Secretário de Trump ataca compra de arma russa pela Turquia

A preocupação citada por Esper diz respeito ao plano turco de comprar o mais sofisticado caça americano, o F-35

TrumpTrump - Foto: Alan Santos/Presidência da República

O secretário de Defesa apontado pelo presidente Donald Trump, Mark Esper, afirmou nesta terça (16) que a Turquia não pode ter caças F-35 norte-americanos e o sistema de defesa aéreo russo S-400 ao mesmo tempo.

Foi a mais dura reação contra a aquisição do S-400, armamento que começou a ser entregue para Ancara na sexta (12) após três anos de negociações, vinda de um alto oficial do governo americano. Esper, que ainda espera sua aprovação pelo Congresso, é o secretário do Exército da gestão Trump e teve sua fala no Senado americano relatada por agências de notícias.

Não sem motivo, o presidente em si não se manifestou. O motivo central é estratégico: os EUA não querem alienar o segundo maior exército da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar liderada por Washington (Otan), embora a rota estabelecida seja de colisão.

Isso porque uma lei americana de 2017 determina a aplicação de sanções econômicas contra países que façam compras militares importantes da Rússia. Os S-400, talvez os mais avançados sistemas antiaéreos de longa distância do mundo hoje, custaram cerca de US$ 2,5 bilhões (pouco menos de R$ 10 bilhões) aos turcos.

A preocupação citada por Esper diz respeito ao plano turco de comprar o mais sofisticado caça americano, o F-35. A entrega dos primeiros exemplares foi congelada pelos EUA na esteira da confirmação da compra dos sistemas russos, mas a situação é mais complexa: a Turquia é parceira de lançamento do avião, que tem partes de sua fuselagem e turbina feitas no país.

Tecnicamente, os militares americanos se preocupam com o fato de que o S-400 é um sistema desenhado, entre outras coisas, para derrubar aviões com tecnologia furtiva ao radar, como o F-35 –os famosos "aviões invisíveis", que na realidade não são tão invisíveis assim.

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O temor é ter F-35 turcos voando em espaço controlado pelo S-400. Assim, técnicos russos que darão apoio à manutenção e à operação do sistema antiaéreo teriam, em tese, acesso a dados de performance do avião americano coletados pelos radares do armamento. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, diz que isso não irá acontecer, e que os sistemas estarão todos instalados em abril de 2020.

Com capacidade de atingir alvos a até 400 km de distância, o S-400 é o melhor de sua categoria no mundo, diz relatório da consultoria americana Stratfor. Ela ressalva, contudo, que um batalhão com oito lançadores (cada um com quatro tubos para mísseis) pode ser destruído em um ataque concentrado de mísseis se não estiver apoiado por outros sistemas antiaéreos.

Mas o nó principal é estratégico mesmo, já que Ancara está cada vez mais próxima da Moscou do presidente Vladimir Putin, que marcou um gol político contra seus adversários ocidentais ao emplacar a venda.

Os países forjaram uma aliança para lidar com a guerra civil síria, na qual Moscou interveio decisivamente em favor da ditadura de Bashar al-Assad em 2015. É um acerto frágil ainda, mas que tem se desenvolvido e começa a incomodar bastante os americanos.

Trump tenta ganhar tempo. No encontro do G20 em Osaka, no mês passado, ele comentou que a "culpa não é do Erdogan" no episódio, citando anos de protelação ocidental em fornecer baterias antiaéreas eficazes para o único membro islâmico e no Oriente Médio da Otan.

O que ele não falou foi sobre sua negativa em extraditar o clérigo islâmico que Erdogan acusa de ter organizado uma tentativa de golpe contra si em 2016. Ou sobre a recusa sistemática da União Europeia de absorver um país muçulmano ao longo dos anos. Todos esses são motivos centrais para os turcos.

O presidente americano terá de fazer uma escolha difícil. Sanções parecem inevitáveis, além do veto ao F-35 com cores turcas, mas isso significará atacar um aliado central dos EUA numa das regiões mais voláteis do mundo. Analistas especulam até se Ancara poderia deixar a Otan, como a França fez durante anos no passado.

Putin, por sua vez, emprega o pragmatismo que lhe é típico, aproveitando mais uma falha diplomática americana no Oriente Médio. Sua aliança com Erdogan, com quem divide o conceito de um regime de homem forte, é tática: ambos os países têm interesses estratégicos diferentes sobre como influenciar o Oriente Médio e a Ásia Central. Por ora, é o que basta ao Kremlin.

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