Brasil tem 7 milhões de informais no grupo de risco da Covid-19

O número foi estimado pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde)

Comércio informal na avenida Conde da Boa VistaComércio informal na avenida Conde da Boa Vista - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Sete milhões de brasileiros eram parte de um grupo duplamente vulnerável à crise do coronavírus, sob a ótica da realidade brasileira em 2013 (último ano para o qual há dados disponíveis). Do lado econômico, trabalhavam como autônomos; no âmbito da saúde, tinham doenças crônicas, que aumentam os riscos em caso de infecção.

O número foi estimado pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), que tem entre seus fundadores o economista e ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga. "Os resultados mostram que essa sobreposição existe e é grande. Sete milhões de pessoas é mais do que a população atual da Dinamarca [5,8 milhões]", diz o economista Rudi Rocha, diretor do IEPS.

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O universo representa 4% da população economicamente ativa brasileira (com idade igual ou superior a 18 anos). O estudo se baseou em dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE e tem ainda, como coautores, Beatriz Rache, Letícia Nunes e Miguel Lago.

Rocha ressalta que, embora não sejam recentes, os dados oferecem um retrato que deve ter permanecido condizente com a realidade brasileira. Nos últimos anos, na esteira da recessão, seguida de lenta recuperação, o número de brasileiros atuando na informalidade aumentou bastante.

Mais da metade dos 7 milhões de autônomos portadores de doenças crônicas possuíam só o ensino fundamental e seu rendimento mensal com o trabalho (em valores atualizados de 2019) era de R$ 1.713. As enfermidades consideradas na análise foram hipertensão, diabetes, insuficiência renal e doenças no pulmão. "Não há dúvida que essa é uma parcela da população muito vulnerável à crise atual.

"São pessoas que precisam sair para trabalhar, embora tenham a saúde frágil", diz.
Uma evidência disso é que 14% relataram ter precisado se afastar temporariamente do trabalho em um período anterior próximo à pesquisa; 53% disseram considerar sua saúde regular ou ruim.

A vulnerabilidade socioeconômica do grupo ainda é reforçada pelo fato de que apenas 22% possuíam plano de saúde. A grande sobreposição entre vulnerabilidade em saúde e no mercado de trabalho demanda, segundo especialistas, que o governo tome medidas voltadas especificamente para proteger esse grupo na crise. Evidências mostram que a Covid-19 é muito mais letal entre idosos e portadores de doenças crônicas.

O estudo do IEPS indica que o número de idosos entre os conta própria também é elevado: em 2013, representava 2% da população economicamente ativa (cerca de 3,5 milhões de brasileiros). Embora o governo tenha falado sobre a necessidade de proteger esses grupos, especialistas sentem falta de medidas efetivas nessa direção. "A largada no anúncio de medidas só contemplava o setor formal", diz Rocha.

"A equipe econômica tem nos dito, em conversas, que virão medidas. Estamos esperando", afirma Tony Volpon, economista-chefe do UBS. "Para muitos desses trabalhadores informais e pequenas empresas, daqui a um mês será tarde demais". Volpon afirma que a magnitude da crise requer, além de rapidez, criatividade e planejamento. Uma dificuldade que o governo enfrentará será o mapeamento dos informais; só parte deles está nos cadastros de beneficiários de programas sociais.

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