Mulheres na linha de frente da música pernambucana

Autorais e independentes, artistas pernambucanas se impõem às dificuldades culturais dos tempos atuais

Isaar é uma das forças pernambucanas na músicaIsaar é uma das forças pernambucanas na música - Foto: Reprodução/Instagram

Enquanto não chega o sol de quase janeiro, Isaar segue esbanjando otimismo. Ela acha que “o mundo não vai acabar” mas, se rolar esse desvario, tem uma tuia de gente para (re)construí-lo. Uma fala que inclui, além dela própria, o pensamento de outras tantas mulheres que têm tomado as rédeas da cultura pernambucana, mais especificamente da musicalidade, que, em 2019, continuou ressignificando vozes autorais e independentes, a sós ou em coletivos, num caminhar contra o vento que muito mais instiga do que assusta.

Afinal “quanto mais se tolhe mais se encontra outros caminhos, como a água criando espaço na pedra para poder seguir o seu curso”, diria Isadora Melo, outra fonte inesgotável do fazer artístico que se impôs às estranhezas dos tempos atuais. Para 2020, a ideia é permanecer a ocupar espaços e causar balbúrdias por meio do canto, da dança, da poesia e de outras possibilidades. "É muita luz, inclusive, para o movimento negro, estamos em um momento de compartilhar e unir artistas", antever Isaar, com o tom de quem está fervilhando para entrar em cena e se fazer presente.

Do mulherio insone do planeta Pernambuco, vem de Caruaru o ressoar militante de Gabi da Pele Preta, como "mulher, preta, nordestina e artista" que não abre mão de sua identidade, dentro e fora dos palcos. Ora ativista na Marcha Mundial das Mulheres, ora integrada a movimentações como o Reverbo, ora com disco novo, feito com recursos próprios e que chegará nos primeiros meses do novo ano tomado por composições de Joana Terra e Alexandre Revoredo, entre outros. "O desejo é lançar a primeira faixa junto a um clipe, estamos trabalhando para isso. Gravar um disco do meu bolso já é uma super vitória, é tudo muito simbólico e me honra como trabalhadora da música. Quero entrar pelos olhos, ouvidos e poros das pessoas", almeja uma das vozes mais indispensáveis de nossa cena.

Gabi da Pele Preta imprime identidade em fala canto




Tal qual se faz a também caruaruense Isabela Moraes, que, entre São Paulo, Recife e sua terra natal, já vai em mais de duas décadas de uma carreira levada por entregas. Compositora de hits vociferados por nomes como Mariana Aydar e Almério, ela recebe 2020 ávida em lançar um disco "intenso e carregado de amor, com letras e discursos atuais que desaguam nessa conjuntura de querer sentir-se mais vivo do que nunca nesses tempos sombrios".

A 'vibe' da rapper, compositora e percussionista Jéssica Caitano não é diferente. De Triunfo, no Sertão, ela tem percorrido palcos Brasil afora com o seu "rap repente", levado por um tal de "eletrococo muderno", e, em breve, seu primeiro disco chega ao público, com produção de Chico Correa e "participações incríveis", de acordo com a própria, que deseja, para o próximo ano, "força a toda a geral que trampa nas artes, porque não vai ser fácil". Tampouco será nos dias que se aproximam a descoberta das soluções.

"Não vejo ainda como vai melhorar ou se será mais pressão para nossa cultura, mas sei de certeza que não desistiremos da arte que fazemos", promete Rogéria Dera, outro nome tão colorido quanto todos já citados nestas linhas. "Nossa cultura tem peso e é hora de ganhar ainda mais corpo. Que nossas canções nos representem, nos fortaleçam como artistas", ressalta ela, que pensa em "dar algumas guinadas em seu trabalho no próximo ano, com planos de composições, projetos e shows com os amigos. Porque, pelas bandas de cá, é o coletivo que tem dado voz a essas tantas vozes.

Reverbo, Dita Curva e outros ajuntamentos
A cantora Isaar conversou com a Folha de Pernambuco lá das bandas da Bahia, mais precisamente de Salvador, cidade que recebe, neste final de semana, a "Dita Curva", reunião de mulheres que se multiplicam em tantas outras no palco. Além dela, Aishá Lourenço, Aninha Martins, Isadora Melo, Laís de Assis, Luna Vitrolira, Paula Bujes, Sofia Freire, Ylana Queiroga e Flaira Ferro, esta última idealizadora do projeto, compõem o time de sons, performances, danças e silêncios do coletivo, uma das saídas estratégicas para uma acossada realidade. "Prestamos um serviço para a sociedade e precisamos construir nesse momento para colher lá na frente", justifica Isaar, que ressalta, também, o Reverbo como outro compartilhamento artístico.

"Devem surgir outros movimentos para artistas negros e LGBTs, por exemplo", entoa ela, com ares de desejo, repartido por Gabi, a moça da pele preta, nordestina e tal: "Minha estratégia é andar em bando, cantando, declamando, ocupando espaços em nossos microreverbos, entendendo que as estratégias vão surgir daí, da coletividade".


Isadora Melo é potência de voz na cena pernambucana


E eis que vem uma Luíza Fittipaldi e desabafa sobre seus planos para 2020: "Primeiramente é continuar viva. Como artista independente, como artista de resistência, militante, LGBTQ, em se tratando desse estado político em que vivemos, continuar viva é realmente um plano o próximo ano". Em seu álbum de estreia, "Se Essa Rua Minha Fosse" (2016), a cantora recifense já esboçava grandiosidade em seu viés reflexivo. E para os planos do novo ciclo, a promessa é de mais "atrevimento". "As músicas novas têm um teor de mais reflexão e alertas. É o que quero causar".

O tanto quanto Una quer causar em mundos onde o seu "Esquartejada" (2019) possa chegar. "Quero levá-lo para lugares onde nunca esteve", sentencia. Já Larissa Lisboa "quer tocar ao vivo suas coisas", provavelmente para além do palco, porque o lance é "chocar através da arte", outro dos desejos coincidentes entre essas mulheres e outras tantas da música, da arte e da vida que, sim, assegurarão mais sobrevivências aos janeiros que se avizinham.





 

 

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