[Fotos] Olinda expõe o desafio da manutenção de um Patrimônio Mundial

Após três décadas e meia de importância reconhecida pela Unesco, a Marim dos Caetés luta para conciliar sua história com a modernidade

Incentivo à pintura do casario de Olinda é um dos aspectos controversosIncentivo à pintura do casario de Olinda é um dos aspectos controversos - Foto: Alfeu Tavares

Há exatos 35 anos, o Sítio Histórico de Olinda recebia da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Cultural Mundial. Nesse tempo, o conjunto consagrado pela entidade internacional não ganhou mudanças esperadas e seu estado de conservação divide opiniões, como mostra esta série de reportagem que a Folha de Pernambuco publica estas quinta e sexta-feiras (14 e 15).

Caminhando pela Cidade Alta é possível observar elementos estranhos às construções, como exposição de postes e fiação elétrica, pichações e paredes e janelas rachadas. Moradores também reclamam de serviços básicos, como falta de água e esgoto. O barista José Flávio, 41 anos, sofre com o racionamento. “Há finais de semana que tem (água) e outros que não tem”, queixa-se. A médica Kaline Calheiros, 38, tenta administrar o consumo. “Tem dia que não dá para lavar roupas justamente para não gastar muita água”, explica.

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O Sítio nunca correu o risco de perder o título de Patrimônio Mundial, mas a conservação gera polêmica. O arquiteto e historiador José Luiz Mota Menezes, que ajudou na delimitação do espaço nos anos 1980, acredita que não há um tratamento “de patrimônio”. “Se você subir a ladeira dos Quatro Cantos para o Mercado da Ribeira, vai ver muitas casas com grades de ferro para fora. Antigamente Olinda era de cores brancas, como as cidades portuguesas. Hoje está um carnaval de cores. Não concordo”, opina.

A visão é rechaçada por entidades como o Centro do Patrimônio Mundial - braço da Unesco sediado na França; o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); e a Secretaria de Patrimônio e Cultura de Olinda (Sepac). César Moreno Triana, especialista de Programa para América Latina e Caribe do Centro do Patrimônio Mundial, confirma que não há graves ameaças ao conjunto arquitetônico.

“Apesar do desafio, que é a conservação, foram elaborados e postos em prática instrumentos apropriados para manter a integridade e autenticidade do Sítio”, comenta Triana. “O Centro Histórico de Olinda adotou nos últimos anos um Plano Mestre Integral que é bem adaptado a seu contexto e foi aprovado por inúmeros entes responsáveis pela preservação e conservação dos valores culturais e naturais do bem.”

Ainda para o especialista, o Plano Mestre de conservação “estabelece as condições necessárias para proteção” do Sítio. “As autoridades têm mostrado empenho em trabalhar com uma visão em prol do patrimônio, apesar das pressões urbanas - como melhora da infraestrutura - normais em sítios com essas características”, pondera.

Entre dois mundos
Tentativas de melhoria no Centro sempre são pensadas, mas o fator financeiro pesa. Frederico Almeida, técnico do Iphan no Estado, cita o embutimento da fiação e o saneamento. “Olinda deveria fazer esse serviço (de embutimento), mas em outras oportunidades se apresentava como uma obra muito cara. Teve algumas tentativas, mas recorrendo a técnicas mais baratas”, conta. O solo argiloso da Cidade Alta também é outro entrave. Escavações e movimentações na terra têm que ser controladas. “(O Iphan) não deixa fazer cortes nas colinas para evitar deslizamentos e problemas estruturais”, diz o técnico.

A água até chega à Cidade Alta, via Sistema Botafogo, caixa d’água do Alto da Sé e poços, mas o esgoto vai para fossas. Segundo a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) um projeto está sendo elaborado para viabilizar o saneamento. Outra iniciativa, Olinda +Água, prevista para ser executada em abril, visa tirar 15 bairros do rodízio de abastecimento.

O Iphan define o Centro Histórico por meio do tripé cultural constituído pelo equilíbrio entre casarios e monumentos; o verde das árvores; e o azul do mar. Manter os valores do passado com os tempos modernos não é tarefa fácil. “O que deu a Olinda o título de Patrimônio? Arquitetura, monumentos, paisagem, cultura. Temos que mostrar às pessoas a importância de preservar sua casa, não alterar a fachada, o teto, não arrancar uma árvore do quintal, já que foi esse conjunto que tombou o Sítio”, indica o secretário Gilberto Sobral, da Sepac. “Conservar e preservar é caro e implica em profissionais especializados. E você esbarra em dificuldades financeiras, de pessoas especializadas e com a lei”, analisa.

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