vem sendo questionada. Muitas pesquisas apontam este caminho. Uma das evidências é o grande crescimento do número de indivíduos com excesso de peso nos Estados Unidos. Isto ocorreu principalmente desde a década de 1980. Naquela ocasião, as autoridades de saúde americanas, acreditando na então verdade científica, fizeram uma grande campanha para sua população: “Diminua o consumo de gorduras na sua dieta e compense aumentando a ingesta de açúcares (carboidratos)”. Resultado: o consumo de cereais, ricos nestas substâncias aumentou mais de 1.000%. Também não se valorizava o chamado índice glicêmico dos alimentos.

A quantidade de açúcares que é absorvida pelo nosso organismo depende do quanto estas substâncias são contidas na comida e o seu percentual de absorção. O alimento que tem o maior índice glicêmico é o pão francês. Além da grande quantidade de açúcar que tem na sua composição, ela é praticamente totalmente absorvida. Por que os carboidratos são os mais engordativos? Acredita-se que seja pela sua ação de quando ingeridos aumentarem a secreção de insulina pelo pâncreas.

Mais insulina circulante, maior a quantidade de gordura formada. Hoje não mais se duvida de que a grande epidemia de obesidade que vivemos se deva muito mais pelo aumento do consumo dos açúcares do que das gorduras. Ele seria o grande responsável pelo aumento do problema e de suas nefastas consequências sobre a saúde. Uma outra modificação ocorrida recentemente foi quanto ao consumo de carboidratos e o exercício físico. Era norma, e ainda é para alguns, a recomendação de uma refeição com açúcares antes das atividades físicas. Acreditava-se que isto aumentaria no organismo o estoque destas substâncias, o que faria com que a performance atlética melhorasse. Ledo engano.

Não se consegue numa pessoa saudável aumentar a quantidade de carboidratos no seu organismo. Satisfeitas as necessidades, todo carboidrato ingerido é imediatamente transformado em gordura. Por outro lado, o consumo preferencial dos carboidratos como fonte energética na atividade física só existe no início. Na maior parte do tempo, a energia gasta provém da gordura corporal. Ultimamente vem-se constatando que o consumo de açúcares antes do exercício físico pode ser ao invés de benéfico, maléfico. A ingesta dos carboidratos estimula a secreção de insulina e o exercício aumenta a ação desse hormônio perifericamente. Resultado: uma tendência a níveis da glicose sanguínea mais baixos, o que obviamente prejudicaria a performance. A última descoberta nesta área foi de que se suprimindo a ingesta alimentar horas antes do exercício, isto proporciona um maior consumo de gordura como gasto calórico, favorecendo o emagrecimento. Restabelece-se a recomendação antiga: “Quer emagrecer ? Não coma e faça atividade física”.

 

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