Espetáculo de dança (re)conta histórias do Bairro do Recife

'Pontilhados' percorre ruas do Bairro do Recife com interações e vivências compartilhadas com o público

Espetáculo 'Pontilhados'Espetáculo 'Pontilhados' - Foto: Arthur Souza/Folha de Pernambuco

Itinerante, urbana, provocativa. Cheia de pertencimentos e vivências. Assim é a arte quando pensada como ferramenta de entretenimento mas, principalmente, quando despertada por inquietudes, vieses percorridos pelo Grupo Experimental de dança contemporânea da Cidade que está de volta às ruas (e memórias) do Bairro do Recife com o espetáculo "Pontilhados", apresentado ao ar livre até o próximo dia 20.

“Emociona-me o retorno”, confessa Mônica Lira, idealizadora e diretora da encenação a que ela chama de "Intervenções Humanas". A obra circulou por Porto Alegre e São Paulo e está de volta às origens para recontar histórias da Capital pernambucana.

Sob incentivo do programa Rumos, do Itaú Cultural, a montagem foca na relação com a cidade e passeia por personagens e narrativas que permeiam os espaços urbanos com cenas levadas pela dança e outras interações. A mulher conhecida como Madonna dos Cachorros, figura saudosa e emblemática do Bairro do Recife, que seguiu para outro plano em 2015 e cujo endereço alternava entre esquinas e ruelas divididas com os seus cães - de rua e de estimação - é uma das personagens recriadas.

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"Saímos dançando e reconstituindo histórias de amor, de desafetos, de violências e de tudo que pode ser costurado pelo espetáculo. A ideia é despertar outros olhares para um espaço que é nosso, mas que não temos entendimento de enxergá-lo além do que nos é mostrado rotineiramente", ressaltou Mônica.

"Pontilhados", encenado pela primeira vez em 2016, começa com uma noiva que sai da Igreja da Madre de Deus, interpretada por uma atriz que se soma ao elenco de bailarinos. Em cena, a interpretação de uma mulher que, em vida, testemunhou dezenas de casamentos luxuosos e manteve o desejo de trocar alianças com as mesmas pompa e circunstância dos casais. "Ouvi dela a vontade de vestir-se de véu e grinalda, de casar e de viver tudo aquilo", contou a diretora. "E sei que espiritualmente o espetáculo é acompanhado por elas", ressalta Mônica.

Com ou sem fone de ouvido
Sensorial que é, o espetáculo é encenado no silêncio. Os bailarinos, no máximo, são alertados pela marcação de uma trilha - contemplada com músicas de artistas como Chico Science, Otto, Criolo e as recifenses Flaira Ferro e Luiza Fittipaldi - que pode ser compartilhada com o público através de fones de ouvido cedidos a quem compra o ingresso para o espetáculo - que também pode ser contemplado sem som.

"O fone tem toda uma atmosfera sonora que pode ser vivenciada pelas pessoas que acompanham as performances", explica Marta Guimarães, bailarina pernambucana que reforça o time de Mônica Lira, boa parte dele formado, inclusive, por artistas "da terra". "Levamos para São Paulo e Porto Alegre um núcleo de bailarinos do grupo. Mas realizamos residências, com imersão de artistas locais nas cidades, porque faz parte do espetáculo ter co-autores que nos tragam recortes dos lugares", contou a diretora.

"Pontilhados" - que ganha tradução para a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) nos dias 17, 18, 19 e 20 - é obra que se refaz, ora pelo local da apresentação e suas realidades pontuais, ora pela pertinência do momento em desdobrar o espetáculo em um diálogo com a cidade e com as pessoas, sempre com o intuito de despertar o necessário que habita em cada um que assiste à intervenção.

"Somos responsáveis, em partículas menores que sejam, de tudo que está acontecendo. Meu momento de fala e de força é por meio da arte, portanto, diante dos atuais rancores, intolerâncias e desigualdades vivenciados por todos nós, não tenho como dançar e falar de coisas belas... se temos tantas coisas tristes", conclui Mônica Lira.

Serviço
"Pontilhado", do Grupo Experimental de Dança Contemporânea do Recife

Dias11, 12, 13, 17,18,19 e 20 de julho, 16h, com saída da Igreja da Madre de Deus
Ingressos a partir de R$ 20 (meia-entrada), no Sympla, para quem quiser acompanhar o espetáculo com fones de ouvido

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