Consumir sem destruir o meio ambiente

Série da Folha de Pernambuco aborda quais maneiras mais conscientes de consumir e produzir sem afetar tanto o meio ambiente

Há 14 anos, artista plástico André Menezes retira do lixo sua matéria-prima de trabalhoHá 14 anos, artista plástico André Menezes retira do lixo sua matéria-prima de trabalho - Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

A humanidade já consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da terra, segundo estudo do Ministério do Meio Ambiente. Se esse padrão se mantiver, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas Terra para atender as necessidades de água, energia e alimentos da população.

Para evitar o colapso é essencial pensar em formas de consumo mais conscientes. É com essa proposta que a Folha de Pernambuco inicia, neste fim de semana, uma série de reportagens sobre o consumo consciente em três frentes. Nesta primeira, vamos imergir no universo da moda e decoração.

No próximo fim de semana, nosso foco será um dos mercados que mais crescem no País, o de cosméticos. Por último, trataremos do segmento da alimentação. A ideia é mostrar os desafios para conseguir um ponto de equilíbrio entre os recursos disponíveis e seu uso de forma racional. Afinal, consumir de forma consciente é uma questão de hábito. Pequenas mudanças em nosso dia a dia têm grande impacto no futuro.

Construir de hábitos consumo consciente em uma sociedade extremamente consumista não é tarefa fácil. Segundo a pesquisa “Panorama do Consumo Consciente no Brasil: desafios, barreiras e motivações”, realizada ano passado pela Akatu, apenas 24% dos brasileiros revelam ter hábitos conscientes de consumo. “Falar de consciência em uma sociedade voltada para ostentação de coisas supérfluas é muito complicado. Somos bombardeados 24 horas por dia para consumir e já estamos habituados a fazer a coisa errada”, diz o mestre em consumo, Tiago Monteiro. Segundo ele, para a construção de qualquer novo hábito é necessário uma atmosfera favorável à mudança. “Se você quer fazer uma dieta, precisa ter o hábito de ir à academia. Se quer começar a poupar, precisa deixar de gastar com outras coisas, como restaurantes e roupas sem necessidade. A construção de um novo hábito não á fácil, pois é preciso deixar outros antigos. Isso é que torna tudo mais complicado. Porque a gente já esta habituado a fazer a coisa errada há muito tempo.”

Em sua pesquisa, a Akatu revelou que, mesmo diante de um percentual grande, de 76% de brasileiros que não aderem ao consumo consciente, mudanças sutis demonstram um passo importante em prol dessa construção de hábitos. Por isso, dividiu esses comportamentos em três frentes: iniciantes, engajados e conscientes. No primeiro perfil, o fator economia (bolso) pesa na escolha. Evitar deixar a lâmpada acessa à toa, por exemplo, é uma ação feita mesmo para os que são indiferentes ou estão iniciando um consumo mais consciente. Já os “engajados” estão no estágio do planejamento, uma vez que suas práticas sustentáveis incluem o planejamento de compra de roupas e de alimentos. Os conscientes, por sua vez, têm comportamentos mais ativos, que vão além da casa, incluindo até mesmo votar em um político que defende temas sociais ou ambientais.

A preocupação com a cadeia ética

Embora ainda muito embrionário no Brasil, o consumo consciente já faz parte da vida de muita gente, em especial na hora de escolher o que vestir. Tem quem não compre uma só peça de roupa sem antes saber se na sua cadeia de produção houve exploração de trabalho infantil ou escravo.
   Marca pernambucana, Viva Yemanjah! recebeu selo internacional que atesta que em todo seu processo de produção não houve exploração de mão de obra infantil

Marca pernambucana, Viva Yemanjah! recebeu selo internacional que atesta que em todo seu processo de produção não houve exploração de mão de obra infantil
 Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Há os que só escolhem usar tecidos que não agridam o meio ambiente, seja essa postura tanto do ponto de vista de quem consome quanto de quem produz. No Estado, a marca pernambucana Viva Yemanjah! foi uma das dez do Brasil selecionadas pela Fair Trade Organization e Abrinq Foundation para receber o Fair Buttom. “Trata-se de um botão azul que atesta a procedência das suas roupas. Ele indica que, em todo o processo, não houve mão de obra infantil”, explica a estudante de designer de moda Cláudia Renda, que junto com a sócia, Beatriz Beltrão, comandam a marca há dois anos.

A empresa já nasceu com a proposta de ser a mais sustentável possível. Além do compromisso de não usar mão de obra infantil na produção, as jovens procuram utilizar apenas tecidos que causam o menor impacto possível ao meio ambiente. Fibras sintéticas, como o poliéster, muito utilizado na indústria da moda em grande escala (fashion fast), é descartado do processo. “Damos preferência a viscose a ao linho, por uma redução de dano maior”, revela Cláudia. Ainda segundo ela, o consumo consciente também envolve outros detalhes, como a semente de manjericão que segue na etiqueta da roupa e que pode ser plantada.

A maior preocupação é com a não utilização do plástico, substituído por tecido reutilizado da indústria têxtil. “Procuramos formatar uma cadeia ética de produção, por isso, também disponibilizamos os retalhos que sobram da produção para o Ária Social, que faz projetos com mães de alunos”, revela a jovem. Se para quem desenvolve o trabalho dentro do conceito sustentável é gratificante, para quem consome, conseguir empresas que se adequem a essa filosofia é ainda melhor.

Elayne Cavalcanti só consome produtos de empresa que produz de forma consciente

Elayne Cavalcanti só consome produtos de empresa que produz de forma consciente - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

É o caso da também designer de moda, Elayne Cavalcanti, 27 anos. Ela não compra uma só peça de roupa sem antes pesquisar se a empresa tem histórico de utilizar mão de obra exploratória na produção. Ela se informa de todo o processo de confecção, da produção ao descarte das sobras, além de se preocupar se as pessoas que produzem trabalham felizes para a marca. “Sou uma cliente exigente com a proposta da empresa e, se identificar uma, fidelizo e consumo sempre”, afirma Elayne Cavalcanti.

Ela acredita que, apesar de poucas empresas se enquadrarem nesse seu perfil de consumo, os fabricantes estão começando a entender o conceito desse novo cliente. “As pessoas têm se identificado muito mais com essa humanização.” Para o presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções de Pernambuco (NTCPE), Fredi Maia, essa preocupação com o DNA da marca já está na pauta das principais produções no País. “Há algum tempo, e cada vez mais, vem crescendo esse movimento de clientes que dão mais valor ao produto que consomem, não apenas à estética, ao design”, afirma Maia.

Para quem não desgruda do celular, existe um aplicativo perfeito para uma relação mais consciente com o que veste. É o Roupa Livre. Ele conecta iniciativas e pessoas que buscam essa relação. O app foi criado por Mariana Pellicari, Gabriela Mazepa e Elisa Dantas, que se juntaram há três anos para combinar suas forças e criar um movimento aberto aos que querem experimentar um novo olhar através de eventos, livros digitais, mapeamento de iniciativas, produção de conteúdos e muita mão na massa.

O aplicativo é baseado na seguinte proposta: a gente não precisa de roupas novas, a gente precisa de um novo olhar. As fundadoras dizem que já existem roupas prontas para várias gerações no mundo. “Para fazer uma calça jeans, são gastos dez mil litros de água. Diariamente toneladas de sobras de tecidos são jogadas fora. E muitas pessoas são exploradas no processo de produção desenfreada de roupas. Isso não quer dizer que é preciso deixar de se sentir bem e confortável com o que vestimos. Dá pra ter estilo próprio sem prejudicar as pessoas e o planeta, e criar uma nova relação com seu guarda-roupa”, afirma manifesto do app.

Na decoração, ser sustentável também conta

Os anos de crise que o Brasil tem passado fez com que muitos consumidores pensassem duas vezes na hora de comprar qualquer item supérfluo. Nesse cenário, mesmo que motivado pela escassez de dinheiro, nunca os três conceitos da sustentabilidade - reciclar, reutilizar e reduzir - foi tão difundido, em especial, no universo da decoração.  A empresária

Pollyana Apolônio sabe bem disso. Em dez anos, ela viu a sua gráfica conseguir um incremento de cerca de 70% com o aumento da procura pela adesivação, também conhecida como envelopamento.

É que a técnica é ideal para dar uma nova roupagem a móveis ou eletrodomésticos, como geladeiras, por exemplo, que estão funcionando bem, mas desgastadas pelo tempo, que as deixam com uma aparência não mais apresentável. “As pessoas estão evitando comprar, por isso, investem nesse tipo de serviço”, comenta Pollyana, que junto com o sócio, Jadeildo Apolônio, comanda a Triad Visual. Para Pollyana, o investimento em técnicas que promovam um consumo mais sustentável é uma grande aposta da empresa, que só trabalha com produtos ecológicos em suas impressões.

Os empresários têm explorado também os adesivos de parede, através de tecnologia sustentável, sem o uso de cola, reduzindo custo e tempo.

 

Pollyana Apolônio inova no mercado gráfico com adesivo de parede ecológico

Pollyana Apolônio inova no mercado gráfico com adesivo de parede ecológico - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Para quem desde os 14 anos trabalha produzindo artigos de decoração a partir de matéria-prima encontrada no lixo, o artista plástico André Menezes acredita que, apesar de as pessoas estarem consumindo de forma mais consciente, ainda existe muito preconceito com relação aos produtos oriundos da reciclagem. “Acredito que 45% das pessoas compram minhas peças por conta do consumo consciente. No entanto, existem muitas barreiras ainda quando se escolhe trabalhar com o lixo, mesmo que ele seja transformado em peças de decoração”, revela o artista.

Ele acredita, contudo, que o caminho para a consciência plena está cada dia mais perto. “Antes, as pessoas consumiam pelo modismo do ecologicamente correto. Hoje não, por mais que ainda não seja a maioria, elas estão de fato mais conscientes, pesquisando e se informando antes de comprar”, afirma Menezes.

Como reduzir danos

Como reduzir danos - Crédito: Arte/Folha de Pernambuco

 

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