Crise elevou em 33% a pobreza no Brasil

Nos últimos três anos, 6,27 milhões de pessoas entraram na linha de pobreza. Já são 23,3 milhões de pessoas com menos de R$ 233/mês no Brasil

Pobreza no Centro do RecifePobreza no Centro do Recife - Foto: Ed Machado / Folha de Pernambuco

O pernambucano Marcos Sousa viu sua renda mensal cair de R$ 1.063 para míseros R$ 41 nos últimos três anos. Tudo porque perdeu o emprego de pedreiro, o auxílio-doença que ganhava pela osteoporose que não o deixa mais trabalhar e até um pedaço do Bolsa Família do filho de três anos. Por isso, hoje, aos 39 anos, nem com o filho convive direito. Como nem sempre tem dinheiro e comida no barraco em que vive no Centro do Recife, às vezes pede para a irmã cuidar do menino. E ele não é o único que tem sobrevivido graças à ajuda de familiares e amigos. Afinal, desde que a crise econômica desencadeou uma alta do desemprego, a pobreza cresceu 33% no Brasil, fazendo com que 6,27 milhões de pessoas passassem a viver a baixo da linha da pobreza, com menos de R$ 233 por mês.

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A constatação é do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social), que, com base na Pnad, percebeu que o número de pobres já chega a 23,3 milhões no País. O número é maior que a população do Chile e reflete a deterioração da renda do brasileiro. “Este é o resultado da combinação de crise econômica e restrição fiscal. A crise provocou uma alta da inflação e depois uma alta do desemprego. E os pobres perderam mais com isso. Em 2015, por exemplo, a renda média do brasileiro teve uma queda de 7%. Mas a renda dos mais pobres caiu o dobro, 14%. Por isso, só naquele ano, a pobreza cresceu 19,3%”, revelou o pesquisador da FGV Social, Marcelo Neri, dizendo que, naquele ano, a inflação alta explicou 70% da queda da renda dos brasileiros.

Quando o indicador cedeu, foi o desemprego que assumiu a responsabilidade da alta da desigualdade de renda. Por isso, algumas regiões passaram a ser mais afetadas pelo problema. Prova disso é que, entre 2015 e 2018, a renda média do brasileiro caiu 3,44%. No Nordeste, contudo, essa redução foi de -6,43%. E, em Pernambuco, -9,5%. No Grande Recife, onde o desemprego foi fortemente impactado pela desmobilização das obra de Suape, o recuo foi ainda maior: -15,49%. E, na periferia da região, o número alcançou -23,1%, segundo a FGV Social.

Liliane Oliveira, 25, sabe bem disso. Apesar dos vários cursos profissionalizantes que já fez, ela não encontra trabalho há quatro anos. A sua vizinha, Ana Carolina Vasconcelas, 31, passa pelo mesmo problema. Por isso, hoje, se vira apenas com o Bolsa Família das filhas. “Mas o dinheiro não dá para o mês todo. Eu mesmo, só recebo R$ 41”, lembrou Marcos.

“O cuidado da sociedade brasileira com os mais pobres realmente diminuiu. E, apesar das restrições fiscais, isso foi uma escolha dos governos”, criticou o pesquisador da FGV Social, dizendo que investir em programas sociais poderia auxiliar na recuperação econômica do País. “A pobreza e a desigualdade retardam a retomada, porque tiram mais demanda da economia - o consumo dos pobres. Programas como o Bolsa Família, porém, ajudam a economia a girar. Calcula-se que cada R$ 1 real investido nisso pode aumentar em R$ 1,78 o PIB do País”, revelou Neri, dizendo que, se essa situação não mudar até o fim do ano, o País pode atingir novamente seu recorde de desigualdade de renda. Desde a derrocada do Plano Cruzado, em 1989, não se tem três anos consecutivos de alta na desigualdade de renda, como pode acontecer neste ano.

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