Multinacionais reagem contra queimadas na Amazônia e podem desencadear boicote

De acordo com especialistas, multinacionais de Estados Unidos e Europa evitam se associar a políticas ou a governos que rompam com a ideia de preservação e sustentabilidade, como hoje é o caso do Brasil

AmazôniaAmazônia - Foto: Lula Sampaio/AFP

A crise gerada pelas queimadas na Amazônia e a escalada retórica de Jair Bolsonaro (PSL) sobre o tema começam a desagradar a multinacionais e podem desencadear um boicote do setor privado a produtos brasileiros.

Essa é a conclusão de especialistas que afirmam que o ambiente mobiliza cada vez mais a opinião pública nos Estados Unidos e na Europa e tem gerado preocupação institucional nas empresas. Segundo eles, multinacionais dessas regiões evitam se associar a políticas ou a governos que rompam com a ideia de preservação e sustentabilidade, como hoje é o caso do Brasil.

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Na semana passada pipocaram várias reações. A VF Corporation, com sede no estado americano da Carolina do Norte, anunciou que 18 de suas marcas, incluindo Kipling, Timberland e Vans, estavam suspendendo a compra de couro brasileiro após notícias que relacionavam os incêndios na floresta ao agronegócio.

Duas das maiores comercializadoras de grãos do mundo, que também têm sede nos Estados Unidos, a ADM (Archer Daniels Midland) e a Bunge, soltaram comunicados para deixar claro ao mercado que não compram produtos de novas áreas desmatadas na Amazônia e que utilizam satélites de monitoramento para garantir políticas ambientais.
Por sua vez, a norueguesa Mowi ASA -maior produtora de salmão do mundo- ameaçou interromper as aquisições de soja do Brasil.

"O risco agora é ter boicote de consumidores. Esse é um custo direto criado e exacerbado pela retórica de Bolsonaro", afirma Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria Eurasia.

Um setor que ainda pode sentir pressão de consumidores é o da indústria da carne.
A expectativa no mercado, porém, é que o impacto na economia brasileira seja de curto prazo, visto que os governos americano e de países europeus não devem aplicar sanções ou restrições às importações brasileiras.

O presidente Donald Trump é um aliado declarado de Bolsonaro, e qualquer acordo para bloquear a compra de produtos pela Europa, por exemplo, custaria negociações mais complexas na União Europeia.

Somado a esses fatores, os especialistas avaliam que as queimadas devem diminuir com a chegada das chuvas no fim do ano, o que tende a reduzir também a repercussão internacional sobre o assunto.

Além do reflexo sobre as empresas multinacionais e seus clientes, o impacto da crise na Amazônia ainda poderia chegar aos fundos de investimento chamados ESG (Ambiente, Social e Governança, na sigla em inglês), bloqueando aporte de recursos no país. Criados há cerca de 15 anos, eles possuem cláusulas que limitam os investimento apenas em empresas ou países que sigam determinadas regras ambientais.

Muitos desses fundos têm restrições para apoiar negócios que possam afetar a saúde ou trazer riscos sociais e ao meio ambiente, como a indústria de tabaco, os negócios vinculados ao carvão ou metalúrgicas.

Segundo Alvaro Mollica, estrategista em Nova York para a XP Investimentos, esse tipo de fundo, no entanto, não tem presença marcante em países como o Brasil. É mais comum em nações desenvolvidas. Já os grandes investidores ainda não se mexeram impulsionados pelo tema.

"Eles costumam tomar decisões mais lentas. Podemos dizer que o discurso de Bolsonaro não afetou quase nada, mas também não ajudou a levar mais dinheiro ao Brasil."

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