Oscar mais politizado, mas nem tanto

Cerimônia do Oscar, em sua 90ª edição, fez espetáculo que exagerou no lado midiático, embora tenha concedido visibilidade às minorias

Frances McDormand protagonizou ponto alto da premiação, chamando atenção contra o preconceitoFrances McDormand protagonizou ponto alto da premiação, chamando atenção contra o preconceito - Foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP

Diante do atual momento que Hollywood atravessa, com constantes denúncias dos assédios que os grandes produtores da indústria praticavam, era esperado que a maior premiação da indústria do entretenimento no mínimo tocasse nesse assunto. O Oscar - oficialmente Academy Awards - chegou a sua nonagésima edição indo além, não só celebrando os filmes e atuações clássicas da sétima arte como também dando maior espaço para um discurso politizado. E estas vozes foram principalmente sentidas em alguns dos vencedores que subiram no último domingo ao palco do Teatro Dolby, em Los Angeles.

Entretanto, ao avaliar a cerimônia e o contexto no qual ela está inserida como um todo, o espetáculo pareceu midiático demais. Sim, é importante que Jordan Peele tenha se tornado o primeiro negro a ter faturado Melhor Roteiro Original, por "Corra!", mas foi premiado na categoria de Melhor Curta de Animação o jogador de basquete Kobe Bryant, processado por estupro em 2003. É incrível que o chileno "Uma Mulher Fantástica", de Sebastián Lelio, seja o primeiro longa estrelado por uma mulher transexual (Daniela Vega) a ter ganho um Oscar, de Melhor Filme Estrangeiro, porém foi Gary Oldman, acusado de ter espancado a ex-esposa, que levou o prêmio de Melhor Ator.

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Ao mesmo tempo em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas concede visibilidade à minorias políticas - e isto é muito bem-vindo - parece não querer pesar ou avaliar o fato que talentosos artistas também possam cometer crimes. Além disso, não estavam presentes os trajes pretos que tanto chamaram a atenção ao serem usados pelas mulheres na cerimônia do Globo de Ouro. Essa ausência parece reforçar a necessidade de espetacularização de qualquer tema, não importando qual seja ele e muito menos de qual lado esteja.

Frances McDormand sem sombra de dúvida deteve o melhor momento da cerimônia. Após seu discurso de agradecimento por ter ganho na categoria de Melhor Atriz, por "Três Anúncios para um Crime", a atriz de 60 anos pediu que todas as mulheres indicadas naquela noite se levantassem e destacou a "cláusula de inclusão" no trabalho do cinema. Meryl Streep, Margot Robbie, Sally Hawkins e Rachel Morrison - primeira mulher a ser indicada em Melhor Fotografia, por "Mudbound" (e não ganhou, pois a estatueta ficou com Roger Deakins, de "Blade Runner 2049") - foram alguns dos nomes que se juntaram aos aplausos e gritos da intérprete.

Ao conceder diversos prêmios para filmes e artistas que falam espanhol ou são da América Latina, a Academia pareceu se posicionar definitivamente contra a política anti-imigração do presidente Donald Trump. "A Forma da Água" levou o principal prêmio da noite, de Melhor Filme, e seu diretor, o mexicano Guilhermo Del Toro, na categoria de Melhor Direção. A decisão também é importante para filmes de ficção e fantasia, já que raramente estes gêneros são contemplados no Oscar. "Viva - A Vida é uma Festa", que aborda o feriado mexicano do Dia dos Mortos, ganhou nas categorias de Animação e Canção Original.

Pela segunda vez como apresentador, Jimmy Kimmel não surpreende e entrega piadas esperadas pelo grande público (o vexame dos envelopes trocados em 2017 foi sistematicamente lembrado). Teria sido mais interessante ter entregue a condução da noite para as comediantes Tiffany Haddish e Maya Rudolph, que apresentaram as categorias de Documentário e Curta de Documentário, e arrancaram risos da plateia.

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