Lição de vida, recifense realiza sonho na natação

Maria Carolina Santiago celebra chuva de conquistas em recente chegada ao paradesporto, aos 34 anos, e estabelece próximos objetivos

Talento da natação, pernambucana convive com anomalia congênita no nervo ópticoTalento da natação, pernambucana convive com anomalia congênita no nervo óptico - Foto: Divulgação

O sorriso fácil e a alegria entregam que a recifense Maria Carolina Santiago está vivendo uma fase especial. Há pouco mais de um mês, ela disputou o primeiro evento oficialmente como atleta paralímpica, e o cartão de apresentação fez dela, aos 34 anos, o principal nome do Open Loterias Caixa de Natação, realizado no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo. Foi uma chuva de conquistas e recordes, em âmbito nacional, continental e até mundial. Carolina foi a primeira atleta do País a quebrar um recorde mundial na natação feminina paralímpica desde Atenas-2004, quando Fabiana Sugimori brilhou nos 50m livre.

A recifense nadou as eliminatórias dos 100m peito da classe SB 12 (atletas de baixa visão acentuada) em 1min14s94, oito centésimos abaixo do então recorde da época. Na final, baixou ainda mais (1min14s79). É fato que o recorde foi quebrado posteriormente, mas o desempenho de Carolina deixou como frutos as classificações para os Jogos Parapan-Americanos de Lima e para o Mundial de Natação Paralímpica de Londres, principais compromissos deste ano. Uma atuação que surpreendeu até a própria atleta. “Quando comecei os treinos no Grêmio Náutico União (RS), eu e meu técnico achamos me sairia bem, que poderia baixar um pouco os tempos, mas não desse jeito”, confessa Carolina, um talento tão raro quanto a síndrome que a levou ao paradesporto.

Ela é portadora da Morning Glory, uma anomalia congênita no nervo óptico. Na maioria dos casos, acontece de forma unilateral, sendo os casos bilaterais ainda mais raros. Carolina só enxerga vultos com o olho esquerdo e não tem visão periférica no olho direito, apenas focal. “Não dá para mensurar com exatidão, mas devo ter no máximo 15% de visão no melhor olho”, diz ela, que teve o primeiro contato com a natação no período que morou em São Paulo. “Eu acompanhava meu irmão mais velho nos treinos e ficava nadando na raia ao lado. Eu tinha quatro anos”, recorda.

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A natação era o único esporte que não oferecia riscos, visto que portadores da Morning Glory têm uma predisposição maior a descolamentos de retina e, por isso, modalidades de contato e de impacto não são indicadas. Aos oito, já estava de volta ao Recife, onde começou a competir de fato, pelo Clube Português e depois com Nikita. Apesar da dificuldade em determinados momentos, principalmente nas viradas e chegadas, Carolina disputava eventos convencionais, contra meninas sem deficiência.

Aos 17, porém, foi forçada a parar. Um acúmulo de água na retina lhe tirou por completo a visão por cerca de oito meses. “Não teve nada a ver com a piscina, não tem explicação. Do mesmo jeito que aconteceu de acumular, aconteceu também de secar”, diz ela, que optou por não retornar às piscinas após a melhora. Esse reencontro só ocorreu uma década depois. “Achava que estava velha para o esporte. Fui deixando, deixando... Aí aos 27 senti que estava há muito tempo sem fazer exercício e decidi voltar.”

Como não estava mais federada, Carolina nadou de forma independente nesse retorno. Foi então que conheceu a maratona aquática, modalidade que a desafiou profundamente não só por exigir preparo físico, mas por mexer com inseguranças. “Tinha que ir seguindo alguém para não perder as boias, porque eu não as enxergava. Então nadava com medo de me perder, com medo de bater em peixe. O mais legal era quando terminava e eu pensava ‘caramba, eu consegui’. Era realmente uma superação”, conta, orgulhosa, uma Carolina que já seria vitoriosa somente por ter se lançado ao mar. Mas ela também tem títulos, incluindo um Rei e Rainha do Mar. Em 2014, foi primeira colocada nas provas de Sprint (1k) e Challenge (4k) para atletas de 25 a 29 anos.

O desporto paralímpico só se apresentou para Carolina no ano passado, quando, através de um amigo, chegou ao gaúcho Grêmio Náutico União. Pouco tempo depois, já disputava as primeiras competições na condição de convidada. A oficialização como atleta paralímpica aconteceu em abril deste ano, antes do Open. “Passei por uma junta médica e entrei de fato, sendo classificada de acordo com a minha deficiência.” Nesse pouco tempo, ela já se tornou recordista paralímpica brasileira em sua respectiva classe nos 100m borboleta, 100m costas, 200m medley e dos 50m, 100m e 400m livres; além de ser recordista das Américas dos 50m e 100m livres.

Hoje Carolina mora no Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, onde treina de segunda a sábado. Não deixou de participar de eventos convencionais, a exemplo do Troféu Maria Lenk. Mas tem novos propósitos e, satisfeita, lista os próximos compromissos da temporada. Por sinal, uma agenda cheia para quem acabou de chegar.

“Vai ter o segundo Nacional e o Brasileiro, fora o Pan e o Mundial. Não sabia que a natação paralímpica tinha essa estrutura, é fantástica”, diz ela, personificação de uma lição de vida. “Eu não tenho uma história que vá emocionar ninguém. O que eu vivo agora é a realização de um sonho que não continuei quando mais nova e que estou tendo outra oportunidade. Então todos os dias eu acordo animada, disposta, com toda a força para dar o meu melhor nos treinos. Quando caio na piscina é sempre para fazer o melhor. Às vezes dá, às vezes não. Assim é a vida.”

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