O invisível a olho nu

Eu quase nada sei, mas desconfio de muita coisa. Tenho quase certeza que minha saída foi um alívio para minha mãe.

Sebastião atualmente tem o comando da legenda. Anderson quer levar o PR para a oposição em PernambucoSebastião atualmente tem o comando da legenda. Anderson quer levar o PR para a oposição em Pernambuco - Foto: Wagner Ramos / Artur Mota

"Eu sou nordestino, minha família reside onde nasci. Vim pra rua foi por independência, com 8 anos. Via a dificuldade da minha mãe e do meu pai para botar o feijão na mesa. Tinha muitos pratos e quis ajudar: tirei um. A pessoa tem que admitir que já está criado, mesmo que não queira, mas por esses que deram amor e carinho. Aí saí. Mas foi uma perda fatal para o meu coração, sempre que vejo pessoas caminhando com seus pais, lembro. A colheita é comum, mas capinar é sozinho.

Eu quase nada sei, mas desconfio de muita coisa. Tenho quase certeza que minha saída foi um alívio para minha mãe. Era demais para um coração de 17 filhos. Já saí de casa pensando em trabalhar. Eu falhava: ia por outro caminho e a escola ficava para trás. E minha mãe é linda, sabe, amiga? Várias vezes ela tentou me levar de volta, mas fico dando perdido. É difícil pra ela. Eu vou lá, mas demoro a ir, porque deixo muita saudade quando vou embora. Só quero voltar para ajudar, velho, não quero mais voltar para atrapalhar não.

Aquela moça? Ela é minha irmã por parte de Deus, e sua irmã também, porque pisa na mesma terra que você. Veja, não tenha essa ilusão! Eu vou dizer uma coisa: o negócio não é se acostumar a estar na rua, você não se acostuma nunca! Dentro de casa já está provado que não, imagine na rua. Mas você tem que ter opção, você tem que ter alternativa. E eu tive. Deus dá com uma mão e o diabo tira com a outra, você não sabe?

Viver é perigoso demais, velho. Na rua, então... já tentaram colocar fogo em mim umas nove vezes. Não sei porquê, parece que era tudo coordenado. Mas o primeiro susto que tive na rua foi saber que meu pai e minha mãe estavam sofrendo porque eu tinha saído de casa. Um susto e tanto. Aqui passo um dia ou dois sem comer, mas não me importo porque no outro dia ganho em dobro, em triplo. Engraçado isso, né? Moro na rua, mas não me sinto sozinho nem um minuto. Nunca me senti vazio de alguma coisa, faço tudo que quero, não porque os outros querem ou porque o sistema pede. Sou livre, pô!

Eu já fui roubado diversas vezes! Ó eu descalço, ó. Levaram até meu chinelo. Às vezes eu to dopadão, to sinistro, aí vacilo mesmo. Eu me dopo com tudo, só não dou muito valor a álcool, mas o que pintar tomo, mesmo fazendo careta. Só que álcool me tira de mim, entra outra pessoa, é uma viagem. Mas não adoeço, tenho prontuário do SUS, mas nunca precisei. Vou pra terra mesmo, quero saber de porra nenhuma. Jesus aguentou uma dor da porra, eu não posso aguentar uma dorzinha?

Órfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões. Eu tive a chance de fazer uma menina, mas não pude criar, até porque era uma fêmea e eu decidi me sair. Vê que situação... eu mesmo aliviando de um lado, deixei um trajeto perigoso do outro. Mas minha mãe quis de todo jeito, aí ela registrou no nome dela. É uma preocupação também na minha cabeça porque é uma coisa da minha responsabilidade, mesmo eu desatuando. Chego junto, converso, claro, mas não me declaro. É melhor assim. Ela ainda era bebê, ela aceitou e acabou-se, né não? Não tem nem como desprogramar, dizer que sou o pai. Ela vai dizer que estou mentindo.

Ah, eu acredito muito em Deus, mas tenho com ele uma relação afastada, porque Deus não é brincadeira. Nem rezo nem peço proteção, porque desde que eu nasci que Deus me vela. Eu acho mais natural ser tipo homem da caverna, não dou valor a um pedaço de pau. A ignorância está em todo canto e eu não quero passar por isso não, moça.

Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus, existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de agente perdido no vai-vem, e a vida é burra. Mas é, Deus está perto de mim a todo instante, sem falhar, principalmente porque eu sou mais um de todos vocês.

Eu acho que as pessoas não me veem, têm medo de mim, e muito. Eles me veem assim, meio cavernoso, descalço, sem camisa e obscuro. E eu não posso evitar. Porque não basta querer, eu preciso ser. Já tentei arrumar emprego, mas todos me desqualificaram, alguns nem me receberam. Aconteceu da vaga estar escrita na porta e dentro tive uma boca gritando bem alto que não. Como é que ele ia saber que eu não vou ser capaz, se não houve pelo menos um teste? Por que a pessoa consegue ser o que quiser, o homem vai além. No sertão, até enterro simples é festa. Mas, se eu tivesse uma casa deixaria as drogas. Ia querer minha própria família, minha independência.

Diabo? Existe, eu já vi, moça, e é muito feio. Mas numa boa história, numa cena, ele se torna bonito e você não deixa de querer ele. Parece um imã. Mas é feio, é triste, é horroroso, é melhor você puxar um livro que fale sobre Jesus Cristo logo, para sumir toda a escuridão. Me diz, você soltava Jesus ou soltava Barrabás? Jesus!? Aí tu ia desprover a programação toda, porque aquilo tudo já era programado para acontecer.

As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas. O mundo não é ruim não, ruim é você. As pessoas é que tão mudando o sistema, mas o mundo nunca mudou. Pode estar com calçamento, com outras árvores, mas o mundo é o mesmo. As pessoas é que estão diferentes. Eu mudei, o mundo, não. Não sei pra você, mas o mundo é o mesmo para mim. A melhor coisa de morar na rua foi descobrir que as pessoas são o contrário do que estava no meu pensamento. São elas, as pessoas, o melhor. Eu aprendi a conhecer essa gente antes de desqualificar elas, conheci gente maravilhosa aqui e não quero perder. Mas o pior de morar na rua é você sofrer atentados, então o pior também é o humano.

Amor? A turma bota escrito - no braço, no peito, na coxa, na bunda -, mas só de mãe! Se Jesus não vier, só de mãe. Fazer o que? Eu não tenho amor nem por mim. Eu quero viver como eu fui programado, e quando eu nasci, nasci sem roupa nenhuma. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito e não sabe, não sabe, não sabe.

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