Afetados por vazamento de óleo, pescadores sofrem mais prejuízos com o coronavírus

Em menos de seis meses, duas crises graves ameaçam a subsistência de quem vive da pesca em Pernambuco. Nesta quarta-feira (1º), categoria foi incluída na lei que institui Renda Básica Emergencial.

Helena Ivalda (à esquerda) é uma das 150 marisqueiras que precisam de doações em Maracaípe, IpojucaHelena Ivalda (à esquerda) é uma das 150 marisqueiras que precisam de doações em Maracaípe, Ipojuca - Foto: Bruna Veloso/Divulgação

Em menos de seis meses, duas crises graves ameaçam a subsistência dos que exercem a atividade pesqueira em Pernambuco. Depois do derramamento de petróleo cru no Nordeste e Espírito Santo, a maior tragédia ambiental da costa brasileira, a pandemia do novo coronavírus atinge, mais uma vez, os milhares de pescadores artesanais e catadores de mariscos do Estado, especialmente os que vivem nas áreas mais afetadas pelo vazamento. A paralisação do comércio e do turismo faz colônias de cidades como Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, no Grande Recife, sofrerem com a perda da renda e a falta de itens básicos de higiene, essenciais para a prevenção da doença.

Na quarta-feira (1º), a categoria foi incluída no projeto de lei que institui a Renda Básica de Cidadania Emergencial em casos de epidemias. A norma, que estende o alcance do auxílio de R$ 600, foi aprovada pelo Senado por unanimidade e segue para votação na Câmara de Deputados.

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Morador da colônia Z8, em frente ao estuário do rio Massangana, no Cabo, o pescador e barqueiro Gilberto Carvalho, de 54 anos, considera a situação atual pior do que na época das manchas de óleo. Em novembro do ano passado, ele e a mulher, Adriana, 44, relataram à Folha de Pernambuco que a renda da família tinha caído à metade. Hoje, depois que os bares vizinhos fecharam as portas, o faturamento é zero. “[O movimento] foi voltando aos poucos, mas agora está ruim de verdade”, descreve Adriana. “Só estou pescando para consumo próprio”, diz ele.

Apesar das dificuldades, Gilberto entende a necessidade do isolamento social para evitar a transmissão do vírus e espera receber o auxílio anunciado pelo Governo Federal para garantir o próprio sustento durante o período de quarentena. Por enquanto, o casal e toda a comunidade ao redor vivem na base da colaboração.

“A gente está confinado, minhas filhas não vêm, não quero nem visita. Quando dá, eu doo [parte dos pescados] aos conhecidos que estão em necessidade. Também tenho alguns motores de barco para alugar, deixo do lado de fora para não ter contato com ninguém. As pessoas não têm dinheiro, a gente entende, então elas vêm e pegam para pescar. E um ajuda o outro”, afirma.

Na praia de Maracaípe, em Ipojuca, a situação também é complicada. Representante de um grupo que reúne 150 famílias, a marisqueira Helena Ivalda Nascimento, 33, se mobiliza com parentes e vizinhas em busca de meios de sobrevivência. “Na época do óleo, a gente ainda podia vender o que tinha congelado. Não pescava, mas tinha em casa. A gente vendia sempre para os restaurantes da praia, mas estão fechados. Agora, não tem onde vender”, conta a catadora, que tem hipertensão e mora com quatro filhos mais a mãe idosa. “Dependemos de doações. Precisamos de álcool em gel, sabonete, pasta de dente, materiais de limpeza, papel higiênico, sabão em pó”.

Para ajudar essas mulheres, o coletivo TPM Todas para o Mar iniciou uma campanha por meio de uma vaquinha virtual. Uma das líderes do grupo, Nuala Costa, diz que, antes da pandemia, estava finalizando outra campanha para ajudar as marisqueiras. “Como todo mundo vive do turismo, quando teve a baixa do óleo, as vendas caíram bruscamente, de 70% a 75%. E a gente organizou um documentário para conseguir ajuda, para que os grandes hotéis consumissem os produtos, porque elas não recebem seguro-defeso. E agora o coronavírus pegou todo mundo de surpresa”, afirma. A iniciativa tem como meta arrecadar R$ 33.300 para a compra de 300 cestas básicas.

Pesquisador na área de antropologia da pesca, o professor do Departamento de Sociologia da UFPE, Cristiano Ramalho, lembra que, na época do derramamento, a queda nas vendas dos pescados chegou a 100%. “São comunidades muito pobres onde mora muita gente perto. Os efeitos do vazamento de petróleo ainda não tinham passado, e agora veio isso. Para a sociedade em geral, temos um mês desse impacto do coronavírus. Mas, para essa população, são seis meses de impacto. Ela entra para enfrentar o coronavírus nas piores condições possíveis”, afirma.

Auxílio
Na última terça-feira (31), 14 núcleos, grupos e laboratórios de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) emitiram uma nota pública propondo medidas para proteger as comunidades pesqueiras durante o período de quarentena. O documento defende destinar recursos dos fundos estaduais de meio ambiente e compensação ambiental para essa população. Além disso, segundo o texto, é preciso que o Governo Federal pague o auxílio emergencial anunciado no ano passado para todas as famílias que vivem da pesca.

De acordo com o secretário estadual de Desenvolvimento Agrário, Dilson Peixoto, dos 12 mil pescadores artesanais que se cadastraram para receber o benefício, apenas um terço teve acesso à verba, segundo o gestor, por problemas burocráticos com o cadastro do Governo Federal. O gestor diz ainda que espera a liberação de R$ 10 milhões do Ministério da Agricultura, por três meses, para ampliação do programa de aquisição de alimentos. “Com esse valor, a gente poderia ajudar esses pescadores, comprando e doando o peixe para diversas entidades filantrópicas e restaurantes populares que atendem a população carente”, explica.

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