Palácio Joaquim Nabuco abriga um acervo histórico precioso

Com cerca de 60 milhões de documentos, além de móveis e obras de arte, antiga sede da Assembleia Legislativa de Pernambuco aguarda recursos para requalificação do museu

Palácio Joaquim Nabuco foi inaugurado em 1875Palácio Joaquim Nabuco foi inaugurado em 1875 - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

As paredes azuis do prédio situado no número 631 da rua da Aurora, no bairro da Boa Vista, guardam parte fundamental da história de Pernambuco. Conhecido por sua imponência arquitetônica, o Palácio Joaquim Nabuco serviu de sede da Assembleia Legislativa de Pernambuco entre 1875 e 2017. Agora, suas acomodações abrigam um museu à espera de uma reforma que garanta sua continuidade e modernização.

Em processo de tombamento pelo patrimônio histórico estadual, o imóvel foi projetado pelo arquiteto pernambucano José Tibúrcio Pereira Magalhães e teve a sua construção iniciada em 1870. A obra só foi concluída em 1876, já em pleno funcionamento como casa oficial do parlamento. São três pavimentos, com salões repletos de móveis, lustres e obras de arte. A tendência arquitetônica principal é neoclássica, mas outros estilos podem ser encontrados nos detalhes.

"Você navega por um espaço que foi palco de grandes decisões. O sentimento de pertencimento nasce nesse instante. O nome da rua, o prédio, o calçamento: tudo foi decidido aqui. Essa paredes emanam uma energia que eu considero mágica. O plenário, inclusive, foi desenhado com essa ideia. A cúpula se assemelha aos céus, trazendo inspiração divina. Uma estátua da deusa da eloquência está atrás do púlpito, para que o deputado consiga ter uma boa oratória. Também estão lá as deusas da sabedoria, da jurisprudência e da justiça", explica Cynthia Barreto, superintendente de Preservação do Patrimônio Histórico do Legislativo, para quem a guarda deste tesouro histórico é uma missão.

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As relíquias estão espalhadas por todos os cantos. Quadros de Vicente do Rego Monteiro, cuspideiras da época em que os parlamentares mascavam fumo de rolo, cadeiras e mesas feitas para a inauguração do palácio, além de outras peças, fazem a ambientação. "Você encontra certos materiais que estão extintos, como o mármore travertino rosé, que não é mais fabricado", detalha.

Com a inauguração do Edifício Governador Miguel Arraes de Alencar, na rua da União, o espaço perdeu sua função administrativa e os problemas estruturais começaram a aparecer de forma mais evidente. Os laudos apresentados pela Defesa Civil e pelo Corpo de Bombeiros apontam alto risco incêndio e outros tipos de acidentes. Há problemas elétricos, hidráulicos, no piso e na cobertura. Por esse motivo, a Alepe liberou o montante de R$ 900 mil para uma reforma emergencial, que deve ser iniciada ainda neste mês, visando contornar os danos existentes no prédio.

No entanto, a proposta da instituição é modernizar o museu, tornando-o mais atrativo para o público. Para isso, um plano museógrafo está sendo elaborado por especialistas pernambucanos. "Queremos um museu mais interativo. Pretendemos construir um píer às margens do Capibaribe, numa parceria que estamos firmando com a Prefeitura do Recife. Lá terá um café para recepcionar os turistas. Dentro do palácio, os visitantes terão acesso a vídeos, palestras, oficinas, apresentações culturais, mostras temporárias e uma exposição permanente", adianta Cynthia.

Para que o planejamento saia do papel, no entanto, será necessária uma reforma muito maior do que a já prevista. "Nós precisamos trabalhar com um restauro global. Uma reforma em um prédio do século 19 não é como uma obra civil qualquer. As sucessivas adaptações ao longo do tempo, como instalações de elevadores e sanitários, mexem muito com a estrutura de um imóvel assim", aponta a superintendente.

Em busca de recursos

O deputado estadual Clodoaldo Magalhães (PSB), primeiro-secretário da Alepe, é quem está à frente da iniciativa de arrecadar recursos para a reestruturação completa do palácio. Com orçamento de R$ 17 milhões, o projeto foi aprovado para captação via Lei de Incentivo à Cultura (antes conhecida como Lei Rouanet). Desta maneira, instituições privadas poderão realizar a doação e abater o valor do imposto devido.

"O que nós queremos é preservar esse espaço e fazer dele um local onde a sociedade entre e possa interagir. No que diz respeito à museografia, a estimativa é de R$ 12 milhões, mas a nossa preocupação inicial é captar o recurso necessário para o restauro", explica o deputado. O Banco Santander já apresentou uma carta de intenção formal para executar o projeto, mas outras possibilidades de patrocinadores não estão descartadas. "Nós precisamos desse apoio da iniciativa privada e para as empresas também é interessante ter sua marca atrelada a um trabalho de proteção da história e da cultura de um povo", argumenta.

"Isso já é uma demonstração oficial de interesse, mas existem conversas com outras empresas. A captação ainda está em curso e só teremos certeza quando ela for concluída", pondera. O projeto de viabilidade do museu já está concluído e o de engenharia está sendo desenvolvido por uma empresa especializada, escolhida por meio de licitação.

Documentação histórica

Além do mobiliário histórico e das peças de arte, a Alepe detém cerca de 60 milhões de documentos catalogados. São registros históricos, que datam desde 1747. Um exemplo é a primeira ata de formação do parlamento pernambucano e o registro do batismo da princesa Isabel. Alguns são bastante curiosos, como o pedido de uma moça órfã, no século 19, que solicita aos parlamentares a doação de um dote para que ela possa casar. A petição foi negada, já que a mulher havia apresentado mau comportamento em seu histórico escolar. "A gente também encontra, por exemplo, a carta de um índio que, para ter seu pedido por terras aprovado, argumenta que já possui escravos", conta Cynthia Barreto

A massa documental já não está mais no Palácio Joaquim Nabuco, já que o espaço não possui as condições necessárias para o seu condicionamento. Atualmente, ele está em um imóvel alugado na rua do Sossego, no bairro da Boa Vista. Uma equipe de restauradores fica responsável por cuidar dos papéis mais antigos. Os documentos são higienizados com trincha (tipo de pincel) feita com pelos de orelha de boi, folha a folha. Eles também recebem uma lavagem a 50 graus centígrados, para poder retirar qualquer resíduo estranho impregnado nele.

O acesso a pesquisadores e o público geral é aberto, mas sempre intermediado por técnicos, mediante o uso obrigatório de equipamentos como luvas, óculos, máscara, touca e espátula. Os documentos também já estão sendo digitalizados e, com a conclusão do processo, ficarão disponíveis no site da assembleia legislativa.

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