A minha decisão de empreender, por Camilla Borges

Fundadora e presidente do projeto Politiquê? dá dicas para entrar no mundo do empreendimento

Camilla Borges, empreendedora serial, consultora e mentoraCamilla Borges, empreendedora serial, consultora e mentora - Foto: Cortesia

A empreendedora serial, consultora e mentora Camilla Borges, fundadora e presidente do projeto Politiquê, co-fundadora e CEO da startup social Thiki e co-fundadora da plataforma networking Café com Estratégia, é a convidada desta semana da coluna Sucesso, uma parceria do Portal FolhaPE com o sucesso.site, de Felipe, Eduarda e Camila Haeckel.

Quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, em 2006, eu vivi momentos de tensão para escolher o curso que faria na faculdade. Essa tensão não acabou até dois anos depois, quando eu larguei o curso de psicologia que já havia iniciado na UFPE (e não sentia que estava no lugar certo), fiz vestibular de novo, e iniciei os cursos de Administração e Relações Internacionais.

Em 2009, fiz um intercâmbio de trabalho na Disney, nos Estados Unidos, e entrei em contato com a história de Walt Disney. Ao longo dos anos, as histórias de superação e sonhos de mudar o mundo se acumularam em filmes assistidos, livros lidos, histórias ouvidas e exemplos que conheci.

Camilla Borges na Disney


Foi somente em 2013 que eu uni o idealismo trazido da infância, a experiência como líder desde pequena, os conhecimentos e vivências acumulados e a coragem de uma jovem que não tinha nada a perder, para me tornar empreendedora, iniciando o Politiquê?. Hoje, alguns anos depois, tenho orgulho do caminho que já trilhei, apesar de saber que a minha jornada está apenas começando.

A essência empreendedora
Empreender não é um caminho fácil. Muitos acreditam que basta abrir um negócio para ser empreendedor(a). Contudo, existe uma diferença entre ser dono(a) de uma empresa, e ser empreendedor(a). A essência empreendedora envolve muito mais do que ter o nome registrado como representante de uma empresa.

As atitudes empreendedoras que eu considero mais relevantes, são:

Atitudes empreendedoras


As mulheres empreendedoras no Brasil
O caminho do empreendedorismo representa uma grande oportunidade para mulheres: através dele, as mulheres alcançam mais autonomia, independência financeira e e autoestima.

Além disso, o empreendedorismo representa uma trajetória de empoderamento, inclusão e oportunidades. Para as mulheres de baixa renda, esse caminho representa também a possibilidade de sustento dos filhos, a tomada de decisão na forma de gerir a casa e uma saída para os casos de relacionamentos abusivos e violentos. Para mães, empreender representa um caminho onde é possível conciliar vida profissional e a maternidade.

Segundo a pesquisa “Quem são elas?”, realizada com mais de 1300 mulheres em todo território nacional e patrocinada pelas empresas Avon, Itaú e Facebook, com organização da Rede Mulher Empreendedora, “75% das empreendedoras decidem empreender após a maternidade. Na classe C, a porcentagem aumenta para 83%”. Ainda segundo a pesquisa, um dos principais motivos para as mulheres empreenderem é “trabalhar com o que gosta e/ou para realizar um sonho”.

O fato é que o número de mulheres empreendedoras no Brasil cresceu nos últimos anos. Segundo o anuário Empreendedoras e Trabalhadoras em Micro e Pequenas Empresas, do SEBRAE e da Dieese, chegou a 7,3 milhões em 2013. Segundo os dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2016/2017, a taxa de engajamento no empreendedorismo de estágio inicial, no Brasil, é de 8 mulheres empreendedoras para cada 10 homens empreendedores.

Os desafios para mulheres empreendedoras
Para as mulheres empreendedoras, além de enfrentar os riscos de uma jornada repleta de incertezas, é preciso desafiar também a própria sociedade e aquilo que é esperado de nós. Destaco dois grandes desafios que mulheres costumam enfrentar na sua carreira, e também na caminhada empreendedora.

Desafio 1: Autoestima e autoconfiança
Nós mulheres costumamos subestimar nossas capacidades. E isso acontece no mundo inteiro.
Em um estudo publicado na Associação Americana de Psicologia, realizado durante oito anos por um grupo de pesquisadores que consultou mais de 980 mil homens e mulheres em 48 países, foi pedido aos pesquisados que classificassem a frase “Eu me vejo como alguém que tem autoestima alta”. O estudo concluiu que, independente do país ou da cultura, os homens têm autoestima mais alta do que as mulheres. A pesquisa oficial está disponível, em inglês, aqui.

Ao mesmo tempo, os homens costumam aplicar para uma oferta de trabalho mesmo que eles atendam a somente 60% das atribuições. Enquanto isso, as mulheres só aplicam se atenderem a 100% delas. Essa foi a conclusão de um relatório interno da empresa HP (Hewlett Packard), que foi amplamente divulgado em livros e artigos sobre o tema.
Esses fatos possuem repercussão direta no mercado de trabalho e na forma como nós, mulheres, nos posicionamos enquanto líderes e empreendedoras. Eu mesma já vivenciei momentos onde as mulheres presentes na sala se apresentavam ou se portavam como se estivessem pedindo desculpas por estarem ali. Como se aquele lugar não lhes coubesse.
Felizmente, por ter sido criada por mulheres fortes, eu não cresci com essa crença. Também por isso, eu demorei a perceber as sutis diferenças entre ser uma mulher no mundo empreendedor. Foi preciso que eu vivenciasse uma experiência onde eu estava lado a lado com dezenas de mulheres empreendedoras, para que eu finalmente entendesse.

A minha experiência nos Estados Unidos
Entre outubro e novembro de 2016, eu participei de um programa chamado Young Leaders of the Americas Initiative (YLAI). O YLAI foi criado pelo presidente Obama durante o seu governo, e tem como objetivo estimular o empreendedorismo e fomentar lideranças jovens em toda a América.

Young Leaders of the Americas Initiative

Fui selecionada em mais de 4 mil aplicações para fazer parte do grupo de 240 jovens selecionados para passar 5 semanas nos Estados Unidos aprendendo mais sobre empreendedorismo, liderança, networking, formação de comunidades, engajamento social, entre outros. O YLAI foi um marco na minha trajetória. Além de ter mergulhado em uma jornada de autoconhecimento e aprendizado intensos, foi a primeira vez em que eu pude conviver com mulheres empreendedoras fortes e jovens como eu. Escrevi um artigo sobre a experiência de estar cercada de mulheres inspiradoras, intitulado “YLAI, as Mulheres-Maravilha da vida real, e o exercício de enfrentar nossos medos”.

Desafio 2: Os estereótipos

Em diversas culturas e países, é dominante a ideia que mulheres devem ser sempre protetoras, agradáveis e cuidadoras. Sheryl Sandberg, COO do Facebook, assumiu nos últimos anos uma posição firme contra esses estereótipos.

No geral, se agirmos de forma diferente dos estereótipos existentes, somos vistas como mandonas, arrogantes e agressivas. Pesquisas em inglês atestam que a palavra “bossy”, que significa mandona, é mais associada a mulheres do que a homens. Ou seja, se assumimos atitudes que são normais para os homens em posições de poder, somos criticadas.

Sheryl Sandberg disse, em uma de suas entrevistas, que devemos intervir toda vez que uma menina for chamada de mandona, e responder: “ela não é mandona, ela tem habilidades de liderança executiva”. Um de seus TED talks ganhou alcance mundial falando sobre o tema, sendo assistido por mais de 7 milhões de pessoas:

   


Como resultado do sucesso e alcance do seu vídeo, Sheryl escreveu um livro chamado Faça Acontecer (Sheryl Sandberg), e desde então ela tem inspirado mulheres e homens ao redor do mundo.

Por mais sororidade entre mulheres
Pessoalmente, eu acredito que nós mulheres temos muito a contribuir no mundo empreendedor quando estamos dispostas a enfrentar esses desafios. Em prol dessa busca, acredito e defendo o papel da sororidade entre mulheres.

Sororidade significa aliança ou fraternidade entre mulheres. Na prática, a sororidade entre mulheres representa o apoio mútuo, a aceitação da outra, a ausência de julgamentos e o abandono da cultura de “competição”. Nesse sentido, destaca-se a atuação da Escola de Você, uma escola online desenvolvida pelas jornalistas Ana Paula Padrão e Natalia Leite para empoderar mulheres e difundir a visão de sororidade.

Para encerrar este artigo, trago uma reflexão sobre como as mulheres podem agregar ao mundo empreendedor, e mais ainda, podem ajudar na resolução dos problemas globais que afetam a todos nós.

Os caminhos do Empreendedorismo Social
A degradação ambiental e dos recursos naturais, as desigualdades crescentes, os direitos não atendidos de minorias, entre outros problemas, tem atraído a atenção de um número cada vez maior de pessoas. A ONU tem tido papel fundamental nesse processo, divulgando e advogando pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que resumem em 17 objetivos quais são os nossos desafios globais atuais e como podemos construir um futuro mais sustentável até 2030.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Dentro desse movimento, destacam-se as iniciativas de Empreendedorismo Social. No empreendedorismo social, resolver um problema social e/ou ambiental se torna tão importante quanto “pagar as contas”. Apesar de ser uma área relativamente recente, ela tem chamado a atenção de investidores, governos, empresas, empreendedores e jovens que buscam carreiras com propósito.

Nos EUA e em outros países ocidentais, um termo bastante usado é o de “empresas sociais”. As empresas sociais podem ser constituídas como empresas ou como ONGs, e seguem a lógica de mercado ao mesmo tempo em que buscam resolver um problema social. Outro nome bem conhecido para definir as organizações desse setor é o de negócios sociais*, termo que foi originado através do trabalho do ganhador do Nobel da Paz e criador do microcrédito, Muhammad Yunus.

O Grameen Bank, banco criado por Yunus, já emprestou mais de 5,72 bilhões de dólares para 6,61 milhões de mutuários, 97% dos quais são mulheres. Ao longo desse caminho, mulheres de baixa renda conquistaram independência financeira e autonomia para decidir sobre a sua família. O Grameen Bank descobriu que as mulheres são melhores pagadoras do que homens, tornando-se um dos bancos com a menor taxa de inadimplência do mundo (menos de 1,5%).

Coluna Sucesso

As mulheres no empreendedorismo social
As mulheres são mais propensas a gerirem uma empresa social - ou seja, a tornarem-se empreendedoras sociais, do que os homens. Essa é a conclusão do artigo publicado na OECD Local Economic and Employment Development (LEED) Working Papers, Women's Social Entrepreneurship and Innovation de Huysentruyt. Segundo a pesquisa, as mulheres também são mais altruístas e possuem mais pensamento social do que os homens.

A pesquisa também afirma que, como mercados de empreendedorismo social são menos dominados por pressões de competição do que os mercados de empreendedorismo tradicionais, essa escolha se alinha com a característica de as mulheres serem mais aversas à competição. Segundo o jornal britânico Independent, 90% das empresas que focam em resolver problemas sociais possuem ao menos uma mulher na equipe de liderança, ao contrário de mais da metade das micro e pequenas empresas, que possuem apenas diretores homens. Além disso, quase 1/3 das empresas sociais possuem Minorias étnicas em cargos de diretoria, de acordo com a State of Social Enterprise Survey 2013, citada também na reportagem.

Com isso, podemos concluir que mulheres empreendedoras representam uma mudança positiva para todos, já que trazem consigo uma preocupação maior com questões sociais, de inclusão e de garantia de direitos. Essa forma de fazer negócios possui extrema relevância se quisermos construir uma sociedade melhor para todos.

Empreendedoras sociais de sucesso
Para ilustrar exemplos de mulheres empreendedoras na área, trago dois exemplos de jovens com que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente este ano.

A primeira é a Danielle Brants, fundadora do negócio social Guten News. A Guten News é um jornal digital voltado para recuperar o prazer dos estudantes pela leitura. A plataforma é interativa, promove o engajamento e tem tido resultados bem legais nas escolas em que atua. A história dela foi veiculada no MIT Technology Review Edição Brasil entre os inovadores com menos de 35 anos e foi indicada ao prêmio Claudia em 2017.



Outra empreendedora que admiro é a Mariana Serra, co-fundadora da Volunteer Vacations. A Volunteer Vacations oferece experiências de curto prazo em organizações de ajuda humanitária espalhadas pelo mundo. Voltada para profissionais de diversas áreas, estudantes ou pessoas que queiram fazer o bem, a VV é um negócio social que une propósito e ajuda humanitária. Eu tive a oportunidade de conhecer a Mariana durante sua estadia na Ilha de Deus, em Recife, e vi um pedacinho do amor e grande compromisso que ela tem com a missão da VV. Ela também foi indicada pela Forbes como uma das jovens promissoras do 30under30.

Para encerrar, proponho a você, leitor(a), que reflita sobre a importância de termos mais mulheres no caminho do empreendedorismo.

Convido também a todas as mulheres que estejam em transição de carreira ou iniciando a sua jornada, a considerarem empreender. Eu espero sinceramente que com este artigo ao menos uma mulher se inspire a seguir por esse caminho.

Em um mundo com mais mulheres empreendedoras, todos ganham: os negócios e a sociedade.

*Os negócios sociais seguem 7 princípios claros, dentre eles destaca-se que os investidores recebem de volta somente o valor investido, e nenhum dividendo é pago além do dinheiro investido.

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Recomendações para saber mais

Programas de Empreendedorismo e Empreendedorismo Social
• YLAI - https://ylai.state.gov/
Abertura do processo: entre março e abril

• Watson University Program for Young Social Entrepreneurs 2017 - https://watson.lynn.edu/
Abertura do processo: entre fevereiro e março

• Stanford Executive Program for Social Entrepreneurship - https://www.gsb.stanford.edu/programs/executive-program-social-entrepreneurship
Abertura do processo: geralmente no segundo semestre

• Para saber mais: o site Youth Opportunities (https://www.youthop.com/) é atualizado constantemente com oportunidades para diversas áreas (pesquisadores, jornalistas, empreendedores, ativistas, professores, etc) e diversos temas (inclusão, diversidade, sustentabilidade, paz, juventude, mulheres, etc)

• Em Recife

Sugiro acompanhar o projeto Pense Nela, da amiga Luciana Hazin, que é Consultora e Facilitadora em Desenvolvimento Humano de Líderes e Equipes, Processos Criativos e Empreendedorismo. Ela é Proprietária da Azin Empreendedorismo Criativo, Parceira da Perestroika, e Idealizadora do Programa de Empreendedorismo Feminino, Pense Nela. O projeto Pense Nela foca em empoderamento feminino e quebra de paradigmas e estereótipos relacionados a mulheres e homens. Vale conferir e participar dos cursos que ela oferece ao longo do ano.

Para assistir
Estrelas além do tempo – O filme retrata a história de três mulheres negras e que trabalham na NASA, nos tempos de segregação racial, e que não se deixam levar pelos limites impostos. O filme é baseado na história real das três mulheres: a física Katherine G. Johnson, a matemática Dorothy Vaughan e a engenheira Mary Jackson. Para mim, o grande marco do filme é o fato de que as mulheres negras são as responsáveis por abrirem o caminho, desafiando o status quo e ousando ir até onde nenhuma mulher tinha ido ainda.

Magia além das palavras – Esse filme conta a história da escritora J.K. Rowling, autora de Harry Potter, antes de os livros serem publicados e ela ser reconhecida em todo o mundo. Um dos pontos fortes do filme é a escolha do nome que ela vai colocar nos livros. Ela é orientada a colocar em seus livros um nome que não indique o seu gênero, para evitar o preconceito. Foi assim que surgiu o nome com as iniciais J.K. Rowling.

The Handmaid´s Tale – Esse seriado de ficção produzido pela Hulu ganhou 5 prêmios do Emmy em 2017. A série conta a história de um mundo onde a poluição, a destruição da natureza e dos recursos naturais, dentre outros fatores, resultou em uma queda da fertilidade de mulheres. Nesse cenário, assume o poder um governo totalitário que transforma as mulheres férteis em escravas reprodutoras. A história e enredo possibilitam uma reflexão profunda sobre o papel das mulheres na sociedade.

The Crown – Produzido pela Netflix, esse seriado retrata o reinado da Rainha Elizabeth II do Reino Unido desde quando se casou e assumiu a coroa. Baseado em trechos públicos da história da Rainha, é uma série envolvente que retrata a vida de uma mulher que assumiu uma posição de poder ainda jovem, em um mundo ainda marcado pela guerra fria.

Entrevista com Andreas Ufer, idealizador da Sense-Lab e especialista em Negócios Sociais, explicando O que são Negócios Sociais 2.5.

Para ler
O Banqueiro dos Pobres, Muhammad Yunus –
Foi primeiro livro que li sobre Empreendedorismo Social. Muhammad Yunus é o principal nome do Empreendedorismo Social no mundo. Ganhador do Prêmio Nobel da paz, Yunus relata como começou a construir o Grameen Bank, um banco de microcrédito que possui o menor índice de inadimplência entre os bancos do mundo (menos que 1%).

Faça Acontecer, Sheryl Sandberg – O livro da COO do Facebook se tornou best-seller mundial e inspirou milhares de pessoas a mudarem a forma como enxergam suas carreiras e suas vidas. Acabei de comprar o livro para ler durante o recesso de final de ano, mas recomendo baseado nas reportagens que li e vídeos que assisti sobre Sheryl, assim como por indicação de amigas empreendedoras.

The Solution Economy, William D. Eggers and Paul MacMillan Esse livro, escrito por dois consultores da Delloite, compila dados e tendências para a intitulada “Economia das soluções”. Essa visão é baseada na ideia de que empresas, governos e sociedade civil podem ser unir para resolver os mais urgentes problemas sociais da atualidade.

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