O futuro que queremos, a cidade de que precisamos

Campus de Pensadores Urbanos e REC'n'Play inauguram ciclo virtuoso de eventos de inovação e cidadania no Recife

Oda Scatolini apresenta o AeTrappOda Scatolini apresenta o AeTrapp - Foto: João de Oliveira / Inciti

Nem só de frevo, suor e cerveja vivem os recifenses. Durante os últimos quatro dias, quem circulou pelo Bairro do Recife entrou em lua de mel com a nossa cidade. Foi como se a desesperança de resolvermos os problemas da violência, da precariedade dos serviços públicos e da falência do sistema político dessem lugar à disrupção criativa, à inovação inclusiva, à arte solidária. Compartilho, a seguir, alguns registros e impressões que tive das atividades de que participei.

Marés crescentes: aquecimento global e cidades inundadas
No painel, as mudanças climáticas e o aquecimento global estiveram no centro do debate. No vídeo abaixo, Francis Lacerda, meteorologista do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) alerta para o fato de Recife ser um hotspot do clima e das necessárias políticas públicas para proteger milhares de cidadãos.


Desse mesmo painel, participou o arquiteto italiano Arturo Vittori, cofundador da ONG Warka Water e idealizador da Torre Warka, que capta umidade do ar e a armazena como água potável, produzindo até 100 litros de por dia. O equipamento é feito de bambu e pode ser construído em até quatro dias, a um custo de 550 dólares. Embora não o tenhamos entrevistado, você pode conferir abaixo a apresentação de Arturo no TEDxFHKufstein, realizado na Áustria em 2016.

 

No limite: Água e Desenvolvimento Econômico
Paralelamente ao debate sobre a “cidade submersa”, num outro painel era debatida a “cidade seca”. Um dos convidados era o empresário Edilson Tavares, da Lavanderia Mamute, em Toritama, que inovou ao implantar uma estação de tratamento para reuso de água no seu negócio e hoje, como prefeito da cidade, procura levar sua experiência para todo o polo de confecções.

 

Aetrapp - Monitoramento Cidadão de Mosquitos Aedes
Ainda no dia 29, foi realizada uma oficina de apresentação do Aetrapp, um aplicativo colaborativo para monitoramento comunitário de mosquitos Aedes, transmissores de dengue, chikungunya e zika. Confira o vídeo em que Oda Scatolini, idealizador do app, e Marcelo Oliveira, explicam como funciona o aplicativo.


O AeTrapp foi um dos 10 projetos selecionados para o Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã - LabicBr, promovido pela Secretaria Geral da Iberoamérica e Ministério da Cultura do Brasil, em 2015; e, nesse mesmo ano, recebeu o Prêmio Inovapps, do Ministério das Comunicações. Em 2016, foi um dos dez vencedores do Desafio de Impacto Social Google Brasil e recebeu apoio da Fundação Oak.

Permacultura e Enzimas orgânicas: como ajudar a cuidar das águas da minha cidade
Na sexta-feira (30), tive o privilégio de fazer parte de uma das oficinas da programação, a convite de Mikhail Veklenko, jovem urbanista russo e diretor da Urban Factory que veio ao Recife para compartilhar sua experiência na despoluição de águas de rios, lagos e esgotos por meio da utilização de enzimas produzidas a partir de lixo orgânico de doméstico. A solução é disruptiva não apenas pelo baixo custo, mas também por sua escalabilidade. Imagine, no caso de Pernambuco, que algumas centenas de cidadãos-voluntários recebam capacitação para produzir enzimas em suas comunidades, em diferentes longitudes do território estadual, e a introduzi-las no Rio Capibaribe. Qual não seria o resultado?

Ainda na oficina, Clemente Coelho, professor do Instituto de Ciências Biológicas da UPE, fez uma apresentação sobre o trabalho que o Instituto Bioma Brasil realiza pelo Parque dos Manguezais e sobre os serviços ecossistêmicos que o parque presta ao Recife. 

Parque dos Manguezais

Parque dos Manguezais - Crédito: Google Maps


Isabelle Santos, chefe de divisão de Permacultura da Secretaria de Infraestrutura e Habitação do Recife, apresentou a iniciativa de implantação de minhocários domésticos e comunitários, integrante do projeto Mais Vida nos Morros. E, por fim, Renato Lins, aluno do mestrado profissional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos, da UFPE, apresentou as diretrizes do “Design Urbano Sensível à Água” (tradução literal de Water-sensitive urban design - WSUD), abordagem de planejamento urbano em que as cidades são pensadas como bacias hidrográficas.  

Minhocário comunitário

Minhocário comunitário - Crédito: Divulgação 

O REC’n’Play e o UTC tiveram a mesma duração que o Carnaval, mas, ao contrário do que acontece na folia de Momo, não foram apenas um sonho que durou quatro dias. Todos os que por lá passaram saíram com as energias renovadas, mais conscientes e informados, mais prontos para transformar o presente e construir o futuro que queremos, o verdadeiro novo Recife, a cidade de que precisamos.

* Renato Raposo escreve semanalmente para o Portal FolhaPE. Ele é consultor de comunicação, atua com foco em transparência e responsabilidade social corporativa e é empreendedor cívico na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas. 

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