Na volta do futebol na Coreia do Sul, torcida só é ouvida pelo alto-falante

O retorno do esporte no país asiático abre um caminho para que centros com maior relevância no esporte mundial comecem a planejar a volta à normalidade

Ulsan Munsu Football StadiumUlsan Munsu Football Stadium - Foto: Google Street View

O atacante brasileiro Júnior Negão deixou o gramado do Ulsan Munsu Football Stadium, no último sábado (9), extasiado após marcar os dois primeiros gols na vitória por 4 a 0 do Ulsan Hyundai contra o Sangju Sangmu.

Quase três meses depois de sua última partida oficial, disputada em 11 de fevereiro pela Liga dos Campeões da Ásia, não pensou duas vezes quando avistou um ex-companheiro de equipe, o meio-campista sul-coreano Park Yong-woo. "Quando estava descendo para os vestiários e o vi, já fui abraçá-lo, mas ele recuou rapidamente, lembrou que não podemos. Ainda não estamos totalmente acostumados a tudo isso", conta o jogador à reportagem.

O abraço entre os jogadores seria um ato falho na lista de protocolos recém-criados pela Coreia do Sul -um dos países mais elogiados pelo sucesso na contenção do novo coronavírus- para a retomada de seu principal campeonato de futebol, a K-League, após a paralisação do esporte durante a pandemia de Covid-19.

O retorno do esporte no país asiático abre um caminho para que centros com maior relevância no esporte mundial comecem a planejar a volta à normalidade. Algumas ligas menores, como as de Belarus, Nicarágua, Turquemenistão, Burundi e Mianmar, não chegaram a parar.

"O governo da Coreia do Sul sempre teve o controle da Covid. No nosso celular recebíamos mensagens avisando sobre lugares com pessoas infectadas", conta o meia Murilo, primeiro entre os brasileiros a jogar, ainda na sexta-feira (8), quando estreou com o Jeonbuk Motors, atual campeão. A equipe venceu por 1 a 0 o Suwon Bluewings.

Para a retomada do futebol local, clubes e autoridades sul-coreanas elaboraram um rígido protocolo para evitar o contágio dos envolvidos nas partidas. Na primeira rodada, a temperatura dos atletas, funcionários e envolvidos foi medida pelo menos três vezes: de manhã, pouco antes da partida e também na saída do estádio.
Adversários entraram em campo em momentos distintos, evitando contato.

Cumprimentos, apenas com cotovelos ou um leve soco entre mãos. Nos gols, nada de abraços. A recomendação é que até mesmo conversas entre companheiros sejam evitadas. "Nos policiamos o tempo todo. O nosso time costuma sempre se reunir abraçado em campo antes dos jogos, por exemplo. Durante os gols, a vontade era de abraçar e comemorar de verdade, mas conseguimos nos conter", conta Júnior Negão. Durante os gols, foram constantes entre os jogadores sinais com as mãos voltados para as câmeras. Júnior Negão ainda comemorou exibindo uma camisa branca, por baixo do uniforme, com os dizeres "Força, Brasil! #StaySafe" (#FiqueSeguro, em inglês).

O jogador é baiano, mas se mudou com apenas um ano com a família para Manaus, uma das cidades mais afetadas pela pandemia no Brasil. Até sábado (9), o município registrava 660 mortes por Covid-19, mais do que toda a Coreia do Sul, que contabiliza 256 óbitos pela doença segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, dos EUA, que monitora o contágio global. "Tenho familiares que trabalham lá na área da saúde, familiares que foram contaminados e pessoas bem próximas que faleceram. Estamos bem preocupados", disse o jogador, que começou a carreira no Nacional-AM.

Os jogos foram realizados com estádio vazio. As torcidas organizadas, porém, puderam deixar faixas estendidas na arquibancada, e os alto-falantes entoavam cânticos dos torcedores para quebrar o silêncio. Na semana da estreia, a federação local visitou todos os clubes para dar explicações detalhadas sobre como funcionaria o novo protocolo. Se algum jogador for infectado, sua equipe e o time que a enfrentou ficarão isolados durante duas semanas. "Nos pediram para não cuspir em campo ou fazer coisas que pudessem deixar rastros", diz Murilo.

"As garrafinhas de água que ficam espalhadas ao redor do campo agora temos que beber e jogar tudo fora para que ninguém tome mais", relata o atacante Éder Lima, há seis temporadas no país. A sua equipe, o Jeju United, estreou na segunda divisão com um empate por 1 a 1 com o Seoul E-Land. A partida de estreia do campeonato foi transmitida para 36 países depois que a K-League, aproveitando a falta de futebol no mundo, fechou contrato com emissoras do exterior para a transmissão internacional da competição. Na temporada passada, apenas seis países, todos da Ásia, adquiriram os direitos de transmissão.

Originalmente, a temporada da K-League começaria em 29 de fevereiro. Com o adiamento, sofreu um encurtamento de 11 rodadas em seu calendário. Ao invés de três turnos, serão disputados apenas dois e os mata-matas, totalizando 27 rodadas -antes, seriam 38.

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