Gênero documentário se firma no cinema nacional

Lista de 100 melhores documentários, feita pela Abraccine, lança discussão sobre a relevância e as peculiaridades do gênero

Cena do Filme "Santiago", de João Moreira SallesCena do Filme "Santiago", de João Moreira Salles - Foto: Divulgação

Há algo de fascinante no documentário brasileiro: ao observar pessoas e histórias, lugares e eventos, constrói um ponto de vista, um testemunho sobre a sociedade, a cultura, a política. Um gênero que, através de diferentes propostas e estilos, se abre para possibilidades e alcances maiores do que o cinema, investigando o real em suas camadas mais complexas e contraditórias.

O documentário cresce no cinema brasileiro: o número de filmes lançados subiu para 60 em 2017 (de 44 em 2016). O aumento não é apenas em quantidade: os recentes "No intenso agora", de João Moreira Salles, em cartaz no Cinema do Museu, passou pelo Festival de Berlim; "Martírio", de Vincent Carelli, antropólogo e documentarista franco-brasileiro que atua em Pernambuco, recebeu prêmios no Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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O livro "Documentário brasileiro - 100 filmes essenciais", lançado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), reúne ensaios de críticos e pesquisadores sobre filmes impactantes, ampliando as discussões sobre o que constitui a essência desse gênero. O livro inclui obras fundamentais como "Cabra marcado para morrer" (1964-1984), de Eduardo Coutinho, e os pernambucanos "Pacific" (2009), de Marcelo Pedroso, e "Doméstica" (2012), de Gabriel Mascaro.

"A publicação funciona como uma lupa apontando mais agudamente para uma categoria de produção cinematográfica que historicamente nunca teve a mesma visibilidade que o filme previamente ficcionalizado", explica Luiz Joaquim, professor, crítico e sócio-fundador da Abraccine. "Serve como um ponto de partida abalizado por 100 profissionais que pensam hoje o cinema no Brasil. O leitor terá um retrato vasto e questionador da história socioeconômica, política e artística do País", ressalta.

Linguagem documental

O livro ajuda a entender o cinema documental brasileiro através de uma perspectiva crítica e histórica. "Percebo o documentário brasileiro até mais livre e inovador do que aquele que habitualmente é identificado como 'cinema de ficção'", opina Luiz. "Isto porque uma vez descompromissado com estruturas narrativas canônicas, as variações de 'construções de verdade' que o documentário consegue alcançar são extremamente impactantes", diz.

A lista apresenta diversidade de estilos, diferentes formas de entender a linguagem documental e o mundo em volta. "Pacific" e "Doméstica" são propostas experimentais e ao mesmo tempo políticas: os diretores usam filmagens feitas por pessoas - viajantes, em "Pacific", adolescentes que registram o cotidiano dos empregados, em "Doméstica" - e desse processo é possível refletir sobre classes sociais, políticas do cotidiano, valores culturais. As marcas dos diretores se manifestam através da edição, da montagem em sequência de cenas e discursos.

"'Pacific' me parece uma reflexão sobre a sociedade do espetáculo, da força e onipresença da imagem, e do consequente narcisismo associado a ela, no mundo contemporâneo", opina Claudio Bezerra, professor e pesquisador de cinema. "'Doméstica' é uma reflexão sobre a presença de um traço sociocultural arcaico ainda hoje na sociedade brasileira, que é esse ranço 'escravocrata' nas relações entre patrões e empregados domésticos", detalha.

A seleção da Abraccine parece indicar a constante transformação do gênero. "O conceito do documentário já foi virado pelo avesso e revirado de volta algumas vezes. Da mesma forma, não há mais espectadores ingênuos que aceitam tudo como uma verdade estabelecida", diz Luiz. "Talvez uma essência do conceito de um documentário seja o registro audiovisual de uma ação pela qual o cineasta não controla, um conceito difuso, uma vez que o realizador escolheu o local e a hora para captar aquela imagem", explica.

Eduardo Coutinho e João Moreira Salles

Eduardo Coutinho (1933-2014), mestre do documentário brasileiro, recebe atenção especial no livro: além de "Cabra marcado", "Jogo de cena" (2007), "Edifício Master" (2002), "Santo forte" (1997), "Peões" (2004), "O fim e o princípio" (2005), "Moscou" (2009) e "As canções" (2011) também são analisados. Através dos textos, é possível revisar o impacto que diretor teve no cinema nacional, refletindo sobre suas técnicas de entrevista e experimentos de linguagem.

"Coutinho é um divisor de águas no documentário brasileiro", opina Claudio. "Foi um documentarista inquieto e atento às transformações estético-narrativas do seu tempo. Pode-se dizer que a obra de sua maturidade artística é um exercício experimental de quem procurava romper com suas próprias convicções estéticas, do minimalismo de um 'Edifício Master', passando pela problematização da narrativa documentária em 'Jogo de Cena' e 'Moscou', seus filmes são referência obrigatória para se entender o cinema documental", ressalta.

João Moreira Salles tem três filmes estudados na publicação: "Nelson Freire" (2003), "Entreatos" (2004) e "Santiago" (2007), sendo o último um dos documentários mais interessantes dos últimos anos - pela forma como ao contar a história do mordomo de sua família, Santiago, apresentando um personagem rico em performance e entretenimento, Salles também fala sobre relações de poder, hierarquia e memórias afetivas.

"Com a morte de Coutinho, não é exagero considerar João Moreira Salles como o mais importante documentarista brasileiro vivo", sugere Claudio. "É um realizador inquieto e atento às transformações do documentário. 'Santiago', além de ser uma corajosa autocrítica e exposição pessoal, é um ensaio sobre a narrativa documentária, das relações entre quem filma e quem é filmado, eu e o outro, questões de evidência na contemporaneidade", destaca.

A imagem do índio

Vincent Carelli também recebe destaque: estão na lista "Martírio" (2016), co-dirigido com Ernesto de Carvalho e Tita, e "Corumbiara" (2009), além de "As hiper mulheres", dirigido por Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, com produção de Carelli. "Adoro o documentário porque você acessa muitas realidades. É um gênero fundamental", diz o diretor, que conseguiu com "Martírio" grande repercussão.

"O filme foi feito em dois momentos: no final dos anos 1980 e depois, entre 2009 e 2011", lembra Vincent. "Tinha inicialmente a intenção de fazer um filme sobre religião, mas na época não consegui e fui fazer 'Corumbiara'. Em 2009, quando mataram lideranças dos índios Guarani Kaiowá, pensei que tinha que retomar esse filme. Foi uma espécie de surto de revolta e indignação, ainda mais por ver o discurso da mídia, tratando os índios como invasores, até como terroristas", ressalta.

Carelli é o criador do Vídeo nas Aldeias, dedicado à formação de cineastas indígenas. Fundado em 1986, o projeto dá aos índios os meios de expressão através do cinema. "Não se ensina a questão indígena no Brasil, nas escolas, nas faculdades. Em 30 anos de Vídeo nas Aldeias, trouxemos a imagem do índio. Foi fundamental formar cineastas indígenas, fazer eles trazerem a realidade deles, de forma etnicista e humanizada", destaca.

País do documentário

O cineasta paraibano Paulo Caldas, radicado no Recife, codiretor de "Baile Perfumado" (1997) com Lírio Ferreira, transita entre ficção e documentário. Depois das ficções "Deserto feliz" (2007) e "País do desejo" (2012), Paulo lança o documentário "Saudade", previsto para entrar no circuito pernambucano ainda neste mês. "Minha vontade é que um dia desapareçam os limites entre ficção e documentário", sugere o diretor.

O primeiro documentário de Paulo foi "O rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas" (2000), codirigido com Marcelo Luna. "'Rap' tem uma estrutura narrativa e dramatúrgica da ficção. Já 'Baile' você pode achar que é um making of de um documentário. 'Deserto feliz' é o que mais aproxima as duas linguagens: uma ficção com um processo de filmagem de documentário", detalha.

"Saudade" parte de uma inquietação do realizador: como a palavra ganha sentidos a partir das visões de brasileiros, portugueses e habitantes de países da África com língua portuguesa. "O documentarismo brasileiro tem pessoas marcantes: Humberto Mauro, Silvio Tendler, Vladmir Carvalho. Atualmente o Brasil é o país do Carnaval, do futebol e do documentário", opina o diretor.

Mercado exibidor

Uma das dificuldades históricas que o cinema documental encontra no Brasil é espaço na programação. Além de salas com perfil alternativo, que costumam exibir filmes nacionais independentes e autorais, o cinema documental não costuma ocupar espaço significativo nas salas de cinema. "Isso é fruto de uma construção histórico-cultural vinculada ao cinema industrial", opina Luiz.

"O cinema nasceu pelo conceito do entretenimento, do lazer. O documentário surgiu como um produto sério. Esse preconceito não ajuda no êxito de bilheteria dos documentários, seja brasileiro ou de outros países, se os comparamos, claro, com os filmes de aventura, romance, comédia", destaca Luiz, que também atuou como programador do Cinema da Fundação e do Museu.

Esse problema também chega aos diretores. "Muitos filmes bons acabam sofrendo preconceito na sala de cinema", diz Paulo. "Quando falei para pessoas que estava fazendo um documentário, alguns perguntavam: 'E quando vai fazer um filme de novo?'. Tenho visto documentários brasileiros incríveis e talvez o gênero seja, em um nível comparativo que não é o ideal, mais forte até do que a ficção", destaca.

Serviço:
"Documentário brasileiro - 100 filmes essenciais" (Abraccine)
Editora Letramento, 352 páginas
Preço médio: R$ 79,90

Votação

A Abraccine agrega mais de 100 associados de todas as regiões do País. As votações para escolher os 100 filmes essenciais do livro tiveram supervisão do presidente da Abraccine, o crítico Paulo Henrique Silva, do Jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte.

Vem aí

Três documentários brasileiros estão no Festival de Berlim, que termina no próximo domingo (25): "O processo", de Maria Augusta Ramos, "Bixa travesty", de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, "Ex-pajé", de Luiz Bolognesi.




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