Vale tudo pela conquista de likes e seguidores?

O questionamento sugiu diante da repercussão do caso dos youtubers pernambucanos detidos quando tentavam gravar uma “pegadinha” em frente ao Cotel

 João Victor, 8 anos, grava vídeos e tem um canal próprio João Victor, 8 anos, grava vídeos e tem um canal próprio - Foto: Ed Machado

Há limites para o entretenimento? E na busca por seguidores e likes na era dos digitais influencers, vale tudo? Os questionamentos surgiram diante da repercussão do caso dos youtubers pernambucanos Gerson Albuquerque, Wesllay Meireles, do canal Matuto Motvlog, e Mateus Kleber Oliveira, do canal Êta Bixiga, detidos quando tentavam gravar uma “pegadinha” no Centro de Observação Criminológica e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife.

Os rapazes afirmaram que tudo não passou de brincadeira e que não tinham intenção de denegrir nem invadir a unidade prisional. O próprio Gerson Albuquerque admitiu, após audiência de custódia realizada no fórum de Olinda, onde foi arbitrada uma fiança de R$ 5 mil para cada um, que de fato a brincadeira foi um erro. “Não devemos brincar com essa situação de risco, em um presídio. Eu errei sim”, disse Gerson, em um vídeo no qual ele explica como a brincadeira foi pensada.

A ação dos youtubers, que também envolveu um quarto participante, de 17 anos, dividiu opiniões nas redes sociais. Há várias declarações de quem conhece e apoia o trabalho dos pernambucanos, atribuindo os excessos à polícia. Por outro lado, muitos consideraram que a pegadinha “passou dos limites”.

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A psicóloga educacional e professora da Universidade Estácio, Julianne Gomes Correia, afirma que o Brasil é um dos maiores consumidores de conteúdo da plataforma Youtube. “Sem dúvidas, gerenciar um canal de sucesso requer inúmeros saberes acerca de digital mídia, negócios, trato de informações, roteiros etc. É preciso ser criativo e inovador para lançar algo inédito”, destaca.

O problema, segundo ela, é quando, para se enquadrar nesse perfil de sucesso, os conteúdos acabam levando a exposições indevidas. “Por vezes nos deparamos com conteúdos que violam normas éticas e legais, que vão desde a exposição indevida de pessoas ou produtos sem a requerida autorização, ou de tentativas imprudentes de filmagens e acesso a locais com relativa periculosidade. Como foi o caso dos youtubers que foram confundidos com bandidos”, alertou.

Em entrevista à Folha de Pernambuco, o fenômeno das redes sociais Whindersson Nunes, 23 anos e quatro de carreira, falou sobre os cuidados que ele tem ao produzir conteúdos para a internet, já que uma parte do seu público é formada por jovens. “Ser influenciador digital é algo que carrega muita responsabilidade. Tenho todos os dias milhões de visualizações nas minhas redes sociais, então eu penso muito no conteúdo que eu posto. Acho que os seguidores têm que te admirar da forma que você é, não precisa ser apelativo. Seja original, fuja das polemicas e acreditem nos seus sonhos”, declarou.

Da tela do computador, com vídeos humorísticos e paródias, para os palcos com shows de stand-up, o piauiense Whindersson tem mais de 25 milhões de inscritos no Youtube. O número de visualizações de suas postagens ultrapassa a casa dos bilhões.

Quem também segue essa linha humorística nas suas postagens é o ator pernambucano Flávio Andrade. Ele tem mais de cinco mil inscritos no seu canal do Youtube e mais de 10 mil seguidores no Instagram. “Eu faço vlogs, gravo clipes, uma série de vídeos relembrando as brincadeiras da infância. Fiz um vídeo falando sobre as festas típicas do interior e tive mais de quatro milhões de visualizações”, comentou.

Flávio afirma que “não há limites para o humor, mas o comediante precisa ter consciência do seu limite”. “Vivemos num mundo midiático e na internet não tem fórmula para o sucesso. Um vídeo caseiro pode fazer mais sucesso que um vídeo produzido. O que temos que priorizar no nosso trabalho é se o conteúdo que estamos produzindo é bom e tem relevância. É claro que nos meus vídeos de stand-up tem alguns que não são indicados para crianças, mas sempre foco em fazer algo para atingir todos os públicos”, disse o humorista.



Para o publicitário Marcos André, autor do perfil “Esse dia Foi F...”, a preocupação não é com likes ou seguidores, mas com a mensagem que deve ser passada para quem o acompanha. “Tenho 2,5 milhões de seguidores no Instagram e tento mandar uma mensagem legal para as pessoas que me seguem, seja sobre felicidade ou pensamentos políticos. Tudo tem que ter um limite, principalmente sobre algo que não traz conteúdo relevante para ninguém”, pontuou Marcos.

Pegadinhas erradas
Há outros casos recentes de tentativas de produzir vídeos engraçados, seguindo a linha das pegadinhas e brincadeiras que não saíram como o planejado e acabaram na Justiça. Em Barcelona, na Espanha, o youtuber americano Kanghua Ren, de 20 anos, gravou um vídeo em que oferecia um biscoito a um morador de rua. O problema é que ele substituiu o recheio por pasta de dente.

O vídeo, que foi divulgado em janeiro no canal Reset Gamer, e já foi apagado, ganhou maior repercussão na última semana, quando o Ministério Público da Espanha passou a investigar a “brincadeira”. A Justiça determinou uma fiança de dois mil euros e o proibiu de deixar o país.

Em junho do ano passado, na cidade de Minessota, nos Estados Unidos, um casal de youtubers conhecidos por compartilharem suas vidas com adolescentes, tiveram a ideia de gravar um vídeo em que Monalisa Perez, de 19 anos, atiraria contra o namorado Pedro Ruiz III, de 22 anos. O desafio, transmitido ao vivo pelo Youtube Live - serviço de streaming em tempo real -, era usar um livro grosso para parar a bala disparada de uma pistola, mas o rapaz acabou morrendo.

Sucesso de décadas

Na TV aberta armar pegadinhas e mostrar vídeos com situações engraçadas virou fórmula de sucesso durante décadas nos programas de auditório. Com o surgimento da internet e a facilidade de postar conteúdo nas redes sociais, esse formato de entretenimento continua sendo bastante visualizado e tem sido replicado por um público cada vez mais jovem.

“A forma de fazer sucesso e ser um viral, que é o mais almejado, às vezes se dá por vias do teste da coragem, em que a pessoa é desafiada a fazer algo bem aos critérios de ser ‘sem noção’. Esse perfil é o que dá audiência”, afirmou a psicóloga e professora da Universidade Estácio, Julianne Gomes de Oliveira.

O porquê desses quadros ainda fazerem sucesso também é explicado pela especialista. “Há um fascínio na condição humana por ver o outro em condição de risco e ele se dar mal, a gente ri disso e consegue fazer piada. Isso tem se atualizado nos jovens, que assumem o risco da piada a qualquer custo”, avalia.

O risco ético e penal destas situações, muitas vezes não é levado em consideração na hora em que as pegadinhas estão sendo pensadas. É nesse ponto que os especialistas chamam atenção para o debate sobre a educação tecnológica. “A educação deve promover o bom uso das redes sociais, sem a exposição vexatória, o consumo irresponsável e o sucesso a todo custo”, alertou.

Os desafios para quem está começando
João Victor ainda completará nove anos, mas já tem um objetivo para o futuro: ser famoso. Inspirado nos grandes youtubers como Felipe Neto e Whindersson Nunes, além de outros canais que falam sobre games, o pequeno produz vídeos caseiros sobre variedades do seu cotidiano. “João Victor sempre gostou de fazer vídeos, ele tem um canal no Youtube e um perfil no Instagram que são administrados por mim. Ele começou querendo mostrar o seu material escolar, depois quis se desafiar mascando chicletes com pimenta”, comenta a mãe do youtuber mirim, a jornalista Tatiane Accioly.




 Esse cuidado em administrar a página do filho é justamente por conta do poder de influência que esses digitais influencers têm perante o público jovem. “Depois desse interesse dele, passei a acompanhar mais canais, principalmente os que ele mais gosta. Tanto para saber o que ele vem assistindo como para ter ideias para os vídeos dele”, disse. Ela também afirmou que conversa muito com João Victor sobre os assuntos que são mais adequados para a idade dele.

“João assiste muito os canais de jogos do MiniCraft e os irmãos Neto. Vejo muita gente falando mal de Felipe Neto, e isso me fez passar a acompanhar mais o trabalho dele. Ele é brincalhão, não chama mais palavrão nos vídeos por causa do público e sempre dá conselho as crianças”, disse.

Sobre o desejo do pequeno de mudar de vida, a exemplo dos ídolos virtuais, Tatiana diz que “puxa o filho para a realidade”. Ela incentiva João Victor a continuar suas postagens para, quem sabe, um dia conseguir alcançar o sucesso.

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