Entraves rodoviários atrasam a atividade econômica

Série de reportagens mostra os entraves e seus impactos nos negócios

Estradas atrasam desenvolvimentoEstradas atrasam desenvolvimento - Foto: Alfeu Tavares

A questão é geográfica. Pernambuco tem perfil estratégico para logística, como rota natural de distribuição para o Nordeste. Não à toa, fincar bases no Estado se tornou prioridade para operações que miram nesse público. Elas ganham com a eficiência do Porto de Suape e do Aeroporto do Recife, mas perdem, por outro lado, pela falta de infraestrutura das estradas. Nos gargalos que drenam a economia, as BRs 101, 232 e 408 merecem observação atenta, por conectarem a RMR aos polos no Interior e a outros estados. Nesta série de reportagens, vamos abordar como entraves rodoviários atrasam a atividade econômica. Neste domingo, mostramos os entraves e seus impactos nos negócios. Na próxima segunda-feira, falamos de projetos viários que ficaram no meio do caminho e ouvimos as justificativas do poder público e, na terça-feira, de experiências que podem apontar para soluções. Os textos são de Mariama Correia e Raquel Freitas.

Quase 60% das rodovias de Pernambuco foram classificadas como regulares, ruins ou péssimas pela Confederação Nacional do Transporte -CNT, em seu levantamento mais recente, no ano passado. Essa situação encarece em aproximadamente 20% o custo das operações de transporte no Estado. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa relação entre gargalos viários e perdas econômicas é a BR-101, que atravessa o estado da divisa com a Paraíba (Norte) até Alagoas (Sul), em 213,9 quilômetros (Km) de extensão. Um dos trechos mais críticos é o chamado ‘contorno do Recife’, no perímetro urbano.

“É nesse pedaço da rodovia, do município de Paulista até Jaboatão dos Guararapes, onde ocorre metade dos acidentes associados à BR-101 em Pernambuco, muito embora esse trecho em si represente apenas 14% da extensão total”, observa o especialista em logística e professor do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Maurício Pina. Ele explica que o movimento de cargas nessa rodovia é muito intenso.

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"Somente da Avenida Caxangá até a Ceasa são 62 mil veículos dia, muitos deles caminhões pesados, mercadorias vindas do Sul, Sudeste e Nordeste do País”, aponta. “O problema é que, atualmente, a situação é crítica por falta de investimentos em recuperação e manutenção. Isso atrasa as operações das empresas, danifica carros e faz a economia perder tempo”. Realmente, não é preciso muito esforço para avistar problemas na BR-101. A cada quilômetro, os prejuízos ficam evidentes. “A mercadoria soltou quando passei no buraco. Precisei parar”, conta o caminhoneiro Allan Kardec, estacionado às margens do km 80,5. Logo ao lado, no restaurante “A Moenda”, nove funcionários foram demitidos em razão dos transtornos viários. “O faturamento caiu 60%, pois os buracos aumentaram no inverno e os carros não conseguiam chegar ao restaurante. Todos os anos o governo faz um paliativo, mas tudo se dissolve na chuva”, reclama um dos administradores, Edson Aragão.

George Santos, gerente de transporte da empresa de logística Localfrio, diz que os gargalos rodoviários, sobretudo na BR-101, aumentam em 23% os custos com combustível e manutenção, além de elevar em 7% o valor do frete, que é absorvido pela empresa. Embora distribua mercadorias para vários estados do País, Pernambuco é, para ele, a situação mais crítica. "Temos caminhões grandes que transportam cargas indivisíveis, como pás eólicas de Suape para outros estados. São cargas extremamente sensíveis e caras, então, diante do estado das rodovias daqui, trajetos que demorariam uma hora são feitos em três, pois é preciso reduzir a velocidade."

"A perda para economia é imensurável porque onera toda a cadeia logística, o que termina chegando ao custo final dos produtos, além de impactar na produtividade das empresas, por atrapalhar a chegada dos funcionários", considera o coordenador do curso de logística da Faculdade Guararapes, Edson Torres. No caminho para o trabalho, na fábrica da Jeep, em Goiana, o mecânico Josebar Batista teve um dos pneus do carro rasgado ao ultrapassar um buraco, no km 52 do sentido Norte da BR-101. “É um prejuízo de uns R$ 400”, avalia.




Rodovia de acesso da capital ao Interior, a 232 é o caminho diário de profissionais das fábricas instaladas em cidades como Vitória de Santo Antão, entre outras. A pista, contudo, é duplicada só até São Caetano. E, mesmo no trecho duplicado, buracos e a má sinalização causam transtornos. "Quebrei uma peça do caminhão num buraco. Vai descontar 20% do meu salário", diz o caminhoneiro Gustavo de Oliveira.

O motorista do ônibus Genilson Nascimento reclama da falta de policiamento, sobretudo depois do trecho duplicado. “Quase fui assaltado na BR-232, entre São Caetano e Bezerros”, diz. Gabriela da Silva, comerciante em Jaboatão, vai à Caruaru a cada 15 dias, de ônibus, para comprar confecções. “A gente tem medo do trânsito e da violência”, comenta. Dono de posto de combustíveis em São Caetano, Rogério Cavalcanti lamenta que a duplicação do restante da BR-232 ainda não tenha saído do papel. “O trajeto fora da pista duplicada é perigosíssimo e isso prejudica os negócios. Já a duplicação da parte de Caruaru a São Caetano, por outro lado, facilitou o desenvolvimento. Meu posto foi beneficiado”, conclui.

Objeto de duplicação recente, investimentos na BR-408 levaram desenvolvimento até Carpina. A obra custou R$ 115,4 milhões, em recursos federais e estaduais. Ela ficou pronta para facilitar o acesso à Arena de Pernambuco, que sediou a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, e trouxe outros benefícios. “Muitos estudantes e trabalhadores trafegam pela 408, que tem acesso bom por ter sido duplicada”, fala Maurício Pina.

Embora as condições na pista sejam mais favoráveis, trabalhadores e estudantes sofrem nos acessos. “Não há acostamento, nem sinalização”, critica Sandra de Souza, que trabalha em Carpina e mora em Camaragibe. O trajeto de Sandra para o trabalho seria facilitado se o Ramal da Copa tivesse sido concluído, mas ainda não saiu do papel.

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