Histórias de quem persistiu na gastronomia

Crescer com boas ideias é para quem olha o início da trajetória com orgulho

Taco no Taberna - Cocina do SotoTaco no Taberna - Cocina do Soto - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Não há nada mais democrático do que uma calçada com gente, comida e outras histórias. Trabalho ao ar livre que durou seis anos na rotina do uruguaio Gustavo Soto, quando vendia tacos e choripan em Boa Viagem, entre 2002 e 2008.

Era a época em que ele montava uma estrutura improvisada de luzes e poucos banquinhos, com referências no circo, para chamar a atenção dos passantes. Deu tão certo que, mesmo seguindo para outras ações fora de lá, não tinha quem não o conhecesse pelas bandas da Zona Sul. CEP que há quatro meses abriga, enfim, o seu Taberna - Cocina do Soto repleta das vivências de quem ampliou um negócio próprio, sem perder a mão na cozinha.

Suas receitas trazem memória afetiva e, também por isso, são cheias de tempero. Algo difícil de transmitir em um único prato. Mas Gustavo consegue. Antes mesmo de abrir a casa, fazia questão de conversar olhando no olho dos clientes até conquistar a confiança de quem ainda se familiarizava com seu sotaque estrangeiro. Assim foi levando e até convivendo com a queixa mais simples para qualquer serviço: “aqui não tem banheiro”, ouvia das pessoas. “Tanto que, quando inaugurei o restaurante, coloquei um cartaz avisando: ‘agora temos banheiro’”, recorda.

Gustavo Do Soto

Gustavo Do Soto - Crédito: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco


Além de atender à “queixa”, ele ampliou o cardápio para itens latinos como empanadas uruguaias, a partir de R$ 8, tacos de carne ou frango (R$ 12) e quesadillas de tortilla frita na manteiga, por R$ 15. Isso sem falar na criação de uma agenda cultural montada com a ajuda da mulher Denise. Pôsteres de cinema estão nas paredes e indicam que, ali, é mesmo espaço de arte. Principalmente nas quartas-feiras, quando há exibição de filmes. Difícil de imaginar tudo isso nos tempos do improviso na rua, quando a operação focava mesmo na comida “e na manutenção do espaço, porque também era preciso limpar todo o quarteirão onde eu ficava”, conta.


Micael Pereira

Micael Pereira - Crédito: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco



Das lições de um começo desafiador, Micael Pereira lembra a fase em que vendia espetinhos na avenida Boa Viagem, em 2002. O agora dono do boteco Espetinho do Mica, na av. Visconde de Jequitinhonha, ficou conhecido perto da praia por conduzir o carrinho que lhe custou quase R$ 2 mil, fora custo de reparos. Da beira mar, ele saiu para a rua Vicência, próxima à orla, onde ficou quatro anos oferecendo os chamados espetinhos gourmets.

“Fazia questão de ter um cardápio diferente pra época, com picanha argentina, batatas recheadas, espetos de salmão e outras pedidas que ninguém pensava consumir sentado num banquinho. Até espumante e vinho vendia por lá”, diz ele ao listar de cabeça os quase 60 itens oferecidos. Quem passava por lá no fim da tarde, lembrará da calçada tomada por gente querendo iniciar os trabalhos noturnos.

“Mas foi preciso me reinventar e acompanhar as mudanças do mercado”, diz Mica. Não faltou noites sem dormir até ele abrir o atual ponto, há quase dois anos, agora com capacidade para 120 pessoas, numa estrutura bem diferente da que estava acostumado. Saíram os espetos de palito e entraram os pratos com a mesma proporção de carne. Entre eles a picanha suína na brasa intercalada com queijo prato, parmesão e molho barbecue (R$ 15,90) e o charque desfiado com queijo de coalho (R$ 8,90). Isso sem falar nos caldos de polvo e macaxeira que continuam entre os mais pedidos.

Se a ideia é continuar em movimento, bem como na época em que guiava o carrinho cheio de espetinhos, Mica adianta que recentemente adquiriu a estrutura ao lado do seu boteco para duplicar o atendimento até o final do ano. “Vejo tudo isso acontecer, mas sei de onde eu vim. Lá fora aprendi a oferecer comprometimento, segurança, qualidade e outras questões que me dão orgulho de lembrar”, assume. 

Trajetória doce
Na cartilha de todo empreendedor, não deve falta faltar persistência e originalidade. Tia Lígia, por exemplo, não recebeu esse nome à toa. A professora, que decidiu seguir o caminho da confeitaria, manteve o jeito de parente próximo mesmo quando as encomendas de tortas e bolos aumentaram.

Antes, era produto feito só para as amigas que sabiam das suas habilidades com o doce. Até etão, nada que tumultuasse o funcionamento da cozinha da própria casa e seu período de aulas no colégio Conviver. “Mas foi tomando uma proporção que eu mesma tive de dizer: são os bolos ou eu! Porque a cozinha de onde morava não comportava mais a produção”, reforça. Na prática, eram apenas um fogão de quatro bocas e uma geladeira para até 500 bolos num mês.

 

Tia Lígia

Tia Lígia - Crédito: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco


A alta demanda estimulou o aluguel de um ponto, em Piedade, onde hoje Tia Lígia produz e entrega os pedidos com a ajuda de dez funcionários. Acabou o tumulto dentro de casa. O carro-chefe continua sendo o bolo de laranja e o brownie coberto por calda de chocolate, sem falar nas encomendas específicas que surgem aos montes e totalizam até 70 opções. Embora a estrutura seja maior, sua história continua sendo a de quem tocou um projeto artesanal com receitas ensinadas pela avó e babá. “Sinto falta do processo pequeno e mais aconchegante, mas sei que, aonde estiver, levarei essa proposta naquilo que faço”, resume. 

Serviço:

Taberna - Cocina do Soto
Endereço: rua João dias Martins, 46, Boa Viagem
Informações: 99820.3049

Espetinho do Mica
Endereço: av. Visconde de Jequitinhonha, 575, Boa Viagem
Informações: 99615.4697

Lígia Tortas
Endereço: rua Sílvia Ferreira, 326, Piedade
Informações: 3344.0235 

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