#Cazuza60anos - Relembre a história e as músicas do poeta do rock nacional

Esta quarta-feira (4) marca os 60 anos de nascimento do cantor e compositor Cazuza; obra dele repercute e conquista fãs até hoje

Cantor e compositor CazuzaCantor e compositor Cazuza - Foto: Reprodução

Quatro de abril de 1958, Rio de Janeiro. Lucinha Araújo era uma recém-casada prestes a ter o primeiro dos muitos filhos que planejava. Já que a prole seria numerosa, decidiu ceder aos pedidos da sogra para que batizasse o primogênito com o nome do avô pernambucano, já falecido. Mas Agenor de Miranda Araújo Neto desfez todos os planos e não só nunca assinou o nome de registro como o negou insistentemente (até descobrir que era um quase homônimo de Cartola, que se chamava Angenor) e reinou absoluto como filho único. O apelido de infância fez vezes de nome de batismo e virou nome artístico: Cazuza – cantor, compositor, poeta do rock que completaria 60 anos nesta quarta (4).

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Cazuza ainda bebê, em 1958


Ao longo de 10 anos de carreira e com cerca de 130 composições gravadas, Cazuza é um dos ícones do rock brasileiro dos anos de 1980. A despeito disso, costurou relações MPB afora e compôs com Gilberto Gil (“Um trem pras estrelas”, de 1988), Lobão (“Azul e Amarelo”, de 1989), Leoni (“Exagerado”, de 1985, com participação de Ezequiel Neves), Ângela RoRô ("Cobaias de Deus", 1989) e Rita Lee ("Perto do Fogo", de 1989) e ainda colocou sucessos nas bocas de Cássia Eller (“Malandragem”- composta, a princípio, para Ângela RoRô), Sandra de Sá (que gravou uma linda versão para “Blues da Piedade”), Gal Costa ("Brasil") e Caetano Veloso, que sempre foi um entusiasta do então jovem Cazuza.

Cazuza e Caetano Veloso

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Mas quando se fala das produções de Cazuza, o nome de Roberto Frejat é, sem dúvidas, o mais forte. Guitarrista do Barão Vermelho e substituto do poeta nos vocais da banda, Frejat assina com o amigo clássicos como "Todo Amor que Houver Nesta Vida" (1982), "Pro Dia Nascer Feliz" (1983) e "Maior Abandonado" (1984), partes das discografias do Barão, e composições da fase solo de Cazuza, como "Ideologia" (1988), "Vida fácil" e "Blues da Piedade".

Aqui, não!
Então presidente da gravadora Som Livre, responsável por materializar em discos vozes como Elis Regina e Novos Baianos, João Araújo foi resistente a dar uma chance à banda do filho, o Barão Vermelho, ainda no início de 1982. O produtor Ezequiel Neves (ou Zeca Neves), insistente e maravilhado com a fita demo que lhe chegara às mãos, amoleceu o quase irredutível João e conseguiu lançar o excelente (cru e rústico) “Barão Vermelho”, primeiro disco do grupo. Os ensaios de garagem seguiram, os shows eras esvaziados, mas saiu o segundo álbum: "Barão Vermelho 2", cujo set list já trazia pérolas como "Pro Dia Nascer Feliz".

Banda Barão Vermelho: Guto Goffi (baterista), Cazuza (vocalista), André Palmeira (baixista), Maurício Barros (tecladista) e Roberto Frejat (guitarrista) seguram o produtor Ezequiel Neves

Banda Barão Vermelho: Guto Goffi (baterista), Cazuza (vocalista), André Palmeira (baixista), Maurício Barros (tecladista) e Roberto Frejat (guitarrista) seguram o produtor Ezequiel Neves

Ariano, explosivo e o melhor exemplo estereotipado de um filho único, Cazuza trazia aborrecimentos à banda e cantava, vez ou outra, a pedra do interesse em seguir carreira solo. Com seu tino, Ney Matogrosso maravilhou-se e gravou uma das faixas (nada menos que “Pro Dia Nascer Feliz”), dando a força que faltava para a banda deslanchar. Ainda com o Barão, Cazuza gravou o terceiro disco, “Maior abandonado”, um sucesso que rendeu Disco de Ouro pela venda de mais de 100 mil cópias. 

Mas se valendo da própria máxima - “eu não divido nem pai nem mãe, que dirá o palco” -, Cazuza deixa o Barão Vermelho. Os meninos seguem com Frejat nos vocais e, solo, Cazuza emplaca um disco que já se punha clássico, "Cazuza" (entre as faixas, "Exagerado", "Medieval II" e "Codinome Beija-Flor").

Na história de Cazuza, o segundo álbum solo “Só se For a Dois” se encontrou com os primeiros sintomas da doença que o mataria rapidamente, apenas dois anos depois do diagnóstico. A Aids ainda era uma sentença de morte e, a partir da descoberta da contaminação, a vida de Cazuza se dividiu entre as composições, os shows da carreira já consolidada e a busca quase desesperada por tratamento. Tratou-se nos Estados Unidos, fez uso experimental do AZT, viu o corpo jovem sucumbir até morrer, em 7 de julho de 1990, aos 32 anos.

No que diz respeito às produções artistas, a Aids foi um marco. Assumindo a contaminação, Cazuza passou a colocar posicionamentos políticos em suas composições - até então muito arraigadas às narrativas amorosas, aos sentimentos. Nasceram "Ideologia", "Blues da Piedade", "Brasil" e "Burguesia", entre outras. Veja o clipe de "Ideologia" abaixo:



A Aids também acirrou o imediatismo de Cazuza, que produziu compulsivamente já na fase terminal da doença. Reforçando o time de parceiros e regravando composições de amigos, registrou muito mais músicas do que "Burguesia", sem último álbum em vida, foi capaz de armazenar. "Por aí" é um disco póstumo de inéditas feito com as faixas remanescentes.

Aids
Cazuza foi o primeiro artista brasileiro a assumir que estava contaminado pelo vírus da Aids. Após um tempo de burburinhos, ele cansou de desmentir e, em entrevista ao então repórter da Folha de S.Paulo, Zeca Camargo, admitiu ser soropositivo, em 13 de fevereiro de 1989. O diagnóstico dele havia sido confirmado em 1987.

“Foi depois disso (da entrevista à jornalista Marília Gabriela. Assista abaixo) que ela veio me falar que não fazia sentido o fato de eu negar o vírus e a minha posição liberal como artista. Aí eu pensei melhor, vi que ela tinha razão e achei melhor parar de esconder”, disse Cazuza a Zeca Camargo.




Fãs e mais fãs
Morto em 1990, Cazuza é frequentemente lembrado e renova a gama de fãs ano a ano. Pessoas de todas as idades, contemporâneas ou que conheceram o roqueiro através de suas letras ou de traços de sua vida (contribuíram muito para isso o livro "Cazuza: Só as mães são felizes", de 1997, e a cinebiografia "Cazuza, O Tempo Não Para", de 2004).

Uma dessas fãs é a jornalista pernambucana Amanda Figueiroa, que não só ouve Cazuza frequentemente como fez uma tatuagem em sua homenagem: "Todo dia é dia e tudo em nome do amor". Ela conta:

Jornalista Amanda Figueiroa

Jornalista Amanda Figueiroa "estampou" verso de Cazuza: "todo dia é dia e tudo em nome do amor", verso de "Pro Dia Nascer Feliz"

"Eu era evangélica e era meio proibidão gostar de músicas do 'mundo', principalmente de homens como Cazuza (bissexual, roqueiro, assumidamente usuário de drogas). Só que eu nunca gostei muito de música gospel também. Certo dia , minha madrasta resolveu limpar os CDs dela e eu vi um que me chamou atenção pela capa: era "Esse Cara", de Caju! Achei ousada a capa e fui direto nele. Peguei escondido e coloquei o meu diskman! Pulei algumas faixas e fui direto pra 'Pro dia nascer feliz'. Quando ouvi o verso 'pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir', eu me tremi, chorei. Parecia que ele tinha feito pra mim. Era aquela vida que eu queria levar! E quando ouvi 'todo dia é dia e tudo em nome do amor', chorei até virar mar. Solucei. Essa mensagem, para mim, foi muito mais eficaz do que as que eu ouvia do pastor. Acho que fui evangelizada por esse roqueiro!"

Além de Amanda, a também jornalista Mari Frazão também é fã do poeta. Sua homenagem veio com o nome do animal de estimação: Cazuza.

A mineira de Uberlândia Natália Andrea Silva, 33 anos, se tornou fã de Cazuza há sete ano e faz parte de um fã clube, Cazuza o Eterno Poeta, que a ajuda a ter acesso a materiais raros do cantor. "Em fevereiro deste ano, tive a oportunidade de conhecer o cover do Cazuza, Valério Araújo, em um show que ele fez aqui em Uberlândia. Pra mim, foi como ter visto o próprio Cazuza. Ele soube interpretar de uma forma tão natural que era o Cazuza estivesse ali", comenta. "Ser fã do Cazuza não é apenas admira-lo, mas é poder reviver toda uma época marcada pelo rock nacional, e poder identificar cada momento em uma letra dele".

Fã, Natália

Fã, Natália "viu" Cazuza na performance do cover Valério Araújo - Foto: Cortesia/ Arquivo Pessoal

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