Luedji Luna canta o silêncio e é atração do Festival Coquetel Molotov

Cantora baiana é uma das principais convidadas da edição de 15 anos do Festival No Ar Coquetel Molotov, neste sábado (17), no Caxangá Golf Club

“Cantar é meu jeito — tem sido meu jeito — de estar no mundo”, afirma Luedji“Cantar é meu jeito — tem sido meu jeito — de estar no mundo”, afirma Luedji - Foto: Tassia Nascimento/Divulgação

A travessia e o deslocamento sempre estiveram presentes nas histórias que permeiam a existência da cantora e compositora baiana Luedji Luna, 31 anos. Reconhecida “Artista Revelação” pelos prêmios Caymmi de Música e Bravo!, a artista imprimiu seu nome no mercado independente logo após o lançamento do agudo álbum de estreia “Um corpo no mundo” (2017). No debut, Luedji canta as diásporas dos corpos negros e as suas próprias, mas também briga pelo fim do paradigma de que a Bahia é lugar apenas de música festiva e Axé Music. Neste sábado (17), a voz por trás do hit “Banho de Folhas” é uma das atrações principais da edição de 15 anos do Festival No Ar Coquetel Molotov, no Caxangá Golf Club.

Natural do bairro do Cabula, em Salvador, Luedji traz no sangue inquietações ancestrais que se manifestaram a partir de silêncios para só mais tarde se materializar em “escritas muito no canto do imaginário, depois virar poesia, depois virar música”, como conta em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco. “A gente tem tanta crise de referência”, ressalta, ao lembrar que contava nos dedos as cantoras negras famosas e só achou possível apostar numa carreira musical aos 25 anos. “Nunca pensei que poderia ser algo palpável mesmo, até ver a Ellen Oléria ganhar um programa de televisão”, confessa - em referência ao “The Voice Brasil” de 2012.

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“Essa sensação do não pertencer, do ‘não-lugar’, é algo muito inapto”, conta ao relembrar a infância silenciosa como “coadjuvante” numa escola particular de Salvador. “Parece que nasci com isso e isso está presente na minha memória afetiva desde a infância. Perceber que minhas colegas tinham uma narrativa de onde poderiam trazer seus antepassados, por exemplo, uma genealogia italiana, portuguesa, contar a história dos bisavós, enquanto eu ficava no silêncio — sabia o nome do meu avô, da minha avó e ficava muito nesse silêncio”, relembra. Hoje, é categórica: “Cantar é meu jeito — tem sido meu jeito — de estar no mundo”.

Neste ano, a artista foi selecionada pelo edital da Natura Musical para sair em turnê pelo Brasil. Atenta às dinâmicas do mercado alternativo, conta e se surpreende com o número de conquistas, sobretudo enquanto mulher e negra. “Participo de absolutamente todos os processos da minha produção musical, escolho todo mundo que vai trabalhar comigo - via de regra mulheres pretas”, declara. “Acho que pouca coisa mudou no mainstream, mas na cena independente a internet tem mudado o olhar e permitido que outras narrativas e discursos possam também ter escuta e visibilidade”, reflete.



No dia 30 de novembro, ela lançará remix de “Banho de Folhas”, com produção do DJ Nyack, conhecido por acompanhar o rapper Emicida. O single é um dos cinco que compõem o EP “Mundo”, que contará com participações de Tássia Reis, Ricon Sapiência, Djonga, dentre outros. O lançamento está previsto para o início do próximo ano. “Que é o pr'o verão”, brinca. Ainda em dezembro, integra a line-up do Festival Jazz no Kubiko, que acontece em Luanda, capital da Angola, no continente africano.

Conexão Salvador/São Paulo
O sucesso de Luedji é produto, também, da aposta em “migrar” para a capital São Paulo, “onde circula o dinheiro, onde há um número maior de pessoas com maior renda e consumindo mais”. Ela lembra que essa migração não é de hoje. “A Bahia vem exportando música há muito tempo”. “O que se conhece por Música Popular Brasileira é uma história que se confunde com a própria música baiana”, diz, antes de citar nomes como os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e, os mais recentes, Giovani Cidreira, Xênia França e Josyara.

Confira abaixo um pouco da entrevista da Folha de Pernambuco com Luedji Luna:

O que é o “não-lugar”, de que você sempre fala?
Essa ideia do pertencer; ou melhor, essa sensação do não pertencer, do “não-lugar”, que ser um corpo negro da diáspora me traz, é algo muito inapto. Está presente na minha memória afetiva desde a infância, quando minhas colegas tinham uma narrativa de onde traziam seus antepassados, uma genealogia italiana, portuguesa, contar a história dos bisavós que vieram e comungavam duma nacionalidade etc. Eu ficava no silêncio. Não tinha o que contar muito da minha família. Sabia o nome do meu avô, da minha avó e ficava muito nesse silêncio, dos vários silêncios que a gente se submete partindo desse corpo. Quando saí de Salvador, que é uma cidade extremamente negra, e vim parar em São Paulo, eu falava: “Onde é que estão os pretos dessa cidade?”. Foi quando rememorei esse silêncio que eu trazia quando criança, de quando não tinha essa história para contar de qual África pertenço, quem são meus tataravós, para onde posso voltar.

Como nasce “Um corpo no mundo”?
Um corpo no mundo nasce dessa sensação de não pertencimento primeiro a São Paulo — que não pertenço mesmo e nada nessa cidade se parece com a minha —, mas também o não pertencimento a este território, a este país que é constituído por pretos, índios e brancos e que se pretende o tempo todo europeu, o tempo todo branco. Um país onde os negros não se vêm representados na televisão, na mídia, politicamente... Então qual é o lugar desse corpo negro? É o lugar do não pertencimento, é esse “não-lugar”. Então adotei o mundo como o lugar desse corpo. Não é um corpo no Brasil. Não é um corpo na África. É um corpo no mundo. Um corpo em diáspora, em busca. Sempre em busca.



Você sempre associa seu sentimento de deslocamento, sobretudo em São Paulo, às diásporas vividas pelo povo negro durante a colonização do Brasil. No entanto, imagino que sua mudança se deu de forma consciente. Quais foram as motivações para sua mudança?
Eu me sentia deslocada mesmo. Vim a trabalho, focada de fazer da minha carreira musical algo possível e materializar um sonho. A motivação era só essa, porque amo minha cidade e todos os meus vínculos. Todos meus afetos estavam em Salvador à época. Em São Paulo não conhecia absolutamente ninguém. Achava uma cidade fria, mas percebia um movimento de que tudo que havia de vanguarda na música brasileira — e que tinha muita visibilidade — partia de São Paulo. Tive algumas poucas experiências antes de vir definitivamente. Experiências boas. Por essa razão escolhi morar aqui. Pra fazer música e realizar o sonho.

Há muito se fala numa centralização do circuito cultural no eixo Rio-São Paulo. Sendo uma artista que precisou mudar geograficamente, qual tua percepção a respeito?
Muita coisa aconteceu nestes três anos. Percebo que, no Brasil, o olhar se voltou pro Nordeste. Se voltou pra Bahia, sobretudo. A música baiana era taxada e rotulada apenas como música festiva e do Axé [Music] e isso mudou, esse paradigma mudou. Nesses três anos que estive aqui senti que já nos olham com outros olhos, que a gente conseguiu e vem conseguindo paulatinamente ocupar outros espaços. Não sei se em função dessa migração... Afinal, não fui só eu que vim pra cá, né? Xênia [França], Josyara, Giovani Cidreira também migraram. Coincidentemente, ou não, uma gama de artistas baianos super criativos e talentosos começaram anunciar novos trabalhos.

Hoje percebo a Bahia e Salvador com um olhar completamente diferente. No entanto, morar no Nordeste ainda é um desafio por conta da carência de políticas públicas pra cultura e de uma própria cultura de consumo de arte. Em Salvador há muito isso de não se pagar o justo pra ver um artista e isso não acontece aqui no Sudeste. E aí o Sudeste é esse lugar onde circula o dinheiro, onde há um número maior de pessoas com maior renda e consumindo mais. Pode ser 50 ou 500 reais, vai ter público pra assistir o seu espetáculo.

E esse movimento Bahia/São Paulo não é de hoje. Grandes nomes o fizeram nas décadas de 1960, 1970...
A Bahia vem exportando música há muito tempo. O que se conhece por Música Popular Brasileira é uma história que se confunde com a própria música baiana. Desses baianos que migraram, se consolidaram e construíram a Música Popular Brasileira. Caetano é baiano, Gil é baiano, Tom Zé é baiano, Maria Bethania, Gal, enfim, esses nomes que também fizeram esse movimento migratório e é um movimento que a gente tá fazendo e precisa continuar fazendo pra conseguir se consolidar na música e sobreviver disso.


Desde o fim da última década, com a internet, que o mercado fonográfico vive uma “sinuca de bico” e você integra uma leva de artistas que construíram sozinhos o próprio caminho. Como você enxerga estes cenários?
Acho que pouca coisa mudou no mainstream, mas na cena independente a internet tem mudado o olhar e tem permitido que outras narrativas e discursos possam ter também escuta e visibilidade. Se antes havia um grupo de críticos de arte que determinavam o que tinha ou não tinha de ser ouvido, o que era ou não bom, a dinâmica mudou depois da internet. Muitos artistas começaram a surgir daí e o público passou a gerar essa demanda.

Minha trajetória foi no independente e não tive alternativa senão ser independente. Tive de aprender a manejar essas ferramentas e autogerir minha carreira. Por um lado a gente esbarra com a ausência de recursos. Uma vez que você está numa gravadora e está atrelada a um empresário, existe uma injeção de dinheiro para alavancar a carreira do artista e no independente isso não acontece. Por outro lado, ser independente te dá autonomia.

Participo de absolutamente todos os processos da minha produção musical. Escolho todo mundo que vai trabalhar comigo, via de regra mulheres pretas. Minha produção é uma produção, majoritariamente, de mulheres pretas. Tenho total liberdade e autonomia pra fazer o que quiser com minha carreira. No processo da gravação do disco, escolha de repertório, sonoridades etc etc. Coisa que não aconteceria se tivesse numa grande gravadora.

De antes de “Um corpo no mundo” para agora, que mudou em você enquanto artista e, sobretudo, mulher e artista negra?
Nossa! [suspiro] Mudou muita coisa! [sorri] Meu Deus! Minha vida mudou completamente. Hoje vivo estritamente da música. Essa carreira é extremamente exaustiva. Bem mais do que imaginava. Não é só o trabalho de estar no palco e cantar, né? Tem todo um trabalho indireto por detrás que demanda muito do artista. Mas ‘tô’ dando conta. Depois de “Um corpo no mundo”, onde a demanda de shows triplicou e a visibilidade aumentou, me sinto muito cansada, mas muito potente, com uma sensação de que posso fazer mais do que venho fazendo. Me sinto como um corpo célere, que pode voar se quiser, entende? Estou cheia de projetos pro ano que vem, de novidades pra esse ano, enfim, viva. Eu me sinto viva.

Disco novo?
Quero esperar pra ver como caminhará o ano de 2019, mas já tenho ideias de um disco novo. Estou querendo cantar outras coisas. A gente já fez um experimento com as novas canções, chamado “Bom mesmo é cantar debaixo d’água”. Provavelmente vamos pelo caminho de um disco que fale sobre afetividade, amor. Um disco de mulheres pretas para mulheres pretas.

 

 

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