Crítica

Madam C.J. Walker: como a minissérie da Netflix trata a história da primeira negra milionária dos Es

Dividida em quatro capítulos, a série parte de um problema comum às mulheres negras da virada do século XX no território norte-americano: a queda de cabelo

Octavia Spencer no papel da protagonistaOctavia Spencer no papel da protagonista - Foto: Divulgação

Historicamente, narrativas afrocentradas - histórias que colocam a negritude como trama central - sempre ficaram à margem na programação das grandes cadeias televisivas. O que era um déficit para as emissoras de televisão, acabou se tornando um dos valores da Netflix. Nos últimos anos, a empresa de streaming lançou ao público produções como o “Homecoming (documentário de Beyoncé)”, “Cara Gente Branca”, “Olhos Que Condenam”, “The Get Down” e “Chewing Gun”, que possuem olhares distintos sobre as discussões raciais. É nesta proposta que a plataforma estreou, na última sexta-feira (20), a minissérie A Vida e a História de Madam C. J. Walker, que narra a trajetória da considerada primeira mulher negra milionária dos Estados Unidos.


 

Dividida em quatro capítulos, a série parte de um problema comum às mulheres negras da virada do século XX no território norte-americano: a queda de cabelo. Esse incômodo transformou a vida de Sarah Breedlove, lavadeira e filha de escravizados libertos, em uma empresária de sucesso no ramo da beleza. Interpretada pela vencedora do Oscar, Victoria Spencer, a protagonista busca soluções para o crescimento do seu cabelo, o qual havia sofrido uma queda quase total dos fios. Ela busca a solução com Addie, dona de uma empresa de produtos capilares destinadas às mulheres negras do Missouri, em troca de roupas lavadas.

Em meio ao sucesso do tratamento com Addie, a minissérie vai destrinchando problemáticas comuns à mulher negra através da pele de Sarah, que vivencia a violência doméstica, o abandono conjugal e o sacrifício em criar sua filha única, Lelia, sozinha. O Jogo muda quando Breedlove tenta ser vendedora da marca consumida e recebe uma resposta negativa por não atender aos padrões de beleza de uma mulher de cor na época - pele clara, cabelos mais cacheados e traços afinados decorrentes da miscigenação. A partir do primeiro “não”, ela busca criar seu próprio produto, com a própria história e que transformasse todas as mulheres negras norte-americanas, com um investimento de US$ 1,25.

É com este mote, de não aceitar os “nãos”, que a série vai desenvolvendo a história da protagonista nos quatro episódios. Dirigida e roteirizada por mulheres negras, incluindo a trineta da empresária A’Lelia Bundles, a produção trata os temas relacionados ao racismo, colorismo e machismo com leveza, humor e com atualização das problemáticas. A trilha, que percorre elementos da black music contemporâneos, ajuda a dar uma cara atemporal à minissérie, que poderia soar datada por ser uma atração de época. A atuação de Spencer segue a mesma linha: uma mulher negra, que poderia ser de qualquer geração, mas que tem o peso de decisão de uma sociedade.

Quando se chega ao fim da produção, há uma limpa no imaginário que se tem ao assistir o trailer e o primeiro episódio: a história de uma mulher negra milionária, por si só, carrega uma narrativa rica. Contudo, a série se encarrega de deixar o verdadeiro legado de C.J.Walker: de uma mulher à frente do seu tempo, que lutou por igualdade de raça e de gênero, e revolucionou a beleza norte-americana. Além disso, poucas produções - embora haja uma franca evolução - trata homens e mulheres negras com um status de poder, inteligência e de protagonismo de maneira tão clara, leve e objetiva como em C.J. Walker. Talvez, esta seja, sua maior conquista.

 

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