Como será a alimentação no futuro?

Já pensou o que irá à mesa nos próximos 30 anos? Confira as projeções para uma gastronomia cada vez mais sustentável, tecnológica e ligada aos valores nutricionais

Alimentação no futuroAlimentação no futuro - Foto: Arte/Folha de Pernambuco

Para projetar a alimentação dos próximos 30 anos, é necessário, antes de tudo, enxergar o mundo de agora. E, você, leitor, há de concordar que não são tempos fáceis. Nunca se falou tanto em acúmulo de lixo, na toxidade do plástico e na urgência da prática sustentável. A boa notícia é que já temos restaurantes fazendo a sua parte e famílias se preocupando com o descarte correto dentro de casa.

Em paralelo, as novas gerações surgem com uma expertise digital que promete atingir toda a cadeia de produção, numa espécie de conectividade com o campo. Se hoje há uma influência direta dessa tecnologia na produção e comercialização de alimentos, em um futuro próximo será ainda mais fácil encontrar proteínas criadas em laboratório, disponíveis a apenas um clique. Um cenário futurista, cuja familiaridade com a série The Jetsons, original dos anos 1960 e ambientada em 2026, não é mera coincidência.


Sustentabilidade primeiro
Apesar de discreta, a sustentabilidade ambiental vem acontecendo. Já é mais fácil perceber nos estabelecimentos embalagem retornável, ausência de canudos de plástico e menor produção de lixo. Em São Paulo, por exemplo, o restaurante Corrutela montou uma composteira com capacidade para 30kg logo na entrada do salão. Enquanto isso, seu backstage ostenta uma máquina israelense que lava todas as suas panelas sem uso de produtos químicos e com controle de água. Por fim, mas não menos importante, parte da energia é solar.

No Recife, o Manu Tenório Café também se preocupa com o movimento cíclico dos ingredientes. Razão para 70% dos resíduos produzidos serem reciclados, além de estimular o uso dos recipientes de vidro no lugar do plástico. Atitudes que, segundo a empresária, são em nome de um futuro mais saudável. E por falar em saúde, a estimativa global diz que, por conta dos altos índices de poluição e encarecimento dos combustíveis, novas alternativas de deslocamento e acesso aos produtos de mercado, por exemplo, sejam valorizada. É o caso das hortas urbanas, capaz de diminuir a distância entre produtor e consumidor. Alimento esse com maior aceitação para o orgânico, livre de qualquer tipo de agrotóxico.


Nutrição e saúde
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a incidência de obesidade subirá de 14% para 22% até 2045. Razão para as pessoas começarem a abrir os olhos para o combate ao sobrepeso, obesidade e doenças crônicas associadas aos hábitos de vida, principalmente a alimentação. “Certamente no futuro haverá muito mais interação entre o prazer de comer e a prevenção de doenças. Então itens específicos, como cúrcuma, importante anti-inflamatório, vão estar mais presentes na alimentação em geral, assim como resveratrol, quercetina, luteína, alguns aminoácidos e peptídeos. Nozes, por exemplo, estão associadas a menor risco de depressão e de doenças coronarianas”, prevê o nutrólogo Jêmede Valença.

Ainda segundo o especialista, cada dia novos nutracêuticos são descobertos e avaliados. Some a isso o aspecto de que, em breve, será bem mais acessível fazer o mapeamento genético, sabendo que patologias existe predisposição, para desde cedo prevenir o despertar desses genes, dessa tendência, com uma alimentação ainda mais personalizada.

“O que podemos garantir é que o boom dos alimentos refinados, processados, defumados e ricos em sal e açúcar está passando, porque acima da praticidade estará o prazer de comer bem e para o próprio bem”, afirma.

Carne, onde está você?
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, daqui a quatro décadas, a quantidade de terras usadas para a pecuária teria de aumentar de 34 para 57,8 milhões de quilômetros quadrados. Na prática, é mais gente procurando a proteína e com menos dinheiro para pagar por ela. Eis a chance de ouro da chamada carne processada, que se aproximam do sabor original, mas são geneticamente modificadas.

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Sendo assim, haverá o que o anuário “Meat, Fish & Poultry”, lançado no Reino Unido prevê para até 2050. Ele diz que o público comerá menos carne fresca e mais processados. Tipo bovino ficará restrito a ocasiões especiais. Será mais caro e poucas pessoas saberão cozinhá-lo. Frango e peixe entrarão na preferência, por conta da sustentabilidade e de seus benefícios à saúde.


Consumo prático
Se hoje ninguém quer se preocupar com rituais burocráticos à mesa, imagine daqui a alguns anos. De olho nas mudanças de consumo, a Magic Booze, da cervejaria Pratinha, é uma breja concentrada, que pode ser diluída em água gelada com gás. “Esperamos que daqui a 20, 30 anos a tecnologia esteja ainda mais avançada e as pessoas possam beber cerveja e bebidas alcoólicas de outra maneira. É claro que a princípio, toda disrupção causa certo estranhamento, às vezes até um comportamento de negação, porém isso faz parte de qualquer processo de transformação social ou tecnológico”, diz Bia Amorim, sommelière de cervejas.

A comercialização tem sido cautelosa, utilizando aplicativo próprio e as redes sociais para colher feedback. “Recebemos pedidos do mundo inteiro depois que o vídeo da sommelière Carol Oda viralizou na internet. Foi uma amostragem de como as pessoas estão curiosas. Está sendo comercializada em minigarrafinhas colecionáveis, com as instruções de como preparar várias bebidas. Coquetéis também podem ser feitos com o concentrado. Os lotes estão, no momento, sendo vendidos apenas pela internet e vamos liberar previamente para quem se cadastrou no site”, completa Amorim.

Numa visão geral de mercado, a sommèliere e consultora em hospitalidade, Carolina Oda acredita que existirá mais negócios equilibrando a importância do que é servido no copo e no prato. “Em 20 anos, a gente deve chegar em um patamar em que os bartenders e sommeliers serão tão reconhecidos quanto os chefs de cozinha”, acredita. Além disso, ela também prevê o crescimento do mercado de não alcoólicos. “Na Inglaterra,já tem e isso chega aqui com os bares não alcoólicos, em que você tem a mesma experiência e apresentação, sem focar no álcool”, resume.


Tecnologia na comida
Pizza sendo entregue por drone? Com o desafio da mobilidade daqui a uns anos, a Domino´s vem testando este serviço na Europa, em parceria com a startup de delivery americana Flirtey. A ação já aconteceu no Reino Unido, na Grécia e na Nova Zelândia. Projeto esse que ilustra bem o sentido de uma FoodTech, termo utilizado para a interseção entre comida e tecnologia. Vale para produção, distribuição e comercialização de alimentos.

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