Em livro, autor desmistifica figura de Exu como diabo

O escritor Alexandre Cumino procura retirar a visão demoníaca que o orixá ganhou ao longo dos séculos no livro 'Exu Não É Diabo'

Alexandre Cumino, autor de 'Exu Não é Diabo'Alexandre Cumino, autor de 'Exu Não é Diabo' - Foto: Divulgação

Pelo menos na cultura cristã, muitas são as vestes do diabo, que também “atende” por satanás, demônio, belzebu, coisa ruim e anjo das trevas, entre outras tantas denominações. De feições humanas, com rabo, chifres e capa, à entidade espiritual são atribuídas muitas adjetivações, sobretudo relativas ao mal.

Uma demonização dada, inclusive, a divindades da umbanda e do candomblé, a exemplo de Exu, orixá que serviu de mote para o livroExu Não É Diabo”, do cientista da religião e umbadista Alexandre Cumino, lançado pela editora Madras. Na obra o autor foca na desmistificação do orixá como uma figura maléfica criada pela cristandade católica, por considerá-lo uma divindade pagã.

De acordo com o autor, a ideia de escrever a obra surgiu de uma necessidade, dita por ele como urgente, diante de fatos que remetem à intolerância a religiões afro-brasileiras, mais especificamente. “Não há pretensão de convencer o leitor sobre se Exu é o diabo ou não. O intuito é esclarecer, contribuir sobre questões pertinentes ao sagrado, assunto do qual temos conhecimento mínimo”, ressaltou o umbandista em entrevista à Folha de Pernambuco.

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Nas pouco mais de 200 páginas do livro, Cumino discorre sobre a sua concepção de ‘quem é o Diabo’, relacionando a construção da imagem da entidade ao decorrer dos séculos. “Se pensarmos em demonização dos deuses alheios, a gente pode falar em construções milenares, desde o Velho Testamento que demoniza, por exemplo, Moloque (demônio da tradição cristã e cabalística). Vai levar algum tempo para que se entenda que o Deus do outro não é diabo. Precisamos respeitar crenças e religiosidades alheias”, preconiza o autor.

De linguagem estrategicamente didática, o umbadista preza pela leitura fácil, com um claro intuito de entretenimento, mas também de aprendizado, provavelmente  influenciado pelos seus poucos mais de 18 anos de sala de aula, onde ministra o curso livre de Teologia de Umbanda.

Criado em uma família de espiritualistas e, por esse fato, levado inicialmente à doutrina espírita de Alan Kardec, só veio a conhecer a umbanda e “encantar-se” pela religião em 1995, o que o levou a buscar a formação em Ciências da Religião algum tempo depois, mas sem pretensão de adentrar ambientes cristãos e convencer religiosos, já que para ele “não se leva algo às pessoas, porque são elas que vêm em busca e se interessam pelo que lhes é oferecido”.

Pela população majoritariamente cristã e católica do Brasil, Alexandre Cumino acredita na flexibilidade religiosa, embora reconheça a intolerância como um dos principais desafios a serem vencidos com, por exemplo, a prestação da (boa) informação, formato que coube ao livro sobre Exu.

“Estamos engatinhando em relação ao respeito às crenças e religiões, apesar de ser um país espiritualizado religiosamente. No caso da umbanda, das religiões afro-brasileiras, eu acredito na cultura e na informação como ferramentas para mudar essa visibilidade distorcida e pejorativa sobre esses temas”, completa.

Já com planos de enveredar em uma próxima obra sobre outra entidade espiritual, o autor adiantou que depois de desmistificar a figura de um Exu demoníaco, a pedidos, ele vai “matar” a curiosidade das pessoas que o questionam sobre quem é a ‘pomba gira’ e o que pode ser dito sobre ela. “Já estou escrevendo 'Pomba-Gira é Mulher Igual a Você'. A quantidade de pessoas que me perguntam sobre ela, depois do livro de Exu, é muito grande”, contou Alexandre Cumino que prometeu o lançamento para 2019.

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