Leishmaniose, um risco em ascensão em Pernambuco

Doença tem alto percentual de morte se não tratada a tempo

Médica Regina Coeli começou a investigar perfil dos óbitos da enfermidadeMédica Regina Coeli começou a investigar perfil dos óbitos da enfermidade - Foto: Gustavo Gloria/Folha de Pernambuco

A Folha de Pernambuco inicia nesta edição uma série, em dois dias, de reportagens sobre o aumento da leishmaniose visceral (LV) humana no Estado. A doença tem alto percentual de morte se não tratada a tempo. Nesta matéria, é mostrado o cenário atual da enfermidade que, nos dois últimos anos, teve alta de 44,5%. Assim como a febre amarela, a malária e as arboviroses, a LV é transmitida pela picada de um inseto, o mosquito-palha.  Na edição de quarta-feira (31), a reportagem abordará a vigilância animal e vetorial.

Foram a perda acentuada de peso, o crescimento do abdômen e uma febre recorrente que fizeram a mãe de João Miguel, 2 anos, a dona de casa Aline Viana dos Santos, 22, buscar ajuda médica para o menino, na cidade de Águas Belas, no Sertão pernambucano, no fim do ano passado. O quadro se arrastava por quase um mês. O que para ela poderia ser reflexo do nascimento dos dentes do bebê começou a virar pesadelo assim que entrou em uma unidade de saúde. As suspeitas sobre o que o garoto poderia ter se multiplicaram: de uma severa anemia até uma possível leucemia. Até que algumas semanas depois a confirmação de exames, já no Recife, atestou a leishmaniose visceral (LV), popularmente conhecida como calazar. A enfermidade, que está no rol dos males negligenciados, tem apresentado novo crescimento em Pernambuco, conhecidamente área endêmica. Desde 2014, os casos notificados ao ano estão acima de 300 e os confirmados acima de 100. Em 2017, foram confirmados 172 doentes, volume 44,5% maior do que no ano anterior. O cenário epidemiológico deixa em alerta as autoridades de saúde.

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No leito do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), na região central do Recife e referência pernambucana no trato de LV, o pequeno Miguel nem lembra o menino agitado de outras épocas. “Ele não pode ficar fazendo muita coisa. Os remédios são fortes e é perigoso por causa do baço e do fígado crescidos. Ele não pode se machucar ou cair”, explica a mãe. O inchaço da barriga devido ao aumento desses órgãos é o sinal mais visível da doença. Aline Viana contou que, além do filho, outra criança de Águas Belas esteve internada no HUOC em dezembro, informação validada pelo hospital.

A notícia desses dois casos confirmados na cidade tirou o sossego da comunidade, que aponta ainda a falta de pulverização contra os mosquitos e inexistência de testes rápidos para os cães no município. “O povo está desesperado. Tenho outra filha de 4 anos e mandei minha mãe fazer um hemograma nela para ver se dava algo alterado. Mas, graças a Deus, está tudo bem com ela.” A mãe acredita que o adoecimento do filho teve relação com uma cadela da família com a qual Miguel vivia brincando e que também adoeceu e precisou ser eutanasiada. O menino passou mais de um mês internado para o tratamento no HUOC e recebeu alta médica há uma semana.

A Prefeitura de Águas Belas diz ter tomado medidas de bloqueio contra os insetos, mas afirma ter tido dificuldade com relação ao inseticida que é o mesmo usado na combate ao vetor da Doença de Chagas. A gestão informa ainda que de novembro de 2016 até a primeira semana de 2017 foram confirmados cinco casos de LV em humanos. Todos foram em menores de 12 anos de idade.

As crianças
“Estamos vendo um aumento de leishmaniose em homens, mas principalmente em crianças. Talvez porque nos pequenos a exposição (ao vetor) seja maior”, afirma a infectologista pediátrica do HUOC Regina Coeli. Do total de casos confirmados na população em geral, no ano de 2017 (172), 70 são de meninos e meninas até os 9 anos de idade. Desses, 46 casos estão distribuídos entre crianças de apenas 1 a 4 anos. Problemas de imunidade e desnutrição entre os pequenos também facilitam a transmissão. Não só o adoecimento, mas a mortalidade entre eles é recorrente.

A médica indica que os óbitos, de forma geral, estão muito relacionados à descoberta tardia da doença. “É preciso atenção para as pessoas que vivem em áreas endêmicas, em pensar nesse diagnóstico de início. Muitas vezes isso só acontece depois de dois meses de febre e de perda de peso”, lamentou. O retardo no início do tratamento piora a situação das plaquetas, os riscos de infecções e as chances de sangramentos, além de prolongar a internação hospitalar e a incerteza sobre o resultado dos remédios. A médica iniciou um estudo para investigar possíveis gargalos da mortalidade de leishmaniose visceral nos pernambucanos. Desde 2014, as mortes pela doença têm ficado acima de dez anualmente. Ano passado, foram 16 óbitos, 6,6% a mais que em 2016. Entre as mortes, seis foram de crianças até 14 anos de idade.

Os adultos
Além das crianças, os casos entre os adultos do sexo masculino também são constantes. De acordo com o infectologista Demetrius Montenegro, por mês, ao menos dois pacientes dão entrada no HUOC com a suspeita de leishmaniose. Nesse público adulto, um complicador da enfermidade é a coinfecção pelo vírus HIV, que, junto com a leishmaniose, pode deprimir ainda mais a resposta do paciente ao tratamento.

O especialista destaca que, além do acometimento do baço e fígado, a LV compromete a medula óssea, onde são produzidas as células de defesa do organismo. Outro grupo com maior chance de contrair a doença e de ter complicações é o de transplantados. Montenegro também reforça que os profissionais de saúde devem estar mais sensíveis na suspeição de leishmaniose em pessoas que moram em áreas de risco e apresentam febre, anemia e aumento do baço e fígado. A suspeita pode ser feita apenas com base clinica, mas deve ser confirmada com exames laboratoriais. Entre eles, um mielograma (punção da medula) e uma sorologia.

A urbanização da doença
Especialistas de várias áreas da saúde concordam que há uma mudança de padrão da LV em curso. E isso pode explicar o aumento que a doença vem tendo no Estado, mas também em outras partes do Brasil. Historicamente, relacionada a áreas silvestres, a doença está se urbanizando. Mesmo se mantendo com maioria de casos no Interior - entre as 11 cidades pernambucanas com maior ocorrência da doença apenas uma fica na RMR -, a leishmaniose visceral tem invadido os centros desses pequenos municípios que avançam sobre áreas de mata numa urbanização precária e perigosa.

“Normalmente, esta doença é silvestre. No entanto, com o homem invadindo e fazendo desmatamento na região, o mosquito que transmite o parasita tende a se aproximar mais da área urbana para sobreviver. É o instinto de sobrevivência do transmissor. E é provavelmente isso que esteja mudando o perfil epidemiológico da região”, sugere Demetrius Montenegro. O gerente de Vigilância e Controle de Zoonoses do Estado, Francisco Duarte, reitera que está no desequilíbrio ecológico um dos principais sinais vermelhos para a doença na contemporaneidade e o impacto fica claro quando se observa o crescimento de adoecimento humano.

“Isso está acontecendo não só no Estado, mas em todo Nordeste. Quando estudamos leishmaniose no passado dizíamos que ela era uma doença de ‘pé-de-serra’ e ‘boqueirão’, mas hoje temos LV nas cidades. Em Petrolina, a doença esta em bairros residenciais. Em Caruaru também. Na divisão de Rio Doce, em Olinda, com Janga, em Paulista, também há risco. A doença se urbanizou”, alerta.

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