O frevo está em constante movimento

Inserir uma nova roupagem ao ritmo, sem descaracterizá-lo. Esse é o desafio que artistas de diferentes gerações assumem diante do gênero pernambucano

No espetáculo "Baile Frevo Roots", Camila Ribeiro incorpora clássicos a canções autoraisNo espetáculo "Baile Frevo Roots", Camila Ribeiro incorpora clássicos a canções autorais - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

É difícil ouvir um debate sobre o frevo que não acabe batendo na mesma tecla da necessidade de renovação. Isso porque não é incomum a visão de que o gênero musical ficou parado no tempo, ultrapassado ou rebaixado ao posto de atração turística de um período específico do ano. A realidade, no entanto, mostra uma cena musical ávida por manter o ritmo pulsando. Seja através de experimentações sonoras ou por meio de composições novas, artistas de diferentes gerações e formações tentam dar uma cara renovada a essa centenária manifestação cultural pernambucana.

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A instrumentista, compositora e arranjadora Camila Ribeiro é uma das atuais promessas de continuidade deste legado musical. No final do ano passado, ela lançou o espetáculo solo "Baile Frevo Roots", que agrega clássicos do gênero e canções autorais. "Na verdade, minha área de pesquisa é o world music. Misturo elementos da música africana e da cultura popular brasileira. Nesse sentido, surgiu a vontade de empregar essa bagagem em um ritmo que é da minha terra", conta a multiartista, que pretende transformar o projeto em disco até o final do ano.

Outros nomes se juntam ao de Camila e reforçam o coro daqueles que acreditam no processo de modernização do frevo. Na seara dos intérpretes, o cantor Romero Ferro se destaca com a série de shows "Frevália", que foi lançada em 2017 e ganha mais uma apresentação no palco do festival Rec-Beat, na terça-feira de Carnaval. Com músicas de novos compositores e canções já consagradas, o repertório propõe uma releitura do estilo com pegada pop. A ideia é atrair ouvintes para além dos quatro dias de folia.

  
Essa experimentação com o mais pernambucano dos ritmos não vem de agora. Lançado originalmente há dez anos, o disco "Frevo do Mundo" inovou ao unir a tradição dos metais com novos arranjos e texturas sonoras. Com interpretações de artistas como Edu Lobo, João Donato, Céu, China, Siba, Eddie, Orquestra Imperial, Mundo Livre S/A, Cordel do Fogo Encantado e Spok, as faixas entraram nas plataformas digitais no final de janeiro.

"Estamos preparando um segundo volume para o final deste ano. Já temos músicas gravadas com Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Siba, Céu e Tulipa Ruiz", adianta Marcelo Soares, diretor do Estúdio Muzak e produtor do álbum em parceria com Pupillo, baterista da Nação Zumbi.

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A hibridização com outras sonoridades parece ser a fórmula encontrada por boa parte dos artistas de frevo para dar um novo ar ao gênero. "Há exemplos bem-sucedidos de fusões com outros ritmos. A banda Eddie vem fazendo isso muito bem com o rock. O maestro Spok também faz isso, só que usando o jazz. Também há quem pegue músicas de outros estilos e coloque dentro da estrutura do frevo, funcionando bem. O frevo é o mesmo, só a roupagem é que é mais contemporânea", aponta Marcelo.

Com mais de 20 anos de carreira, o músico Luciano Magno é adepto da introdução da guitarra no frevo. Ele, inclusive, criou uma metodologia para o uso do instrumento eletrônico no gênero carnavalesco, ensinada no livro "Guitarra no frevo". Para o cantor, instrumentista e compositor, qualquer modificação feita no estilo musical deve ser cuidadosa. "É necessário que exista uma pesquisa. Não poder seu algo aleatório. Você pode desconstruir, mas seguindo certos critérios, para não descaracterizar o ritmo. A célula rítmica, que é fundamental, essa não pode ser alterada", defende.

No mês passado, Luciano divulgou o clipe da música "Esquentadinho", composição sua que venceu o Festival de Música Carnavalesca do Recife, em 2009 - e ganhou letra de Morais Moreira, no ano seguinte. O músico, que recebeu outros três troféus no concurso, lamenta a descontinuidade do festival, cuja última edição ocorreu em 2011.



"Era um estímulo para a criação de novos frevos, uma forma de fazer com que novos talentos se interessassem pelo estilo", diz. É com bons olhos que ele enxerga o anúncio de que a Prefeitura do Recife vai retomar a competição, agora com o nome de Festival de Frevos. Visando premiar composições cinco categorias, o evento abre inscrições entre 19 de fevereiro e 30 de março. Agora é esperar para ouvir quais frevos novos vêm por aí.

Discos 2018

"Bloco, troças e foliões", André Rio - Seleção de composições autorais inéditas, como "Galo, 40 anos de folia" e "Lá vem o Homem da Meia Noite", além de hinos de agremiações carnavalescas pernambucanas tradicionais.

"Frevotron", DJ Dolores, Spok e Yuri Queiroga - Lançado em 2015, o projeto foi lançado em disco físico no ano passado. A obra traz uma mistura de elementos do frevo com batidas eletrônicas.

"Getúlio Cavalcanti - 55 anos depois!", Getúlio Cavalcante - O cantor e compositor comemora mais de meio século de carreira musical com 17 composições inéditas.

"40 anos do Galo", Som da Terra - A banda faz uma homenagem às quatro décadas do maior bloco carnavalesco de Pernambuco, apresentando releituras de canções que fazem sucesso durante o desfile.

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