Espaços para alimentar corpo e alma

Cafés e restaurantes recifenses funcionam como galerias permanentes de arte, aliando seus interesses ao dos artistas e do público

Mia Café, no Recife Antigo, alterna exposições de pintura e fotografiaMia Café, no Recife Antigo, alterna exposições de pintura e fotografia - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Comida, diversão e arte. O verso da música dos Titãs resume uma tendência presente em vários espaços gastronômicos do Recife, nos quais pinturas, desenhos e fotografias dividem o recinto com a culinária, numa relação em que todos se beneficiam: os clientes, por terem acesso às obras; os donos dos restaurantes e cafés, que atraem e cativam seu público e conseguem periodicamente novas ambientações para seus espaços; e os artistas, que ganham novas vitrines para expor o que produzem, ampliar conhecimento e, muitas vezes, vender seus trabalhos.

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Um dos primeiros a lançar essa proposta na cidade foi o Villa Bistrô, de Joca Pontes - que funcionava no Espinheiro e, atualmente, se transferiu para a área gourmet do Shopping Tacaruna, em Olinda. "A Villa foi inaugurada em 2007 e já nasceu dessa forma. Era uma casa grande, com muitas paredes disponíveis. Ao longo desses doze anos, foram mais de 30 exposições, e posso dizer que o restaurante fica muito mais bonito, ao mesmo tempo que os artistas ganham espaço para mostrar sua arte", diz ele.

Realizando mostras a cada três ou quatro meses, o Villa recebeu nomes como Mané Tatu, Aluizio Câmara e Isa Pontual. "O público adora, tornou-se uma marca do restaurante. É um motivo para voltarem, quando inauguramos uma nova exposição. Tem sempre gente interessada em ver", descreve Joca, que, de 2007 a 2018, contou com a curadoria de Lúcia da Fonte - a partir deste ano, ela passou o bastão para Márcia Cabral. Sandro Maciel, o primeiro pintor a expor na casa, atualmente apresenta uma nova mostra no local, na companhia de Fábio Rafael.

Villa Bistrô é um dos espaços que atuam como galeria há mais tempo no Recife

Villa Bistrô é um dos espaços que atuam como galeria há mais tempo no Recife - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

  Outro restaurante que já começou ligado à arte foi o Cá-Já, nos Aflitos. "Desde antes de abrir, havia um interesse nisso. A princípio, usamos as obras de arte que tínhamos em casa, de nosso acervo pessoal, porque ficou difícil organizar uma exposição já na abertura do espaço. Mas, de forma espontânea, amigos foram oferecendo cartazes, desenhos, trabalhos variados, ao sentir nosso gosto por isso", conta Alan Machado (que é irmão de Yuri, um dos proprietários do restaurante, e o responsável pela curadoria do projeto). O primeiro a expor formalmente no Cá-Já foi Aslan Cabral, com a série de fotografias "Intervenções Litorâneas", que ficou em cartaz entre fevereiro e março deste ano.

Em seguida, Franco Bonzaim trouxe seus desenhos com caneta esferográfica sobre papel kraft, nos grandes murais de "Meditação: Narrativas do Inconsciente". Atualmente, quem está em cartaz é Sâmia Emerenciano, com o ensaio fotográfico "Azul", e, na sequência, haverá uma Mostra LGBT, em parceria com a festa Carola. "Tenho uma lista com outros nomes já apalavrados, fechando o resto do ano. Vêm por aí exposições de Fogo Morto, Frederico de Melo, Simone Mendes, Clarice Compasso, Wagner Ramos e Formiga", adianta Alan, para quem a ideia é promover uma experiência sensorial única, em que a comida, a música e a ambientação alimentem o público.

Interior do restaurante Cá-Já

Interior do restaurante Cá-Já - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

"Tem que ter essa pegada de valorizar a obra", concorda a fotógrada Sâmia Emerenciano, para quem expor em alguns lugares onde se transita muita gente, como restaurantes, é uma ideia até antiga, mas que não era voltada para todo tipo de artista. "Havia uma diferença, até num sentido preconceituoso, em relação a quem expunha num restaurante", afirma ela.

Sâmia diz que o tipo de exposição que o Cá-Já e outros espaços atualmente realizam é diferente. "Eles realmente abrem um espaço na agenda deles, funcionando como galeria. Tem vernissage de abertura, os quadros são expostos e pensados dentro de uma exposição", descreve. A fotógrafa diz que muitas pessoas só conheceram suas obras por conta disso. E elogia a estrutura de funcionamento do Cá-Já. "É um espaço de convivência, onde muita gente se reúne para estar junto e celebrar para além da comida. Uma proposta que vai além da comida", resume.

Detalhe de exposição fotográfica no Ca-Já

Detalhe de exposição fotográfica no Ca-Já - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Dois cafés também se destacam dentro dessa tendência. Um deles é o Mia 182, na rua do Apolo, no Bairro do Recife. "O espaço nasceu há um ano, já voltado para a divulgação das múltiplas linguagens artísticas", conta André Arruda, um dos três sócios do café. A princípio, eles vêm divulgando apenas artistas locais, intercalando as mostras entre fotografias e pinturas. "Temos uma ambientação itinerante, mudamos de cara a cada dois meses", explica. A exposição inicial do Mia trouxe os desenhos e as pinturas do olindense Raoni Assis.

De lá para cá, nomes como Matheus Sá, Glauber Arbus, Li Vasconcelos e Bernardo Teshima preencheram o espaço com suas obras. "Nós damos prioridade a fotografias analógicas e a pinturas feitas à mão", explica André, que se preocupa em criar uma atmosfera na qual os artistas possam interagir com o público, trazendo uma banda ou um DJ local em cada nova abertura de exposição. "Além disso, se o artista quiser e aparecerem interessados, a gente realiza a venda das peças", afirma.

Detalhe de exposição fotográfica no Mia Café

Detalhe de exposição fotográfica no Mia Café - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

  Localizado no térreo de uma joia da arquitetura pernambucana, o edifício Califórnia (projetado pelo premiado Acácio Gil Borsoi, em 1956), no Segundo Jardim de Boa Viagem, o café Borsoi vai além no processo da curadoria das peças que o ornamentam. Segundo uma das sócias do café, Paloma Amorim, desde que o café começou a ser projetado, a ligação com a arte já existia, até pela escolha de seu endereço. Eles firmaram uma parceria com a equipe do Spot Art (um market place digital de obras recifenses, no qual diversos artistas vêm disponibilizando suas obras). A parceria foi uma maneira que a Spot Art encontrou de sair da internet para o plano físico, levando os artistas que representam para um encontro mais estreito com o público.

"As exposições duram cerca de 60 dias, às vezes mais, às vezes menos, dependendo do retorno obtido", explica Ricardo Lyra, um dos responsáveis pela plataforma digital. Ao contrário de outros espaços, onde as obras ficam "presas" até o fim da exposição, no Borsoi, quem gosta de uma peça vai recebê-la em casa em até três dias após a compra. Pelo café, já passaram Fernando Duarte, Coletivo Vacilante, Alois Hunka, Gabriel Petribu, Pedro Melo, Christina Machado, Paloma Amorim e, atualmente, Bruno Alheiros.

Plataforma SpotArt faz curadoria das peças expostas no Café Borsoi

Plataforma SpotArt faz curadoria das peças expostas no Café Borsoi - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

 "Não sei dizer se o espaço que oferecemos é perfeito, como talvez seja uma galeria, focada apenas na arte. É um espaço de certa forma deslocado. Mas nós aproximamos o artista do público, de uma forma diferente do ambiente formal das galerias, desmistificando que arte é uma coisa de intelectuais, de cabeçudos", avalia Paloma.

Para Bruno Alheiros, cujo trabalho vem sendo apreciado também em galerias de arte conceituadas da Cidade, a vantagem de participar desse tipo de ação é democratizar o acesso das pessoas a suas obras. "No Recife, pouca gente tem o hábito de frequentar galerias, de sair de casa especificamente para ver uma exposição. A galeria, às vezes, intimida um pouco. Então, lugares como o Borsoi me ajudam a chegar em pessoas que jamais teriam a chance de ver meus quadros. O café tem um público muito diverso, e superou aquela que, a meu ver, seria a única dificuldade no processo. Eles legitimaram o espaço, tornaram-no capaz de receber esse tipo de ação. Lá eu sei que minhas obras estão, de fato, sendo vistas, expostas. Não são apenas quadros dependurados na parede", descreve.

 

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