Flaira Ferro subverte Recife com frevo-rock do single ‘Revólver’

Com direção de Cézar Maia, participam do clipe o cantor Cannibal, da Devotos, e Zenaide Bezerra, passista de frevo mais antiga em atividade no país

Flaira Ferro corre pelas ruas entre coletivos no clipe de "Revólver"Flaira Ferro corre pelas ruas entre coletivos no clipe de "Revólver" - Foto: Reprodução/YouTube

A bailarina e cantora Flaira Ferro lançou nesta terça-feira (12) “Revólver”, single de seu próximo álbum, com lançamento previsto para julho deste ano. Com tons de manifesto e alerta, a letra defende a importância da arte para a formação política do sujeito e do frevo, reconhecido Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, enquanto instrumento subversivo. Yuri Queiroga assina os arranjos do frevo-rock que conta, ainda, com coro de Cannibal, Ylana Queiroga, Mayara Pera e Igor de Carvalho.

Com direção de Cézar Maia, o clipe de “Revólver” faz do bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife, o background ideal para tratar da reocupação da cidade. Nas imagens, 15 passistas de frevo aparecem espalhados em lugares como as ruas Nova, do Sol, as avenidas Conde da Boa Vista, Dantas Barreto e Guararapes e a praça da Independência.

Flaira corre pelas ruas entre coletivos, “pega bigú”, transforma corrimão em lira, sobe sobre o alpendre das paradas, passeia de boia pelo rio Capibaribe e não para. “Queria inventar um jeito de me entranhar na cidade, rolar no asfalto, transgredir o cotidiano, me envolver com o ritmo das ruas, interagir com as pessoas e transformar a energia urbana em combustível para o entusiasmo”, explica a artista.

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Atenta ao momento político do Brasil, a pernambucana ironiza o decreto sobre flexibilização da posse de armas. “O meu revólver/ é um estado de espírito/ e o pessimismo/ é luxo de quem tem dinheiro”, diz a primeira estrofe.

E recorda a polêmica farinata (composto produzido com alimentos que estão fora do padrão de comercialização ou próximos à data de vencimento) que o então prefeito de São Paulo João Doria (PSDB-SP) anunciou como complemento a alimentação de crianças nas escolas da rede pública de ensino da cidade em outubro do ano passado. “No contra-ataque da guerra,/ arte!/ Ninguém nessa terra/ vai comer farinata.”

Participam do clipe o cantor Cannibal, conhecido pela pesada Devotos [do Ódio], do Alto José do Pinho; Zenaide Bezerra, passista de frevo mais antiga em atividade no Brasil; e o dançarino Otávio Bastos, que divide a direção coreográfica com Flaira. “Revólver” está disponível em todas as plataformas de streaming.



A reportagem conversou com Flaira Ferro sobre o lançamento. Confira:

A faixa tem um teor de manifesto, mas também de alerta. Para onde “Revólver” aponta?
"Revólver" aponta para a coragem. Coragem de não baixar a cabeça diante das estruturas que oprimem o povo. "Revólver" aponta para dentro, pra manutenção de uma mente sã, de um corpo com entusiasmo, da força criadora que move as pessoas a resistirem temporais.

Na letra você faz alusão a duas recentes polêmicas da política brasileira: o revólver e a farinata. Enquanto artista, como você enxerga esse momento político do País?
Estamos no caos. Acompanhar os noticiários é reconhecer um retorno à barbárie com o tanto de mentiras, crimes e violências instaladas nas decisões políticas e nas estruturas de poder. Muita injustiça, corrupção, violência e hipocrisia. Precisamos repensar e construir novos valores e eu encontro na arte a minha ferramenta de proposição. Acredito muito na eficiência desse caminho pra dentro, da busca por autoconhecimento, autorresponsabilidade e manutenção dos afetos.

O que você tinha em mente quando escolheu o Centro do Recife para set?
Eu tinha em mente o frevo. O frevo pra mim é a metáfora da flor que nasce do asfalto. É uma manifestação que nasce nas ruas, pelo povo de rua, pelos trabalhadores e pessoas marginalizadas. Hoje vejo um Recife cheio de farmácias, pessoas andam ansiosas, intolerantes, muitos casos de suicídio entre jovens. A ideia de explorar o centro nasce do desejo de resgatar as ruas como espaço de criação, de entusiasmo, palco da democracia onde foram conquistados muitos direitos na história da nossa cidade.

Como foram as filmagens de “Revólver”?
Toda a criação foi feita e executada de forma independente. Tive a sorte de contar com muitos parceiros como o Estúdio Carranca e o Ateliê Produções que apostaram no meu trabalho e cederam seus recursos. As gravações foram incríveis porque a equipe toda estava muito unida, cheia de profissionais competentes que abraçaram a ideia. Filmamos em dois dias de gravação, num trabalho coletivo e orquestrado com mais de 20 pessoas no set por dia.

Seu próximo álbum está previsto para julho. O que sobrou de Cordões Umbilicais? O que devemos esperar? Já tem um nome em vista?
Continuo cantando as músicas do disco Cordões Umbilicais em meus shows. Mas tenho priorizado um repertório novo para dar espaço as “crias” recentes. Gosto de ir cantando músicas inéditas antes de gravar pra ir sentindo a alma das canções. Por incrível que pareça ainda não tenho o nome do próximo disco.

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