O levante de 1817 também é conhecido como a “Revolução dos Padres”

Participação dos clérigos foi fundamental para a articulação do movimento em Pernambuco, que culminou no rompimento com o império lusitano

Pelo menos 70 padres participaram da RevoluçãoPelo menos 70 padres participaram da Revolução - Foto: .

O levante de 1817 também é conhecido como a “Revolução dos Padres”. Isso porque a participação dos clérigos foi fundamental para a articulação do movimento em Pernambuco, que culminou no rompimento com o império lusitano. A implicação da igreja neste processo se iniciou 17 anos antes, com a fundação do Seminário de Olinda, pelo Bispo José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho. Nele, os sacerdotes entraram em contato com o iluminismo europeu e passaram a defender profundas transformações de ordem social.

O século 18 foi marcado por uma avalanche de teorias liberais. Nesta época, Portugal foi influenciado pelas ideias iluministas, encampadas pelo primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal, que promoveu uma ampla reforma na Universidade de Coimbra. Em sua administração, a igreja lusitana incorporou os novos paradigmas para modificar seus próprios valores.

O fortalecimento da “Teologia da Ilustração”, que valorizava a natureza e a racionalidade como forma de conhecimento, ganhou eco no Brasil com a criação do Seminário de Olinda. A formação dos sacerdotes admitia, inclusive, uma nova grade curricular, que contava com ensino de História Natural, Astronomia, Artes, Matemática, Botânica e Geografia. “Eles eram responsáveis por levar, para as paróquias do interior, a ideia de colocar a ciência a serviço da população”, explica o presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano , George Cabral.

Assim, em 1817, os padres formados pelo seminário aderiram à revolução e atuaram diretamente na luta armada. Pelo menos 70 membros do clero participaram do levante e assumiram diversas funções, como capitães de guerra e até soldados. Se destacou, neste movimento, o padre Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Miguelinho, que viajou à Lisboa para estudar e, lá, se encontrou com Azeredo Coutinho. Na volta, assumiu a cadeira de retórica no Seminário de Olinda, em 1800. Porém, com a repressão do movimento, foi condenado e fuzilado, no dia 12 de junho de 1817. Terminou por se tornar um dos mártires da revolução.

Outro ícone do levante foi o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, que chegou a presenciar a Revolução Francesa de 1789 e pertenceu à Academia Real de Ciências de Lisboa, antes de chegar ao Brasil. Ele se tornou professor de desenho do Seminário de Olinda e, com o triunfo da Revolução, ocupou uma vaga no governo provisório, que contava com cinco membros. O padre foi responsável por criar, inclusive, a bandeira da República que, posteriormente, se tornou a bandeira de Pernambuco.

João Ribeiro se enforcou após a batalha do Engenho Trapiche, perto de Serinhaém, onde as forças republicanas foram derrotadas pelo exército monarquista da Bahia. Ao retomar a posse da Capitania, o exército exumou o corpo do padre e colocou sua cabeça na ponta de uma vara, nque ficou exposta no centro do Recife por dois anos.

Maçonaria
Muitos dos padres que encabeçaram a revolução faziam parte de sociedades secretas, como a Maçonaria, que era proibida em Portugal e sua colônia. Ainda em 1796, na cidade de Itambé, na Zona da Mata pernambucana, foi fundada a primeira loja maçônica do Brasil. No Areópago de Itambé, idealizado pelo ex-frade carmelita Manuel Arruda Câmara, foi dado o primeiro passo para consolidar o movimento libertário.

“Naquele ano, Arruda Câmara havia acabado de voltar do doutorado em medicina em Montpellier, na França. Então ele já veio com a ideia de tornar Pernambuco independente, sob o protetorado de Napoleão Bonaparte”, conta Gilvan de Oliveira, membro do Aerópago.

Em 1801, aconteceu, então, a Conspiração dos Suassuna, que contou com a participação da família Cavalcanti de Albuquerque, proprietéria do Engenho Suaçuna, que daria nome ao movimento. Porém, o grupo foi reprimido pelas autoridades da capitania.

Em 1802, o Aerópago foi fechado, mas voltou a funcionar tempos depois no mesmo engenho, que serviu de palco para reuniões entre os revolucionários.

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