De olho em copa, refugiados no Recife precisam de chuteiras

Time formado por venezuelanos depende de ajuda para treinar e participar de torneio que ocorrerá na Arena de Pernambuco

David Ramos, Johan Flores e Jose Ignacio vão representar a Venezuela na Copa dos Refugiados e ImigrantesDavid Ramos, Johan Flores e Jose Ignacio vão representar a Venezuela na Copa dos Refugiados e Imigrantes - Foto: Caio Danyalgil/Folha de Pernambuco

O número de venezuelanos que fogem do caos instalado no país em direção ao Brasil aumenta a cada mês. Segundo levantamento do instituto Cáritas, cerca de 150 mil pessoas ingressaram em Roraima desde 2015 e se inscreveram em programas que permitem a migração para outras cidades. Recife é um dos destinos, sendo considerado o principal polo de migrantes no Nordeste. Não por acaso, a Capital pernambucana foi a única da região escolhida para sediar a Copa dos Refugiados e Imigrantes. A “Etapa Recife" ocorre nos dias 13 e 14 de setembro, na Arena de Pernambuco, e contempla Cabo Verde, Angola e Senegal. Também participante, o time da Venezuela iniciou as preparações, mas encontra dificuldades para ter treinamentos apropriados.

Chuteiras e campo são providências básicas para qualquer prática aceitável do futebol. Entretanto, a equipe formada por 12 venezuelanos não possui nenhuma dessas condições na preparação visando o torneio. As primeiras movimentações dos jogadores foram realizadas na orla de Olinda. “Vamos jogar na Arena e estamos treinando na praia. O gramado de lá nem se compara com a areia, por isso estamos em busca de um campo”, explicou David Ramos, agente da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2, através da Pana, projeto que acolhe os refugiados. Segundo ele, incluir novos membros no time é outra dificuldade. “Queríamos integrar outros venezuelanos que gostam de futebol, mas eles são apoiados por um projeto que não é nosso. A intenção é fazer um time com todos, mas ainda não conseguimos”, lamentou.

Desde 2014, a Copa dos Refugiados utiliza o esporte como um meio para promover a confraternização entre diferentes povos e combater a xenofobia. A edição deste ano apresenta como tema “Reserve um minuto para ouvir uma pessoa que deixou o seu país”. Além das inconveniências encontradas pelos venezuelanos nos preparativos para a Copa, é necessário também ter consciência das adversidades enfrentadas por alguém que saiu do próprio país na esperança de uma vida melhor.

Um dos integrantes do grupo sul-americano, Jose Ignacio, de 21 anos, inicialmente esteve abrigado em Roraima durante nove meses, junto com os pais, para concluir todas as burocracias e ser transferido. Há um mês no Recife, ele procura por emprego para poder ajudar a família, mas primeiramente tenta passar pela barreira do idioma. “Eu saio todo dia a pé atrás de trabalho por toda a cidade. Mas está muito difícil, muitas pessoas não entendem como falamos”, lamentou o jovem.

Apesar do começo complicado, Jose é muito grato pela oportunidade que obteve e não hesita ao listar elogios aos pernambucanos. “Gosto muito do Recife, do tratamento ao povo venezuelano, a educação das pessoas, da cultura, da praia, do clima”. Enquanto estava na Venezuela, praticava futsal casualmente com os amigos. Contudo, jamais jogou em um campo de futebol e prevê cansaço durante as partidas. “Tem que correr mais”, brincou.

Johan Flores, de 29 anos, também faz parte da equipe e desembarcou na Capital no mesmo período. Assim como o compatriota, passou por apertos no percurso para Roraima, mas contou com o auxílio do amigo que já havia imigrado. Ambas histórias são desconhecidas no Recife, mas na avaliação de Johan, ganham visibilidade com a Copa dos Refugiados. “Vou jogar em uma arena representando meu país. Estou muito emocionado. Vamos mostrar ao mundo que tem venezuelanos no Recife”, apontou.

O sonho de apenas disputar o torneio pode ir além. Caso o grupo seja campeão desta etapa, se junta aos vencedores das etapas de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Paraná e Rio Grande do Sul que se reúnem na Cidade Maravilhosa em busca da vaga na final. Os finalistas do torneio devem se enfrentar entre os dias 21 e 22 de setembro, tendo como palco o Maracanã, templo do futebol mundial.

Serviço
A doação de chuteiras deve ser feita no Caritas NE2, localizado na Rua Monte Castelo, 176, na Boa Vista

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