Jovens com autismo e Síndrome de Down ressignificam o caratê

Vinícius Oliveira, 11 anos, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA), e José Valdir, 24 anos, Síndrome de Down, ainda celebram o título nacional conquistado recentemente

Juninho e Vinícius são exemplos de projeto que utiliza o esporte como meio de inclusão socialJuninho e Vinícius são exemplos de projeto que utiliza o esporte como meio de inclusão social - Foto: Lidiane Mota/Folha de Pernambuco

Utilizando o caratê como ponte de inclusão social, um projeto tem estimulado jovens de todas as idades a participarem das atividades no dojô do Centro Esportivo Santos Dumont, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. Em meio aos 150 alunos, divididos em três turnos, há dois campeões brasileiros. Vinícius Oliveira, 11 anos, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA), e José Valdir, 24 anos, Síndrome de Down, ainda celebram o título nacional, conquistado recentemente, e participam das atividades normalmente com os demais caratecas.

Pilar do projeto que já dura mais de 20 anos, Manoel Laurentino ajudou a mudar a vida de vários jovens em Boa Viagem. Nesse meio tempo, o Centro passou por reformas e hoje oferece uma estrutura muito melhor a dos primeiros anos de trabalho do professor. Ele ressaltou a importância do projeto na vida dele e dos alunos. “Estou aqui todo esse tempo porque amo o que faço. No início não era fácil, precisávamos dividir o espaço com outras atividades, inclusive a dança. Mas fico feliz em ver que o projeto mudou vidas, e hoje, alunos que chegaram aqui crianças, trazem seus filhos. Além disso, trabalho diretamente com a inclusão social. Aqui não há segregação, tem espaço para todos. O caratê, na minha visão, é um instrumento de educação, e vemos como alunos que chegaram aqui de uma forma conseguiram mudar para melhor”, afirmou.

A felicidade em praticar o caratê está estampada em qualquer um que passa pelo dojô. Dos mais jovens aos mais velhos é da mesma forma. Campeão brasileiro neste ano, José Valdir, mais conhecido com Juninho, é retrato disso. “Ele não para o caratê por nada. Aqui ele se sente vivo e respeitado por todos. Diversas vezes eu o pego praticando em casa, com aulas no youtube”, afirmou Maria Verônica, mãe do atleta. Manoel disse ainda que eles só não disputam mais competições porque nem sempre recebem apoio. Porém, a tendência é que tanto Juninho como Vinícius recebam benefício do Governo do Estado, como o Bolsa Atleta, já que conquistaram o título brasileiro.

Chegar no dojô do Santos Dumont e perceber que há algumas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é algo fácil de se fazer. Conhecidos pelas dificuldades de interação, esses jovens se envolvem e interagem com todos de uma forma muito positiva, graças ao esporte. Maria da Glória explica bem isso. “Antes de chegar aqui, meu filho batia em mim, era muito agressivo e tinha uma dificuldade muito grande de criar amigos. E com a ajuda do professor Manoel, ele já melhorou bastante e não bate mais”, afirma a mãe de Daniel da Silva, de oito anos.

O paracaratê recebeu uma atenção especial neste ano. Ganhou espaço nos Jogos Escolares e nas etapas do circuito pernambucano da Federação Pernambucana das Associações de Karate (FPAK). “Foi muito bom poder levar os caratecas para essas competições. Até porque, se levarmos para um local onde o paracaratê não é difundido, as pessoas verão que é possível e vão correr atrás. Fico muito feliz com a participação e projetamos as competições, não mais exibições”, disse Ivomar Young, presidente da FPAK.

O trabalho de Manoel é importante e necessário. O esporte tem o poder que poucas ferramentas possuem como meio de inclusão social. Poder observar a mudança e a interação de jovens com personalidades distintas é satisfatório para qualquer um que se aproxima do dojô. Projetos como esse necessitam ser mais valorizado e apoiado por todos.

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