Tereza Costa Rêgo comemora aniversário com exposição

Artista plástica completa 88 anos e aproveita a ocasião para exibir o painel "Mulheres de Tejucupapo", na Torre Malakoff

Quadro de Tereza Costa RêgoQuadro de Tereza Costa Rêgo - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Fascinado que é pela imortalidade, se o ser humano fosse escolher uma idade em que a existência finalmente se tornasse infinita, bem que poderia ser aos 88 anos. Símbolo do inacabável, o numeral sozinho já representa a existência. Em dose dupla, então, é eternidade garantida. Amanhã, a artista visual Tereza Costa Rêgo, que mesmo não acreditando no infinito - "é uma coisa inventada" -, resolveu comemorar seu aniversário em grande estilo, com uma exposição idem, porque é dessas mulheres que valorizam e aproveitam a liberdade da vida, justamente por causa de sua finitude.

Ela dá de presente a si mesma o vencimento de um medo, um sofrimento, mostrando ao público uma obra guardada há quatro anos. Um gigantesco painel tem o mesmo nome da mostra, "Mulheres de Tejucupapo", de 8m X 2,2m, em acrílico. "Esse episódio já foi escrito, encenado, mas nunca pintado", justifica a artista e historiadora. "É preciso de História até para ir a padaria comprar pão. Estamos vivendo um momento difícil", lamenta.

Colocado sobre uma parede preta, na Torre Malakoff, lugar expositivo que Tereza não conhecia, mas ficou encantada. É lá que o público verá "Mulheres de Tejucupapo - Tributo a Goya", hoje, às 19, com entrada gratui.

O painel está sendo desmembrado e repintado em dez pedaços para ser comercializado. Já o original a artista ainda não sabe o destino. "Acho que deveria ir para Goiana, onde ocorreu o incidente de Tejucupapo, ou para algum museu. Não tenho interesse em vender. Não sou apegada a dinheiro, apesar de viver da minha pintura. Dinheiro é para comprar um bom vinho, um pedaço de queijo e papel higiênico", brinca Tereza.

Acerca das influências, o espanhol Francisco de Goya (1746-1828), principalmente a série de 14 quadros conhecida como "Pinturas Negras", que retratam o que se convencionou chamar de "sublime terrível" - o paradoxo do belo nas cenas de terror durante a guerra. "Eu me identifico, pois fazia parte de uma aristocracia rural decadente e escolhi viver o oposto disso".

Apesar do bom-humor e das brincadeiras, a vida de Tereza foi difícil, com a ditadura no encalço do seu eterno amor, Diógenes Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil, nos anos 1960. "Saí de uma vida burguesa para viver fugida por amor", conta. E assim morou em São Paulo, Chile, Paris... Estudou História na Universidade de São Paulo (USP) e na Sorbonne, em Paris. Conheceu o mundo inteiro, mas não por vontade própria. "Sonhava em deitar no mesmo travesseiro várias noites seguidas". Sempre com medo, se escondendo, sofrendo. "Meu marido foi muito torturado", diz, emocionada.

Quando finalmente veio a anistia, 20 anos depois, e a vontade de sentir o cheiro das frutas tropicais latejava forte no casal, Diógenes teve um ataque cardíaco fulminante no aeroporto, assim que chegou. "Minha vida artística começou ali. Não sou uma intelectual, sou uma operária do meu ofício", se define Tereza, que estudou na Escola de Belas Artes e na Oficina Guaianases, tendo sido contemporânea de nomes como Francisco Brennand, Abelardo da Hora e Reynaldo Fonseca. O preto da parede da Malakoff é base comum usada por Tereza nos pedaços de madeira que ela encontrava para pintar quando não havia dinheiro para telas. O vermelho pintava por cima. Ao raspar, surgia uma textura que a artista percebe como um de seus grandes avanços na pintura forte, feminina e sensual que concebe.

História

Em 1646, os holandeses ainda estavam por aqui mas já quase derrotados, cercados, sem alimentos ou provisões. Foi quando tentaram ocupar o vilarejo de Tejucupapo, próximo ao município de Goiana. Para o dia da investida, escolheram um domingo, quando os homens costumavam ir à capital comercializar seus produtos. Sabendo do ataque, quatro mulheres, Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Joaquina, resolveram defender o território e suas famílias. Os poucos homens que ficaram tentaram se defender com tiros. Já as mulheres colocaram as panelas de barro com água e pimenta para ferver. Por essa os olhos dos soldados não esperavam. Vai ver foi daí que saiu o ditado "Pimenta nos olhos dos outros é refresco". Graças às mulheres de Tejucupapo, foi o fim da dominação holandesa no Brasil.

Serviço
Abertura da exposição "Mulheres de Tejucupapo - Tributo a Goya", de Tereza Costa Rêgo
Quando: Esta quinta (27), às 19h
Onde: Torre Malakoff (Praça do Arsenal, Bairro do Recife)
Acesso gratuito

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