Futebol: rituais de cores, emoção e fé

Como os torcedores usam manias e superstições na crença de que o time do coração sairá vencedor

Cada torcedor tem seu jeito de apoiar o clubeCada torcedor tem seu jeito de apoiar o clube - Foto: Arte FolhaPE

Torcer: ser a favor de algo; desejo de que algo vença. Assim, de maneira simples, o dicionário explica um dos atos mais revolucionários da vida humana. É o outro lado da existência sendo mostrado em um mundo sufocado pela pressa. Ação em que a alma é colocada ao mundo, seja através de rituais ou superstições, pela crença de que o time do coração saia vencedor de uma partida. No futebol, a maior paixão do brasileiro, o ato se reverbera de forma ainda mais nítida. Em meio aos gritos de incentivo nas arquibancadas, a Folha de Pernambuco entrevistou torcedores fanáticos na tentativa de entender, na prática, essa paixão que une pessoas tão diferentes em um único objetivo: morrer de alegria dentro de um grito de gol.

Rubro-negro reina na Terra

Entre as antíteses que marcam o futebol do Sport nos últimos anos, o campeão pernambucano de 2019 coleta um acervo de figuras enigmáticas nas arquibancadas da Ilha do Retiro. Quem não se lembra de Zé do Rádio? Famoso por frequentar o estádio rubro-negro acompanhado de um rádio gigante, um dos torcedores-símbolo mais marcante do futebol pernambucano azucrinava os ouvidos dos técnicos adversários.

O legado desse icônico torcedor foi compartilhado, a sua maneira, por Jessé Ribeiro de Lemos. Com a barba colorida em vermelho, amarelo e preto, seu Jessé, morador de Carpina, lembrou, enquanto ocupava cadeiras das sociais, na partida entre Sport e Náutico, pela final do Campeonato Pernambucano 2019, como começou a paixão pelo clube leonino.

“Meus pais não torciam por time nenhum. Mas eu vi no Sport o melhor para que eu torcesse até hoje. Inicialmente, o que me chamou atenção foram as cores. E logo percebi que o Sport é o melhor do Brasil. Melhor do que a Seleção Brasileira, melhor do que tudo”, declara, emocionado, com o sorriso no rosto de quem parecia nunca ter visto uma derrota sequer do Leão.

Na final do Pernambucano, nos quatro cantos da Ilha do Retiro, os rubro-negros esperavam ansiosamente pelo apito inicial. Aos 72 anos, e com uma bagagem de mais de cinco décadas de Ilha do Retiro, Jessé era um desses. Na companhia do rádio e de um leão de pelúcia, o sócio remido do time leonino fazia perceber o motivo da tranquilidade. Naquele momento, o “radinho” se fazia presente na vida do torcedor. "O narrador e o comentarista completam o espetáculo, pela maneira de narrar”, diz.

Ao redor do estádio era comum observar torcedores com faixas de campeão, roendo as unhas, com as mãos na cabeça. Gestos que simbolizavam o nervosismo de todos os jogos. Mesmo com o placar final de 2x1 a favor do Náutico no tempo regular, a turma da fuzarca não se rendeu. Em comunhão, torcedores se abraçavam, entrelaçavam-se nas mãos uns dos outros e pediam para que Mailson, goleiro rubro-negro, defendesse um pênalti. Pedido feito, desejo realizado.

Em meio a tantas repetições - palmas, gritos, pulos e orações -, um som ecoava sem ruído na Ilha: “É campeão”!. Grito que, na torcida rubro-negra, delineou o que seria concretizado pelo apito final do árbitro Ricardo Marques Ribeiro. Sport campeão pernambucano de 2019.

"Mundão" de sentimentos

Entre vaias, assobios e aplausos, os seguidores do Santa Cruz sentiram na pele e no coração, especialmente nos jogos contra CRB, ABC e Fluminense - os três adversários pela Copa do Brasil -, emoções do tamanho da complexidade de torcer pelo “Time do Povo”.

“Os cantos, as palmas, os gritos, tudo isso faz parte da mística do futebol. Nos jogos contra ABC e Fluminense a gente pôde ver isso. A gente não faz uma loucura para um jogo. A gente faz uma loucura permanentemente. É quase uma obrigação religiosa", diz Esequias Pierre, 33 anos, cuidador da sala de troféus do clube.

Na partida contra o Fluminense, o Arruda parecia mais gigante do que é. Tremeu antes, durante e depois da partida. A cada carrinho, uma vibração diferente. Depois do primeiro gol do jogo, marcado pelo atacante Jô, as vozes dos torcedores se confundiam. "Esses são jogos que fortalecem em mim a identidade e o sentimento que eu tenho de ser Santa Cruz", declarou Esequias.

Após a cobrança do último pênalti, desperdiçado pelo zagueiro William Alves e que decretou a eliminação da Cobra Coral da Copa do Brasil, um torcedor comentou: “Estou conformado. O time foi guerreiro, lutou até o fim. Sinceramente, não estou saindo daqui com o sentimento de tristeza. Futebol é assim”. Antes do desabafo, os torcedores aplaudiram o time pela atuação na partida.

Considerado até o momento o jogo mais importante do Santa na temporada, a partida contra o Fluminense deixou marcas na alma dos tricolores pernambucanos. Durante os 90 minutos, o Arruda fez jus ao apelido de Colosso. Os “rituais de estádio” encenados por mais de 25 mil pessoas, em meio ao espetáculo de uma noite, fez do Arruda um “Mundão” do tamanho do universo.

Pé da sorte é o esquerdo


Nascido nas águas do rio Capibaribe, o Náutico carrega em sua história traços de um time cercado por barcos e remos. Foi o primeiro a nascer entre os três principais clubes da Capital, há 118 anos. Para a estudante Alice do Monte, 22 anos, torcer para a equipe da Rosa e Silva ultrapassa as quatro linhas. "A gente vai de uma relação de amor e ódio em um jogo em questão de minutos. Vivemos momentos de tristeza e alegria. O Náutico me ensinou a sentir vários sentimentos”, descreve a estudante, que começou a frequentar o Eládio de Barros Carvalho aos oito anos.

Questionada sobre o jogo que mais a marcou, Alice lembra de Náutico e Ituano nos Aflitos, em 2006, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Um ano antes, o estádio alvirrubro havia sido palco de um dos jogos mais icônicos do futebol brasileiro: a Batalha dos Aflitos, protagonizada contra o Grêmio, em 2005. Com a casa cheia, o Timbu jogava com quatro jogadores a mais, além de ter desperdiçado um pênalti. Ainda assim, foi derrotado por 1x0. Mesmo depois desse cenário, no ano seguinte, justamente no jogo contra o time do interior de São Paulo, os alvirrubros tiveram a alegria de subir para a Série A, depois de 25 anos sem disputar a elite do futebol brasileiro.

Assim como muitos torcedores, Alice também guarda alguns costumes quando vai aos Aflitos. “Sempre piso no estádio com o pé esquerdo, que para mim é o pé da sorte. E assisto ao jogo com os fones de ouvido, ouvindo a rádio. Acho que se tiver sem os fones, ziko o time”, completa.

Cultura dita rituais

Se para quase tudo na vida existe explicação, para os rituais futebolísticos não seria diferente. Soraya Barreto, coordenadora do grupo de Gênero, Mídia e Esportes da UFPE, diz que essas expressões no estádio são culturais. “Torcida tem todo um processo ritualístico, porque futebol é uma micro-sociedade, é uma micro-cultura. Tem seus jargões e comportamentos específicos, que tem a ver com cada cultura. Muita gente fala do futebol no âmbito de religião, de paixão clubista, porque se perde a racionalidade em relação ao clube, digamos assim. Os rituais são, em geral, aprendidos no âmbito familiar”.

De acordo com a professora, a cultura latino-americana é uma das prerrogativas que justificam esses rituais. “Misturamos religiosidade com esporte, que se mistura com política também. A gente repete no futebol o que aprendemos socialmente. A torcida em Portugal, por exemplo, assiste ao jogo quase toda em silêncio. Se você for para qualquer estádio pernambucano, vai ouvir a batucada o tempo todo, a torcida gritando o tempo todo. Isso é muito latino-americano. Então, esses rituais têm a ver com a cultura na qual estamos inseridos”, declara.

Também torcedora, a professora relata que não consegue ir ao estádio de futebol sem a companhia do rádio. “Vejo que isso é muito da minha geração. Não sei assistir jogo em estádio sem rádio. É um hábito de comportamento”, conclui Soraya, enfatizando que a avó dela amarra uma toalha ou uma camisa e coloca no colo, para dizer que está amarrando a mão do goleiro adversário, enquanto assiste ao jogo.

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