Vendas no comércio caem 2,5% e têm pior março desde 2003

Entre os oito setores pesquisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas supermercados e produtos de higiene e limpeza se salvaram

Comércio do RecifeComércio do Recife - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

As vendas do comércio brasileiro caíram 2,5% em março, já com efeitos da pandemia do novo coronavírus. Foi o pior desempenho desde março de 2003. Entre os oito setores pesquisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas supermercados e produtos de higiene e limpeza se salvaram.

É o quarto indicador dos efeitos das primeiras semanas de isolamento social sobre a economia brasileira. A OMS (Organização Mundial de Saúde) decretou pandemia no dia 11 de março. Nas semanas seguintes, estados e municípios começaram a impor restrições à circulação de pessoas.

O setor de serviços, responsável por 60% do PIB (Produto Interno Bruto), teve queda recorde no mês, de 6,9%. Já a produção industrial, afetada pela queda nas vendas, caiu 9,1%, pior resultado desde a greve dos caminhoneiros de 2018. Com isso, a taxa de desemprego avançou para 12,2% no trimestre encerrado em março, com 1,2 milhão de pessoas a mais na fila por uma vaga. No comércio, por exemplo, o fechamento de vagas foi o maior da série histórica, iniciada em 2012.

Considerando o segmento de Veículos, partes e peças e materiais de construção, o chamado varejo ampliado recuou 13,7% no mês passado, a queda mais intensa desde o início da série histórica do IBGE, em fevereiro de 2003. "Março foi bastante impactado pela estratégia de isolamento social adotada em algumas das cidades mais importantes e populosas a partir da segunda quinzena do mês" , diz o gerente da pesquisa, Cristiano Santos.

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Entre as empresas que fizeram comentários sobre causas do desempenho, 43,7% disseram que suas receitas foram afetadas pela pandemia. Esse grupo teve queda de 23% nas vendas no mês, segundo o IBGE. Na comparação com março de 2019, disse o instituto, o recuo nas vendas do varejo brasileiro foi de 1,2%. Em 2020, porém, ainda acumula alta de 1,6%. Em 12 meses, o aumento é de 2,1%.

Santos destacou que a amplitude da variação foi grande em todas as oito atividades, tanto nas que recuaram quanto nas que subiram. "Isso demonstra claramente que a questão da pandemia e do isolamento social teve reflexo muito grande no mês de março." Atividades que tiveram lojas físicas fechadas registraram grandes recuos, algumas delas com variação recorde. É o caso de Tecidos, vestuário e calçados (-42,2%), Livros, jornais, revistas e papelaria (-36,1%), Móveis e eletrodomésticos (-25,9%) Combustíveis e lubrificantes (-12,5%).

Já aquelas consideradas essenciais se destacaram positivamente. As vendas do segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo subiram 14,6% e as de Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos, 1,3%. O setor de perfumaria, sabão e limpeza foi um dos únicos que se salvaram do colapso na produção industrial de março, com alta de 0,7% em relação ao mês anterior. Naquele mês, a indústria teve o recuo mais disseminado da série histórica, com queda em 23 dos 26 ramos pesquisados.

Os resultados de março foram impactados negativamente apenas no final do mês, quando foram iniciadas as restrições ao funcionamento de comércio e serviços. A expectativa é que em abril, com a maior parte dos estados já em isolamento durante todo o mês, os efeitos sejam ainda maiores. Na indústria, por exemplo, o nível de ociosidade atingiu um recorde no mês passado, registrando a queda mais rápida de série histórica pesquisada pelo Ibre/FGV.

"É muito incerto. Não se deve fazer agora inferência sobre abril e maio", ponderou Santos. "Pode haver outros fenômenos envolvidos. Pode haver, por exemplo, aprendizado de outras atividades a vender por delivery." Na sexta (8), economistas ouvidos pelo Banco Central para a produção do boletim Focus reviram suas projeções para a retração do PIB de 2020, de 3,76% para 4,11%. O governo deve rever também a sua expectativa, para queda entre 4% e 5%.

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