Sepultamentos sobem desde janeiro em SP; em abril, alta foi de 50%

A avalanche de mortes forçou a prefeitura a criar um plano de guerra, com objetivo de evitar enterros em valas coletivas, como aconteceram em outros países e no Brasil

Coveiros preparam covas em cemitério de Vila Formosa, em São PauloCoveiros preparam covas em cemitério de Vila Formosa, em São Paulo - Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

Os sepultamentos na cidade de São Paulo já vêm aumentando desde janeiro e subiram 50% em abril, com 2,7 mil mortes a mais, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Desde o início do ano, a cidade de São Paulo também apresentava trajetória de alta mortes por doenças respiratórias, segundo os dados da prefeitura.

A administração da capital não informou se há alguma apuração que relacione mais enterros e mortes na cidade a um eventual início da ação do coronavírus anterior ao primeiro caso oficial, anunciado em 26 de fevereiro. Estudo mostrou que o vírus já circulava no país desde o início do ano.

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Dados do Serviço Funerário Municipal, obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostram que os sepultamentos em São Paulo subiram de 5.537 para 6.391 em janeiro, na comparação com o mesmo mês de 2019, uma variação de 15%. Nos meses seguintes, as altas continuaram, sempre comparando com os respectivos meses do ano anterior: 21% em fevereiro, com variação de 4.923 para 5.976; e 27% em março, que passou de 5.590 para 7.075. A maior variação se deu em abril, que passou de 5.513 sepultamentos para 8.284, um aumento de 50%. Embora haja indícios casos de coronavírus a partir do fim de janeiro e no início de fevereiro, só após o primeiro diagnósticos os testes passaram a se disseminar, ainda que abaixo do que indicam diversos especialistas.

Os mortos passaram a ser testados com prioridade e o governo João Doria (PSDB) afirmou ter acabado com a fila -pessoas com sintomas leves passaram a ser testadas apenas recentemente e assintomáticos ainda estão contemplados. Antes dos primeiros diagnósticos de coronavírus, o número de óbitos por doenças relacionadas ao aparelho respiratório também vinham apresentando ligeira alta. Eles passaram de 810 para 843 em janeiro, um aumento de 4%. Já em fevereiro, passaram de 651 para 739, alta de 12%.

Nesse primeiro bimestre, por exemplo, em números absolutos, as principais altas ocorreram nas categorias de pneumonia por microorganismo não especificado (de 758 para 866) e outras doenças pulmonares obstrutivas crônicas (de 318 para 346).
Em março, houve um aumento bem maior, de 51%, já com com casos incluídos na categoria síndrome respiratória aguda grave, onde se encaixa o coronavírus. Naquele mês, eles passaram de 752 para 1.138 mortes, na comparação com o mesmo período de 2019. Os dados de abril são parciais, mas já mostram uma explosão de casos. Passaram de 795 para 2091, um aumento de 160%.

Segundo estudo da Fiocruz, o vírus já circulava desde o fim de janeiro e passou a ter transmissão comunitária no início de fevereiro. "Esse período bastante longo de transmissão comunitária oculta chama a atenção para o grande desafio de rastrear a disseminação do novo coronavírus e indica que as medidas de controle devem ser adotadas, pelo menos, assim que os primeiros casos importados forem detectados em uma nova região geográfica", afirmou o pesquisador do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz, Gonzalo Bello, coordenador da pesquisa, na ocasião do lançamento do estudo.

A reportagem procurou a fundação nesta semana pedindo entrevista sobre o assunto, mas a assessoria de imprensa afirmou que os autores do estudo estavam indisponíveis. A Folha de S.Paulo também perguntou se a gestão Bruno Covas (PSDB) investiga o aumento das mortes anterior ao primeiro caso oficial, em 16 de março, mas não obteve resposta sobre este ponto específico.

Nos sistema funerário municipal da cidade, trabalhadores afirmaram que só a partir de março o aumento passou a ser visível, uma vez que ficou diluído entre 22 cemitérios públicos, um crematório, além dos cemitérios privados. A média diária de sepultamentos passou de 179 para 206, em janeiro; em fevereiro, saiu de 170 para 206; e, no mês seguinte, o salto foi de 180 para 228. Em abril, quando a epidemia já crescia a níveis bem maiores, passou de 183 para 276.

A avalanche de mortes forçou a prefeitura a criar um plano de guerra, com objetivo de evitar enterros em valas coletivas, como aconteceram em outros países e no Brasil. Os cemitérios da capital também atendem pessoas de outras cidades.
O plano prevê a abertura de 13 mil covas e contratação de um reforço de 200 sepultadores.

Na última semana, a reportagem esteve nos cemitérios da Vila Formosa (zona leste), São Pedro (zona leste) e São Luiz (zona sul), unidades públicas que atendem parte importante dos óbitos da população na periferia da cidade, a mais afetada pela doença. No cemitério São Luiz, há um grande descampado com mais de 3 mil covas abertas. Há um mês, quando a Folha esteve no local, ainda havia árvores por ali.

Na Vila Alpina (zona leste), foi instalado um cemitério vertical. A gestão Covas também contratou caminhões frigoríficos. Os cadáveres que chegam à noite aguardam no cemitério até o início dos enterros. Segundo os trabalhadores, o dia a dia dos sepultadores tem começado já com estoque de corpos, que se soma aos que chegam durante o dia.

O medo é grande entre os agentes sepultadores, que cobram realização de testagem em massa na categoria. Segundo o Sindsep (sindicato dos servidores municipais de São Paulo), até o momento dois funcionários dos cemitérios morreram de coronavírus.

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