Viúva de Naná se diz triste com possibilidade de Maracatu não abrir Carnaval

"Não definiram nada. Nem que sim, nem que não. Mas só a dúvida é uma desconstrução do que Naná construiu. Eu fico triste com isso", disse Patrícia Vasconcelos

O percussionista Naná Vasconcelos foi premiado dentre e fora do Brasil diversas vezes por seu trabalhoO percussionista Naná Vasconcelos foi premiado dentre e fora do Brasil diversas vezes por seu trabalho - Foto: Bruno Campos/Arquivo Folha

Atenta a tudo que toca o trabalho do marido, Patrícia Vasconcelos procurou a Folha de Pernambuco para se posicionar contra mudanças relacionadas aos Concursos de Carnaval de 2018. A retirada do encontro de maracatus da abertura oficial do Carnaval do Recife está na pauta das mudanças propostas pela Secretaria de Cultura do Recife para este ano. A viúva do percussionista Naná Vasconcelos se disse triste e temerosa de que a tradição promovida pelo marido fosse "desconstruída". Além de conceder entrevista, Patrícia enviou uma carta em que clama pela continuidade e frutificação do Maracatu no Carnaval da cidade. 

ENTREVISTA // Patrícia Vasconcelos

Patrícia, há diversas versões dessa história. O que chegou a você até o momento?
Não definiram nada. Nem que sim, nem que não. Mas só a dúvida é uma desconstrução do que Naná construiu. Eu fico triste com isso. Resolvi expressar meu sentimento, porque era assim que Naná conquistou o seu espaço e levou os meninos consigo. Eles chegam para mim aperreados, com medo de perderem esse local. Já é um trabalho tão sofrido... A abertura do Carnaval é uma noite especial, repercute no mundo todo. Precisa haver um dia específico para as pessoas se programarem.

E com relação aos concursos de Carnaval, o que você acha sobre ser feito uma semana antes?
Não cabe na minha cabeça mudar isso de lugar, ou mudar de data. É uma desconstrução sem necessidade. Porque essas apresentações chamam a atenção de todo mundo, o turista vai atrás. Esses movimentos são sofridos e esperam o ano todo por isso, esse momento que chama a atenção do mundo. É uma questão de visibilidade. Tem que estar no meio do calendário e não atrás. 

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Confira na íntegra a carta enviada com exclusividade para a Folha de Pernambuco:

PELA PERMANÊNCIA DOS MARACATUS NA ABERTURA DO CARNAVAL DO RECIFE

Naná Vasconcelos com toda Maestria conduziu por 15 anos a abertura do Carnaval do Recife, com 15 diferentes nações de Maracatus oriundas de diversas comunidades da Região Metropolitana do Recife. Esse movimento foi para ele também um momento de celebração das diferenças e exaltação das similaridades, tendo em vista que ele trabalhou além da música, os valores culturais. Trazendo experiências novas para essas nações, o social, se entregando de Corpo e Alma, e nessa entrega surgiram várias descobertas para ambos os lados.

Um ano após a partida do meu marido amado, no carnaval de 2017 trabalhei junto com os Mestres das referidas nações, com o grupo Voz Nagô e Paz Brandão na concepção de uma linda homenagem à Naná durante a abertura do carnaval, que serviu de cenário para essa celebração cultural, concebida pelo mesmo durante 15 anos consecutivos. Anos de lutas, de sorrisos e de lágrimas. Lágrimas de emoção e de tristeza por cada não recebido na tentativa de dar continuidade ao movimento. Mas a cada não serviu de motivação para a abertura desses caminhos.

Parabéns, Naná. Você conseguiu! 

Conseguiu deixar uma célula do seu trabalho com muita dignidade e bravura.

Bravo, bravo, bravo, Naná! 

Agora eu, Patrícia Vasconcelos, uma simples mortal no meu luto, luto para que esse movimento e espetáculo das Nações CONTINUE e FRUTIFIQUE, porque Naná viu mais do que a música, Naná viu o outro. O outro que forma as nossas comunidades, o outro que chega do trabalho correndo com sua Alfaia, Abê, Ganzá, etc. para se preparar e mostrar ao mundo a sua dignidade, e sua dignidade vem através da música.

Viva aos Maracatus! Viva Voz Nagô! Viva Naná! E NÃO à desconstrução nesse movimento.

Patrícia Vasconcelos
07 de novembro de 2017

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