Argentina poderá entrar em hiperinflação se Macri não contiver crise, diz economista

A repetição virou parte do fenômeno da crise argentina e a razão pela qual é perversa, porque cria traumas, aterroriza a população

Presidente argentino Mauricio MacriPresidente argentino Mauricio Macri - Foto: wikipedia

"Se Macri não conseguir conter a atual crise, daqui até dezembro correremos o risco de uma hiperinflação. Eu, que já vivi várias dessas crises, sei que aí só serve agarrar-se na cadeira ou ir a Ezeiza [o aeroporto internacional]", diz o economista Roberto Cortés Conde, 87, professor aposentado da Universidade de Buenos Aires, com passagens pelas universidades de Chicago e Harvard.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, no café de um hotel portenho, Cortés Conde disse que considera que o presidente Mauricio Macri errou ao não fazer reformas e ajustes mais profundos logo no começo do mandato. "Mas é muito mais fácil dizer isso aqui sentado confortavelmente do que montado no cavalo descontrolado que é a política argentina."

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Confira a entrevista:

Como o sr. vê essa nova crise argentina?

Esse fenômeno da crise que se repete é um pesadelo para uma pessoa como eu, da minha idade, que venho vendo isso desde o período de [Juan Domingo] Perón [que governou de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974] e atravessei todas [as crises], a de 1989, a de 2001.

A repetição virou parte do fenômeno da crise argentina e a razão pela qual é perversa, porque cria traumas, aterroriza a população. Quando se faz a piada de que a única saída para o país é Ezeiza [o aeroporto internacional de Buenos Aires], não é exatamente uma piada. Já há muita gente pensando em ir embora. Tampouco a comparação com a Venezuela, embora seja um grande exagero, é tão irreal assim.

De maneira geral, o que provoca essa característica cíclica das crises argentinas?

Há crises de inflação e de deflação. A que estamos vivendo agora é o primeiro caso. Em 1999, no fim do período de Carlos Menem (1989-1999), o que tínhamos era deflação, ninguém comprava nada, e acabou ocorrendo a crise de 2001.

O desequilíbrio que temos e que gera essas crises repetidas está relacionado ao modelo político argentino. Quando estamos num momento como este, o que convém a um presidente é tentar jogar a bomba para o governo seguinte.

Alguns não conseguem. Um deles foi Raúl Alfonsín [1983-1989], que herdou uma crise por causa da dívida externa adquirida no começo dos anos 1980 pelo governo militar [1976-1983] e não conseguiu nem resolver nem passar adiante. Explodiu na mão dele e fez com que tivesse de entregar o cargo mais cedo.

O que deu a Menem a possibilidade de governar dez anos foi o fato de a bomba ter explodido com Alfonsín. Depois, a dolarização gerou um desequilíbrio macroeconômico grande. A bomba foi se formando de novo porque, ao ter o peso atrelado ao dólar, e estando com uma política fiscal deficitária, não pôde fazer ajuste, porque a economia estava dolarizada.

O que resta fazer nessa hora? Tomar medidas duras, baixar gastos, e isso produz recessão. E a recessão é o mais antipático, mais antipopular que pode haver.

O sr. é da corrente que pensa que Macri deveria ter feito o tal choque neoliberal logo de cara, e não adotar a política do gradualismo, de ir retirando subsídios aos poucos?

Sim, creio que ele errou ao adotar o gradualismo e deveria ter feito os ajustes todos de uma só vez. Mas é muito mais fácil dizer isso aqui sentado confortavelmente do que montado num cavalo descontrolado que é a política argentina quando está desse jeito. Quando o cavalo se descontrola, ou o cavaleiro o domina ou é dominado por ele.

Macri deveria ter feito os ajustes todos de uma vez, mas não tinha a conjuntura política necessária para isso. Não tinha maioria no Congresso, havia muita resistência em fazer as reformas da Previdência e do trabalho. Era politicamente impossível.

E qual é o problema da fórmula gradualista?

Você não pode tratar alguém que está doente por alcoolismo dizendo: "Agora você deixa de tomar uísque e toma apenas um vinhozinho". Não dá, você não cura. A solução é fazê-lo parar de beber e tratar dos efeitos colaterais disso, mas eliminando o problema de fundo, que é o alcoolismo. A mesma coisa ocorreu com Macri tentando resolver com gradualismo a crise argentina.

E o que dificultou também foi a presença sempre constante do fenômeno populista como alternativa.

Como o sr. define o fenômeno populista na Argentina?

A sociedade argentina está acostumada ao pão e circo, e não há forma de explicar-lhe que os gastos têm de ser menores que as receitas. Isso veio de Perón, quando se cristalizou a ideia de que o Estado tem de prover tudo. Só que, à diferença dos países socialistas, onde o Estado tem tudo e, então, em tese, poderia oferecer tudo, na Argentina o Estado não tem tudo, e os recursos têm de vir de outro lugar. Isso cria as constantes fricções.

O sr. crê que Cristina Kirchner fez a aposta correta para derrotar Macri, ao escolher Alberto Fernández como candidato e ficar com a vice?

Sem dúvida, e os números mostram isso. Cristina é desses políticos com avidez de poder, como são Trump, Fidel. Além disso, é inteligentíssima. Essa jogada de lançar Fernández, ampliar a base do eleitorado e entrar na fórmula como vice foi espetacular, e Macri sentiu. Quando reagiu, chamando o [peronista] Pichetto para ser seu vice, era tarde demais.

Macri não teve a sensibilidade para o impacto econômico de suas medidas na população de baixa renda. E foi por aí que perdeu a votação. De que adianta construir viadutos, estradas, aeroportos e não garantir que haverá comida para os trabalhadores?

Macri tem um gabinete de gente que se sente europeia, num país que não entende muito bem.

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