Bibliotecas de Pernambuco: depósitos do saber

De acordo com o levantamento realizado pelo Ministério da Cultura, o Nordeste é a segunda região do Brasil com mais bibliotecas públicas

Biblioteca mais antiga do Estado de Pernambuco, localizada dentro do Mosteiro de São Bento, em Olinda. Na foto, Irmão Daniel na biblioteca do Mosteiro de São Bento.Biblioteca mais antiga do Estado de Pernambuco, localizada dentro do Mosteiro de São Bento, em Olinda. Na foto, Irmão Daniel na biblioteca do Mosteiro de São Bento. - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Certa vez, Mário Quintana, um dos mais célebres poetas brasileiros, disse que “os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”. Antigos ou novos, perfilados em prateleiras de bibliotecas, eles ainda atraem leitores. De acordo com o levantamento realizado pelo Ministério da Cultura, o Nordeste é a segunda região do Brasil com mais bibliotecas públicas. Ao todo, são 1.844, ficando atrás apenas da região Sudeste, com 1.957. E o destaque dentro do Nordeste são justamente os pernambucanos que possuem a maior média de frequência em biblioteca da região, com os leitores retornando 3,7 vezes por semana ao local.

Nacionalmente, só fica atrás de Roraima, com 4,1 vezes no mesmo período. No País, essa média é de 1,9. Pernambuco possui bibliotecas com acervos superiores a 10 mil livros. Entre elas está a Biblioteca Pública de Pernambuco, a maior do Estado, com 280 mil livros e cerca de 375 mil periódicos, que não apenas contam histórias, mas também transformam vidas.

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Como a de Marinês Maria da Conceição, de 65 anos, e que, há 40, dedica seus dias ao local e adia a aposentadoria sempre para o ano que vai chegar. “Não consigo abrir mão da família que construí aqui dentro. Talvez no final de 2019”, brinca. Marinês, que entrou na biblioteca como auxiliar de serviços gerais, varrendo a sala do acervo. Da vassoura, passou para os livros, e se colocou para viver uma infinidade de possibilidades. “Aprendi a achar o que os leitores pediam. Fiquei nessa função por seis anos, até que desenvolvi uma alergia e fui para a portaria.” Passou outros sete anos pegando as bolsas dos frequentadores na recepção, vendo, aos poucos, tudo se transformar. “Antes as pessoas vinham aqui e tiravam xerox. Hoje ainda é muito frequentado, porque o espaço se informatizou. As pessoas continuam vindo para pegar livro e usar o computador”, diz. Marinês ainda trabalhou no balcão e, atualmente, está na área de circulante, entregando livros para os leitores associados.

Lá, é possível encontrar a obra raríssima “Manual de Confessores e Penitentes”, de Martin Azpilcueta Navarro, publicado em 1560, e que não pode ser manuseada por qualquer pessoa. “Temos um acervo de obras raras importantíssimo. Pelo cuidado com esse material, ele só fica disponível para quem solicitar e explicar porque precisa desse livro. Aqui também temos acervos de escritores pernambucanos, um espaço voltado para crianças e adolescentes, além da Praça da Informação, com 40 computadores disponíveis para os usuários”, explica Andréa Batista, chefe da unidade de atendimento ao usuário.

Em todas as salas é possível ver estudantes da rede pública, que saem das escolas do entorno para estudar no local. “Eles também vêm aqui para jogar. Porque as bibliotecas se reinventaram. Não é somente aquela ideia de livros. É a convivência, a interação, toda a possibilidade de vivência que você só encontra em um espaço como esse”, continua Andréa. A Biblioteca Pública de Pernambuco funciona em um prédio de 5.205 metros quadrados, com longos corredores e salas abarrotadas de livros etiquetados, alguns gastos pela passagem do tempo e das muitas mãos que manusearam as obras. “A gente está com um projeto de digitalização de obras que precisam ser preservadas, restauradas.” A biblioteca, que funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h45, em Santo Amaro, foi criada em 1852 pela Lei Provincial 293. Apesar da longa idade, perde o posto de mais antiga do Estado para a localizada dentro do Mosteiro de São Bento, no Varadouro, em Olinda.

Ela serviu à primeira turma do curso de direito de Pernambuco, o segundo mais antigo do Brasil, criado a partir de uma Carta Lei de Pedro I. A biblioteca foi aberta ao público em 1827 e hoje é uma relíquia de uso exclusivo da comunidade dos monges beneditinos enclausurados. De teto alto, estantes e móveis de carvalho, o peso da idade é percebido na sala escura e silenciosa que pouco serve aos 15 monges que vivem no local. “São livros de direito, do primeiro curso aqui de Pernambuco. Algumas obras são raras, antigas. Datam de 1824, em inglês, francês, holandês e até latim”, explica o irmão Daniel, enclausurado há dois anos no mosteiro e responsável pela manutenção da biblioteca. Escondendo as mãos dentro do hábito, cabeça baixa e de poucas palavras, irmão Daniel mostra a placa de bronze na entrada da sala. Ela traz o nome dos 41 primeiros bacharéis em direito de Pernambuco, formados em 1832. “Essa era a sala deles. O curso funcionava aqui, antes de ser transferido para o Recife. A biblioteca ficou e hoje ela é utilizada por nós.”

Biblioteca Comunitária
Na contramão da pouca usada biblioteca do mosteiro, está a bastante ocupada Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares, símbolo de resistência e união dentro da comunidade homônima, na Ilha do Retiro. Juliana Maria, de 15 anos, é uma das 70 crianças e adolescentes que diariamente vão ao local. “Foi aqui que eu aprendi tudo o que eu sei hoje e não imagino como poderia ter sido diferente. Perdi as contas dos livros que já li, mas sei que sou apaixonada pela literatura brasileira, apesar de o meu livro preferido ser de fora, ‘A Faca Sutil’”, conta. Reginaldo Pereira, de 35 anos, é um dos idealizadores da biblioteca comunitária. Ele conta que o lugar surgiu em 2005, em um espaço de 30 m² e com acervo de 800 livros. “Hoje temos 7.500 livros, em espaço próprio comprado em 2007 e estamos construindo aos poucos, para atender as 70 crianças que vêm diariamente.”

A Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares surgiu de uma parceria com a Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco. “As bibliotecas eram distantes, não tínhamos um espaço cultural. E aí surgiu essa ideia. Fomos capacitados pela faculdade e construímos nossa história aqui. Hoje, conseguimos fazer com que elas tenham o direito de acesso, para que um dia elas possam ter o direito de escolha. De escolher o que querem para a vida delas”, explica. O local funciona das 9h às 12h e das 14h às 16h e é mantida com a ajuda de doações, em livros e em dinheiro.

Além disso, a iniciativa conta com uma parceria com a cidade de Nantes, na França, uma das responsáveis pela conquista da sede própria. “Eles tinham uma parceria com a Prefeitura do Recife na construção de um prédio aqui perto, mas não usaram o recurso todo e doaram para que comprássemos o terreno.” Desde então, o prédio vem sendo construído aos poucos.

Da parceria com Nantes, surgiu uma amizade que dura até hoje entre os mediadores de leitura em comunidades daqui e de lá, promovendo intercâmbio de livros, além da criação de uma obra bilíngue feita pelas crianças da Caranguejo Tabaiares. “O livro conta história do Saci Pererê, da Mula sem Cabeça e do Boto, em português e francês. As crianças têm aula da língua estrangeira aqui, graças a voluntários que vêm ensinar e a uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco”, explica Reginaldo. “Não existe nada mais importante e transformador que os livros.”

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