Farnese de Andrade tem obras em exposição na Caixa Cultural

Exposição é oportunidade rara de apreciar as obras do artista mineiro Farnese de Andrade, falecido em 1996. Trabalhos falam do diálogo entre loucura e razão

Exposição 'Farnese de Andrade - Arqueologia Existencial'Exposição 'Farnese de Andrade - Arqueologia Existencial' - Foto: Brenda Alcântara

Os pernambucanos têm a oportunidade de apreciar, a partir desta quinta-feira (13), a exposição de um artista único e singular. "Farnese de Andrade - Arqueologia Existencial" traz 40 peças produzidas pelo desenhista, gravador e escultor falecido em 1996 - de tuberculose e tristeza, como registram os que conviviam com ele.

Homossexual e afeito a temas como religião, sexualidade e loucura, Farnese "viciou" alguns (poucos) colecionadores que vêm preservando o maior volume de sua obra, motivo pelo qual visitar a Caixa Cultural, no Bairro do Recife, é uma chance única de poder ver, ao vivo, suas assemblages (montagens) e outras criações inquietantes.

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Segundo o curador da mostra, Marcus Lontra Costa (que conheceu e entrevistou o artista quando ainda era um jornalista recém-formado e, desde então, apaixonou-se por sua produção), "Farnese era um cara muito gauche, muito à esquerda do mainstream do caminho natural da arte brasileira". Ele explica que o artista tem uma capacidade ímpar de articular pensamentos e coragem de expor a própria vida, ampliando os próprios dramas, "essa angústia, essa tensão de ser gay e filho de uma família extremamente religiosa, dentro da sociedade do interior de Minas, na primeira metade do século 20".

Para compor a exposição, Lontra partiu daquilo que chama "instâncias prisioneiras do ser". "Farnese trabalha basicamente com as questões da loucura, sexualidade, religião e sistema de arte", descreve. "Essas instâncias são, na verdade, libertadoras, mas o homem as transforma em prisão. Isso acontece com todas essas dimensões e por fim, com a própria arte, que seria a essência maior da libertação humana, mas acaba ficando presa nas catalogações acadêmicas, aprisionando a capacidade criativa a partir de uma excessiva setorização da informação", critica.

Marcus Lontra Costa é o responsável pela mostra sobre Farnese, que chega ao Recife nesta quinta-feira (13)

Marcus Lontra Costa é o responsável pela mostra sobre Farnese, que chega ao Recife nesta quinta-feira (13) - Crédito: Alfeu Tavares/ Folha de Pernambuco

Nas obras de Farnese, é possível contemplar os embates de seus medos, fetiches, pesadelos, rancores, tristezas e alegrias. Muitos objetos são compostos a partir de elementos que garimpou nas ruas, praias e aterros do Rio de Janeiro, como imagens de santos corroídos pelo tempo e fotos de família. Contemplando os signos presentes nas esculturas do artista, é possível perceber o surrealismo e alguns pontos de convergência com a produção de outros artistas, como o pernambucano Francisco Brennand - que apesar de fazer um trabalho completamente diferente, também lida com os impulsos de morte, vida, sexo e religião de maneira muito forte, com uma onipresença de signos como falos, vaginas e ovos (símbolo universalmente associado à fertilidade).

 "Na obra de Farnese, a loucura e a razão dialogam. Ele aceita a presença da fantasia, do inusitado, e mantém uma tensão, uma crueldade interiorana", descreve o curador, que afirma não ter a intenção de "domesticar" o artista, mas criar um ambiente e um conjunto que consigam transmitir o impacto de sua produção a quem vê.

Durante a mostra, será exibido o filme "Farnese" (1970), do cineasta Olívio Tavares e Araújo, além de uma entrevista com o curador e textos e poemas que ajudam a elucidar a trajetória de Farnese, um dos artistas brasileiros mais valorizados em nível mundial. A exposição já passou por Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, e ficará em cartaz no Recife até o dia 17 de fevereiro.

Serviço:
Exposição "Farnese de Andrade - Arqueologia Existencial"
Caixa Cultural Recife - av. Alfredo Lisboa, 505, Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Abertura e visita guiada com o curador: 13 de dezembro, às 19h
Visitação: 14 de dezembro a 17 de fevereiro
Horários: terça a sábado, das 10h às 20h; domingos, das 10h às 17h
Informações: (81) 3425-1915

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