Marco das séries de TV, 'Breaking Bad' completa dez anos

Completando - neste dia 20 - uma década, a partir da estreia, produção se tornou uma referência do desenvolvimento técnico e estético dos seriados

'Breaking Bad" 'Breaking Bad"  - Foto: Divulgação

Se hoje as séries de TV e produzidas por plataformas digitais - como Netflix e Amazon - ocupam um espaço importante na cultura pop, sendo elogiadas ao ponto de, em determinados casos, se aproximar da indústria do cinema na hierarquia do audiovisual, em termos de qualidade e ousadia, é porque entre o fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000 ocorreu um importante processo de transformação.

Na virada do século, algumas emissoras apostaram em obras desafiadoras que mudaram a forma de perceber e consumir séries. Um desses projetos é "Breaking bad", que completa dez anos de estreia neste dia 20 de janeiro. A partir dela, criada por Vince Gilligan e produzida pela AMC, é possível investigar esse período e entender o processo gradual de mudanças que ergueram a atual estrutura de fascínio e fanatismo que acompanha o ato de ver determinado projeto.

A série conta a história de Walter White (Bryan Cranston), professor de química que quando descobre que tem câncer começa a produzir metanfetamina e acaba criando um império de crime. O livro "Homens difíceis" (Editora Aleph) é uma peça importante no estudo das transformações desse período. Escrito pelo jornalista norte-americano Brett Martin, vencedor do prêmio James Beard de jornalismo, a publicação traz detalhes de bastidores, entrevistas e análises sobre o impacto que esses projetos tiveram na história da TV.

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"Sempre existiram bons trabalhos feitos por bons roteiristas na televisão", diz Brett, em entrevista exclusiva para a Folha de Pernambuco. "A diferença é que no início dos anos 2000 o público começou a esperar essa qualidade e as emissoras passaram a acreditar que havia um valor econômico nisso. 'Família Soprano' foi o show que convenceu eles que essa percepção era verdadeira", opina.

Apostas e revoluções
O sucesso de "Breaking bad", "Mad men" e mais recentemente "Game of thrones" segue o caminho iniciado pela aposta certeira de "Família Soprano". Produzida pela HBO, a série foi peça importante no processo de transformações que ocorreram na TV. "A HBO foi o primeiro canal a perceber que na paisagem em mudança dos meios de comunicação qualidade e empoderamento de artistas seriam fatores necessários para estabelecer suas marcas", diz Brett. "Outras emissoras seguiram, com a AMC sendo uma das mais importantes", ressalta.

Com "Família Soprano", a HBO passou a investir em um conteúdo adulto e desafiador: os conflitos existenciais, familiares e emocionais de Tony Soprano, chefe da máfia. "A HBO era basicamente um canal de filmes, e tinha programas especiais de stand up, séries sobre boxe. Era um canal premium, ainda é, mas não tinha esse enfoque na criação de conteúdo original", lembra Marcelo Forlani, editor do Omelete, site dedicado à cultura pop. "Aí veio 'Família Soprano', em 1999, trazendo para a TV um conteúdo diferente, mais adulto", ressalta.

"A HBO começou a dar importância para um horário que era gasto em outras coisas, o domingo à noite. Eles entenderam que quem está em casa quer ver algo sensacional. 'Game of thrones' herdou esse horário que antes era de 'Família Soprano' e 'Six feet under'. O domingo à noite passou a ser o 'prime time do prime time' da TV a cabo norte-americana. É quando os adultos estão em casa e dispostos a assistir algo diferente de 'Friends' ou 'Seinfeld'. Essa foi uma mudança importante", destaca.

Conflitos existenciais faziam parte de

Conflitos existenciais faziam parte de "Família Soprano", da HBO - Crédito: Divulgação



Narrativas
"Essas séries são um marco de uma revolução que acontece na televisão desde finais da década de 1990", opina Carolina Dantas, professora do departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que destaca a importância da série de guerra "Band of brothers" (2001), produzida por Steven Spielberg para a HBO. "Ela trouxe dois dos elementos de 'Breaking Bad', 'Mad Men' e 'Game of Thrones': o tratamento da série como um produto 'prime', feito com qualidade, e uma influência da telenovela latino-americana, da TV Globo e da Televisa, no México", ressalta Carolina.

"O drama latino-americano é consumido nos Estados Unidos desde a década de 1970. Essa forma de contar história entrelaçada, em que um capítulo é coerente com outro, passa a fazer sentido para o americano médio. E obviamente que as empresas de televisão percebem isso", indica a professora.

As séries da HBO renovaram não apenas na forma e na estrutura, mas também no conteúdo. "'Breaking Bad' é uma série pesada. O normal da TV naquele momento era o foco em sitcom e dramas leves, feitos para a TV aberta. Qualquer pessoa podia assistir com a avó ou o filho de 10 anos. 'Breaking bad' foi uma das que ajudou a mudar isso", diz Marcelo. "Feita pelo AMC, canal fechado que entendeu o que a HBO estava fazendo, é um drama para o público adulto", ressalta.

"São séries com temática mais pesada, mais violência, palavrão, drogas. Temas que não se viam na TV. É bem escrita e com personagens tridimensionais, o que não existia em séries procedurais, termo que indica séries que podem até ter um arco dramático, mas na maior parte do tempo tem um enredo que começa e termina dentro do tempo de um episódio. 'Breaking bad' tem esse esquema de ser seriada no sentido de que para entender é preciso assistir a tudo", detalha.

"Mad Men" também foi um produto que marcou o meio audiovisual - Crédito: Divulgação



Homens difíceis
Entre os motivos do sucesso dessas séries está a construção de personagens complexos, que não são claramente bons ou maus, pessoas que agem impulsionados por sentimentos contraditórios, seguindo um fluxo emocional que nunca parece inteiramente claro. "É difícil perceber agora o quão revolucionário foi ter um herói como Tony Soprano, ou que fazia as coisas que Walter White fazia", lembra Brett. "Até aquele ponto a televisão trazia caras bons e caras maus. Esses personagens não eram nem completamente bons ou maus", ressalta.

"Walter White é um anti-herói, alguém que sai de uma situação completamente inesperada de professor universitário, com uma vida pacata, um casamento estável, e que tem sua vida virada por uma doença, e que a partir disso escolhe que não tem mais nada a perder", explica Carolina. "Ele decide ocupar uma posição quase que deliberadamente de anti-herói. Isso ao longo das temporadas escala a ponto de em alguns momentos o personagem principal chegar a ser o vilão", destaca.


Plataformas digitais
A revolução provocada pela HBO e AMC no começo dos anos 2000 parece ter sido reconfigurada pela Netflix e outras plataformas digitais, como a Amazon. "A televisão tradicional e a TV a cabo - embora a TV a cabo tenha receptores digitais que permitem gravar para assistir depois -, não permitem que você curta o produto. Você precisa estar em casa, naquele horário, para ver sua série favorita", comenta Carolina. "Netflix e Amazon partem de uma proposição diferente: o público escolhe o momento, o tempo e o tipo da fruição", ressalta.

Essa facilidade, comparada a um sentido tradicional de programação, eleva essas plataformas em relação à TV - mas sua funcionalidade e relação com o público vão além. "Netflix e Amazon usam bem os dados que têm dos usuários", diz Marcelo. "Ninguém consegue vender melhor do que a Amazon. Eles são certeiros na forma como sugerem produtos. Sabem o que você está procurando e te mostram o que as pessoas estão comprando. A Netflix é a mesma coisa. A partir de dados veem o que as pessoas procuram e assistem", explica.

"Por exemplo, perceberam que existia uma procura por séries mais políticas, então criaram 'House of cards'. O Amazon Prime oferece conteúdo de séries e filmes. Com a Netflix se tornando produtora de conteúdo, eles foram também nessa mesma pegada. São empresas que têm no seu DNA a utilização da big data, um conjunto de dados que ajudam a entender o que as pessoas estão querendo e assim eles conseguem antecipar. Criam um conteúdo para as pessoas antes mesmo delas saberem que querem aquilo", detalha o editor do Omelete Marcelo Forlani.

Essa forma de chegar ao público, investigando preferências a partir de buscas, dados e cliques, parece colocar a Netflix como protagonista na cultura pop contemporânea. "A coleta digital de dados permite que essas plataformas conheçam a intimidade do público e possam propor conteúdos a partir disso", indica Carolina. "O grande sucesso atual da Netflix, 'Stranger things', é uma prova disso: o algoritmo mostrava que pessoas gostavam de ver séries de ação, mistério, anos 1980, crianças. 'Os Gonnies' é um filme extremamente revisto na Neflix. Deu certo", explica.

"Também pode dar errado. A Netflix tem um produto chamado 'Santa Clarita Diet' que é com a Drew Barrymore e que parte da mesma premissa: muitas pessoas gostam da atriz, gostam de zumbis, então fizeram uma série com a Drew Barrymore zumbi, e foi um fracasso retumbante", ressalta.

 

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