'Três anúncios para um crime' não foge do melodrama

Filme traz o drama de uma mãe em meio a uma sociedade machista, racista e provinciana

Mildred Hayes (Frances McDormand) desafia a justiça local com seus outdoorsMildred Hayes (Frances McDormand) desafia a justiça local com seus outdoors - Foto: Fox Film do Brasil/Divulgação

O Oscar adora um melodrama. Um dos fortes candidatos a arrebatar a estatueta de melhor filme este ano é "Três anúncios para um crime" (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri), do diretor Martin McDonagh. Os cineastas norte-americanos costumam se sair bem quando narram histórias passadas em pequenas cidades dos Estados Unidos, onde a vida cotidiana segue bem menos pasteurizada e mais realista do que em grandes metrópoles cosmopolitas como Nova Iorque ou Washington. Parece que é nesses pequenos fins de mundo onde podemos conhecer o povo estadunidense como ele é.

No caso do filme de Martin, passado no Missouri, carregado de preconceito racial, machismo, sexismo, provincianismo - como não seria difícil de encontrar em um município do chamado Terceiro Mundo, como o Brasil. Vale ressaltar esse comparativo apenas para reafirmar que nem tudo o que vem dos norte-americanos é sinônimo de "progresso" - nem econômico, nem social ou cultural -, como muita gente, surpreendentemente, ainda pensa.



Até certo momento, o drama é de gente durona, estilo faroeste contemporâneo e feminino: uma mãe, Mildred Hayes (a ótima Frances McDormand) decide colocar em três outdoors com letras garrafais pretas sobre fundo vermelho um aviso ao xerife da cidade que, sete meses depois, ainda não encontrou nenhuma pista do brutal assassinato de sua filha. Ela foi estuprada enquanto morria carbonizada.

A ousadia de Mildred, uma simples, porém brava vendedora de souvenires, desperta a ira dos policiais assumidamente racistas e torturadores de negros. "Negros não, pessoas de cor", costumava dizer um dos truculentos policiais da delegacia local, principalmente Jason Dixon (Sam Rockwell), em um eufemismo típico do século retrasado e provavelmente ainda utilizado nos rincões do sul dos Estados Unidos.

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Uma mulher sozinha, separada do marido violento, o ex-policial Charlie (John Hawkes), agora casado com uma jovem de 19 anos e obviamente com um QI não muito avantajado é um clichê daqueles, mas rende umas risadas. Bons momentos para quando ela enfrenta um padre que a critica por enfrentar o xerife chamando-o de líder de gangue, e fura com broca o dedo de um dentista que lhe quer arrancar um dente à força em represália aos seus acintosos outdoors garantem ao filme até um quê de humor.

A coisa começa a ficar melodramática quando o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson) comete um ato trágico e mostra seu "outro lado". Eis que se inicia a sessão de lágrimas e colocação de panos quentes na polícia "malvada" e incompetente, que não consegue descobrir nada a respeito do assassinato da adolescente. Como em um passe de mágica, todos se redimem, ficam amigos e em busca dos mesmos objetivos. Ainda que com armas em punho, debaixo de socos e pontapés e sede de vingança, há algo de Poliana no ar.

Cotação: regular

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